Luiza – Yara & Luciano

Por Yara, mãe
38 semanas e alguns dias de gestação

Parir
A capacidade de parir é dada a qualquer mulher. Aliás, qualquer não. Qualquer parece desqualificar. Talvez o melhor seria dizer às mulheres. A capacidade de parir é dada às mulheres. Não sei exatamente há quantos anos parimos nesse mundo. O fato é que faz tempo. Mas, há pouco, parece que estamos nos convencendo de que não dá. Não dilatamos. Não contraímos. Não abrimos. Não somos capazes. Precisamos de ajuda. Ainda bem que os médicos existem. Sem eles não poderíamos ter nossos filhos. Sem eles a humanidade estaria fadada ao fim.

Será?

Embrião

Um único dia. A certeza de que eu teria dois filhos. A certeza de que faltava alguém na nossa família de três. E faltava. Não vou mais tomar essa pílula. 15 anos de hormônio é muito. Chega. Não tomo mais. Jura? Juro. Falei que não ia tomar e não tomei. Eu te avisei.

Mas não temos dinheiro para o quarto membro. Não temos dinheiro para completar a família. Ok. Mas eu não tomo mais hormônio. Então vou evitar aproximação. Dia 30 de março. Aproximamo-nos.

17 de abril
Peito gigante. Êêêêê! A despeitada adora o peitão. Doído. Doído? Estranho. Enjôos a cada duas horas. O que está acontecendo comigo? Luciano, tô com o peito doendo e tá grande, não está? Tô enjoada. Pelamordedeus, mulher? Tá grávida? Não sei.

30 de abril
Amanhã vou fazer um teste. Tô muito estranha.

1º de maio
Feriado. Tô grávida. Acabou a mamata. Vamos começar tudo de novo! Yara, é menina. É a Luiza. Eu quero menina. Amore, e se for menino? Não quero que você não queira meu menino se tiver um menino aqui. Relaxa. É menina. Mas, meu Deus. Como vamos fazer? Marido preocupado. Mulher cabreira. Poxa, queria que ficasse feliz.

2 de maio
Pedro e Luciano chegam no meu trabalho. Tem presente. O que é isso? Surpresa. Nós escolhemos juntos. Ownnnn! Um macacãozinho. Branquinho. Meu marido está feliz. Meu filho está feliz. Vamos completar nossa família.

13 de maio
Dia das Mães. Vamos almoçar em um restaurante legal. Na praia. Mãe e Vó, estou grávida. É. Tô grávida. Eba! Família que chora e se emociona unida, permanece unida. Pai, tô grávida. Vai ter? Claro! Então tô feliz por você. Preocupado mas feliz. Pai, fica só feliz. Deixa a preocupação pra mim. Pessoal, tem uma nota musical dentro de mim. Tem um neném na minha barriga.

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14 semanas

Luta

7 de junho
Estava eu em busca do meu parto. Tentando entender qual o custo (financeiro, emocional, familiar) que ele teria pra mim. Já sabia que não poderia contar com a sorte. Então tinha que contar com a cabeça e a intuição. Que dessa vez teria que ver nuances. Só conseguia ver um parto normal com um plantonista. Só escutava, pelo plano, só se chegar parindo. Pelo plano, só se chegar parindo. Mas era isso que eu achava da primeira vez: “só chegar parindo”. Cheguei com contração de dois em dois minutos e 2 cm de dilatação. Então não é tão simples assim chegar parindo. E se eu não chegar parindo? Não posso correr esse risco.

Da médica onde eu estava indo, pelo plano, ouvi: “É, pós cesárea, entre Natal e Reveillon, vai ser difícil”. Em casa, comigo aos prantos, minha mãe disse: vai no particular. A gente dá um jeito. E foi da poupança da minha avó de 88 anos, que teve um VBAC (vaginal birth after c-section, ou parto normal depois da cesárea) em 1956, que saiu o dinheiro que permitiria que eu deixasse a natureza agir.

Em algum momento de Julho
Yara, você precisa de uma doula. Olhei as meninas, o face. Selecionei três. Hummm, a Bruna (mulher querida do meu irmão) deve conhecer alguma. Bingo. Maíra Duarte. É ela. Mandei email, liguei e bateu. Olha as energias trabalhando.

1° de agosto
O consultório dela estava em reforma. Então eu deveria atravessar a cidade e encontrá-la em outro lugar. Chegamos com facilidade. O lugar era mágico, colorido, cheio de penduricalhos. A impressão era de termos entrado em uma outra dimensão.
Ela estava de calça clara, leve, como aquelas que usamos na praia, na Bahia, sabe? Queimada de sol, sorriso no rosto, cabelão.

– E aí, gente?
– Queremos um parto normal.
– Tá bom.
– O que vocês imaginam?
– Não temos grandes planos. Só não queremos ser enganados.

Ela sorriu.

Saí de lá com a certeza de que era ela.

Naquele ponto minhas vontades tinham ganhado nomenclaturas. Eu achava que um parto normal, era normal, deixando o neném sair. Não é. No Brasil, um parto normal é um parto com soro (ocitocina sintética) e episiotomia (corte na vagina – nem sei como usei esse nome pra ela) de rotina.

Alguém me cortar? Nãooooo! De rotina? Nãooooo! Não quero saber de senso comum no meu aparelho reprodutor. Gente, eu sou pequena, mas eu juro que eu consigo. Eu juro. E não é porque eu sou forte. É porque eu sou mulher. E mulher nasce com essa capacidade.

Yara, o que você quer é um parto natural. Ahhhh, tá. Eu não gosto de nomenclatura. Eu só quero parir.

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21 semanas

Finalmente, gestando

Setembro
Agora eu posso relaxar. Vou curtir minha gravidez. Fazer massagem com a Maíra, conversar e chorar na sala da Betina. Sim, ela não faz consulta. É sessão. Entrar e sair desses lugares pra conversar, chorar, encarar os medos. Avisei: eu não quero anestesia. Nem se eu pedir. Só quero se isso for impedir uma cesárea. De novo, gravidez de livro. Pressão ok. Neném virado. Contrações de Braxton Hicks como companheiras diárias. Peso? Lindo. A cada mês eu me achava mais linda. E todo mundo me achava maior.

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29 semanas

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29 semanas

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29 semanas

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29 semanas

Novembro
Yara, vou viajar o fim do mês todo. Meu amor, pode viajar o quanto você quiser. Até o dia 15 de dezembro. Dia 15 de dezembro você volta. Muita caminhada, trabalho a mil. Cansaço bom de dever cumprido no fim do dia. Contrações, contrações, contrações. Cada vez mais frequentes. Trânsito frenético, contrações a mil. Problema de dinheiro, contrações a mil. Descida de ladeira, contrações a mil.  Vamos pro Rio que eu quero foto em Ipanema. E pra Vila, afinal as meninas dessa casa são paulistanas. Pra quando é? Depois do dia 3 de dezembro tá pronta. Até que dia você vai trabalhar? Dia 14 de dezembro. Tá doida,Yara? Não. Doida eu vou ficar em casa sem fazer nada.

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34 semanas

Dezembro

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37 semanas

12/12/12

Luiza, minha filha, hoje não. Vem cá, vamos conversar. Os hospitais estão cheios. Eu quero poder ir pro quarto com você. Hoje não. E seu pai ainda não chegou. Tá em Joinville. Ele chega dia 16 de dezembro.

13 de dezembro
Aniversário do dindo. Contração, contração. Adoramos o número treze. Um mês antes do aniversário do seu pai. Contração, contração. Taxista mané. Desabafo no Facebook. Yara, você tá parindo? Não. Essas contrações são normais. Minha DPP é só depois do Natal. Yara, quer ajuda? Não, gente, juro, essas contrações são normais. Já acostumei com elas. Minhas companheiras de gestação. Dói sim, mas é pouquinho.

Finalmente, parindo

14 de dezembro

14h
Chega de trabalhar! Quero comprar uma roupinha vermelha para minha filha. Quero que ela possa colocar quando nascer. Vou pro shopping. Yara, você ainda não fez a mala? Não. Mas ainda tenho uma semana. Agora parei de trabalhar, vou ajeitar tudo. O quarto, a mala, as roupas. Vou pro shopping procurar a roupinha vermelha. Nossa, que barrigão. Pra quando é? São gêmeos? Nossa, senta aqui. Não fica em pé, não. Senta. Senta. Senta. Tô bem em pé, gente.

22h
Nossa, cansei. Vou deitar. Betina, minha amiga, fui passear no shopping. Tô cansadona. Vou sentir saudades da gravidez. Não sinto ansiedade, nem nervosismo. Me sinto plena e feliz.

23h
Tô cansadona. Vou dormir. Acho que um seriado pra ver se eu relaxo.

15 de dezembro

00h
Amore? Tá acordado. Cri, cri, cri… Contração. Tá estranho. Doendo. Amore? cri…. Contrações a cada 10 minutos. Cri…cri, cri…

3h06
Banheiro. Tampão. Saiu o tampão! Filha, tô aqui, seu irmão tá aqui. Vem! Banheiro. Quatro vezes no banheiro e contrações doídas. Vocaliza, Yara, vocaliza. Ahhhhhhhhhhhh. Ahhhhhhhhhhh. Ahhhhhhhhh. Você sabe que vai demorar. Lembra que da outra vez você achou que contração bem pertinho assim era fim de trabalho de parto? Pois é. Seu padrão é outro. relaxa porque vai demorar. Contrações de cinco em cinco minutos. Ahhhhhhhhhhhhhhhhh. Ahhhhhhhhhhhhhh. Vou tentar dormir.

3h42
Luciano, pelo amor de Deus. Atende o telefone! Atende! Vou tomar um banho pra ver se espaça e eu durmo. Preciso de energia para chegar até o final. Vou colocar no silencioso. Preciso saber se você vem. Preciso desligar do mundo externo e concentrar no meu corpo. Dá sinal de vida.

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8h
– Oi, desculpa. Estava dormindo. Ainda tem contração?
– Claro! Tô contando para mandar pra Maíra.

9h
– Novidades?
– Dormi.
– Compra a passagem pra mim?
– Compro. Eu te disse que era pra voltar dia 15. Eu avisei. Péra, anota o número e senha e compra aí. Mandei mensagem pra Maíra. Ela acordou porque tem email dela na lista. Pedro está a mil. Espera. Contração. Ahhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh. Pronto. Fala.

10h21
– Falei com a Betina. Ahhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh. Ela disse que se você não quer correr risco nenhum de perder o parto é melhor vir hoje.
– Tô indo.
– Ufa. Ahhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh Tô te esperando. E vou desconectar.

13h
– Tudo bem aí?
– Tudo, mas cansei de contar contração. Tomei mais banho. Tô dormindo e acordando. Pedro me traz água e comida. Também marca as contrações quando eu peço. Filho doulo. Ahhhhhhhhhhhhhhhh

15h
– Chego às 17h se não tiver atraso. Ligou pra sua mãe?
– Não liguei. Só dormi, acordei, Ahhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh. Tomei vários banhos. Chuveiro é vida.

17h
– Tô no avião.
Cri, cri, cri…. Cri, cri, cri….

——–
18h – Pedro. Luciano. Yara.
Ligou pra alguém? Não. Nem pra Maíra? Não. Comeu? Não. Pai, minha mãe tá exagerando, né? Acho que não filho. Dói mesmo. Pedro, vocalizar ajuda a focar. Ahhhhhhhhhhhhhhhh. Vem minha filha. Seu pai já chegou. Tempestade na janela. Maíra quer saber de quanto em quanto tempo está a contração.

– Não sei. Parei de contar. Ahhhhhhhhhhhhhhhh
– Vou contar. Me avisa.
–  Ahhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh.
– Já passou a contração?
– Ãhn?
– Pô, me avisa quando passar a contração.
– Não é óbvio? Ahhhhhhhhhhhhhhhhhh Não dá. Não dá.

A Maíra está vindo. 19h Olhos da Ma. Você está bem? Estou. Luciano vai comprar alguma coisa pra ela comer. Precisa da mangueira pra encher a banheira e da banheira. Vai buscar, por favor? Cadê a mala? Não fiz. Você quer ir pra maternidade? Ainda não conversei com ele, Má. Morango e cereja. Come. Ahhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh Queria melancia e goiaba. 4 centímetros. Comprei cereja porque você ama. Amo. Mas queria melancia e goiaba. Amore, vamos ficar aqui em casa? Não conversamos. Vamos, vai? Não conversamos, a gente precisava de mais tempo. Eu precisava de mais tempo. Por favor, vamos pro hospital.

– Ahhhhhhhhhhhh Má, nós vamos pro hospital.

Chuva na janela. Pedro sumiu. 6 centímetros. 21h30 Vamos pro hospital. Luciano e Maíra fazem as malas. A Betina já está indo. Vou tomar mais um banho. Não posso esquecer o xampu. Eu quero tomar banho depois de parir. Eu quero poder levantar da cama depois de parir.

Pega três travesseiros. Ahhhhhhhhhhhhhhhhhh. Yara, deita como você estava na cama. Usa os travesseiros para apoiar. Ahhhhhhhhhhhhhhhhhh. Ai, eu me lembro de cada buraco que passei com contração quando fui pro hospital no TP do Pedro. Ahhhhhhhhhhhhhhhhhh. Luciano, a cada contração, para o carro. Pode ir amore, passou. Onde a gente está? Na Hélio Pelegrino. Amore, entra na Clodomiro à direita. Para de novo! Contração. Ahhhhhhhhhhhhhhhhhhh.

Espera. Vou descer. Ahhhhhh, a Betina. Oi Betina. Não sei com que calça ela estava. Mas acho que a bolsa era marrom. 22h30. Quer cadeira de rodas? Não, obrigada. Só paciência mesmo. Eles vão medir. Não tem problema. Pode medir. Vou fazer o toque, tá? 8 cm. 8cm? Caramba. Não tem Delivery. As duas ocupadas. Betina, eu não fiz depilação. Não tem problema. Rs. Ahhh, me arruma um delivery. Quem está lá? Me arruma um vai? Vou ver. Eu preciso muito. Ela precisa. Ai, não acredito que não vai ter delivery para mim. Ainda bem que eu não estava contando com a sorte.

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Saída

Vem comigo. Eu, Maíra e a enfermeira seguimos pelo corredor. Espera. ahhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh Sala 1. Yara, tem Delivery! Tem Delivery. Ufaaaa! Vou encher a banheira. Posso tirar a roupa? Claro. Oba, posso ficar pelada. Posso entrar na banheira enquanto você enche? Melhor esperar. Tudo escuro. Vou entrar no chuveiro, então. Ahhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh. Muito quente essa água, não regula. Pode entrar na banheira. Ahhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh. Luzinhas no teto. Músicas da Maíra. Água quente.

Podem jogar água em mim, sim. Ai que bom. Isso apertem aí. Apertem. Massagem na lombar.

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Massagem

16 de dezembro

Por volta da 00h. Posso fazer um toque? Pode. 10 cm. Agrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrraaaaaaaaaaaaaaaaaa! Vontade de urrar! Agrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrraaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa. Yara, você tá com vontade de fazer força? Não. A força é que tá com vontade de fazer força sozinha. É assim mesmo. Nossa, que violento. Ai, tão bom estender a mão e agarrar a mão do meu companheiro. Ver os olhinhos dele no escuro todas as vezes que eu abro os olhos. Nossa, tem mais uma pessoa aqui. Maíra, Betina, Luciano. Essa deve ser a Sandra. Agrrrrrrrrrrrrrrrrraaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa

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Betina

Yara, usa essa força que você está colocando no urro e manda ela pra baixo, como se respirasse a força. Mmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmm! Não consigo, Má. Consegue, sim. Mmmmmmmmmmmmmm! O banheiro esvazia. Desistiram de mim e da Luiza. Acho que eu vou levantar. Nossa tem uma coisa no meio das minhas pernas. Parece uma bexiga. É a bolsa. Estourou e ficou presa aqui. Quer ir pra cama?

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Cansaço

Deita na cama, apoia na bola. Vê se fica confortável. Que horror. Me dá uma sensação de instabilidade total. Não quero bola. Vou voltar pra banheira. Acho que são a Sandra e a Betina que estão no sofá. Vamos ouvir o bebê? Pode ouvir. Eu sei que ela está bem. Foi todo mundo embora do banheiro. Acho que elas pensaram que eu ia parir e eu não pari. Meu Deus, que força do além é essa. Parece que vai me rachar no meio. Eu não consigo aproveitar todo o tempo da contração. O meu fôlego acaba no meio. Não encostem em mim. Ninguém joga água em mim. Ninguém encosta em mim. Yara, bebe isso aqui ó. Que troço ruim. Pelamordedeus. Vai te dar força. Vai me dar vontade de vomitar isso, sim. Muito doce.

Eu não vou conseguir, eu não vou conseguir. Meu Deus, eu faço força e ela não sai. Luiza, vem minha filha. Pelamordedeus. Eu coloco a mão lá embaixo, queria sentir a cabeça. Não sinto nada direito, parece que tá tudo estranho. Vou sair da água, quem sabe me dá mais força. Eu não aguento mais. Luciano me olha. Olhar parece de surpresa com admiração. Será que ele está com pena? Pena, não. Eu tô onde planejei e quis. Onde eu sonhei.

Será que força em pé ajuda a gravidade? Mmmmmmmmmmmmmmmmmm. Nossa, tô zonza.

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Mmmmmmmmmmmmmmm. Vou agachando um pouquinho. Por que eu não consigo ficar sentada nesse banco? Amore, me ajuda. Vou cair. Tá tudo molhado. Alguém me ajuda com essa bexiga no meio das minhas pernas? Eu tento arrancar com a unha, mas não dá. Tá me irritando. Tá tudo me irritando. Não vou aguentar. Vou voltar pra banheira pra tentar dormir. Eu preciso de força.

Ai, que delícia de banheira. Eu li na lista que quando o pensamento começou a negativar, a coisa desandou. Yara, o que tá segurando ela aí? O que tá pegando? Má, eu não sei! Eu tô feliz, eu quero que ela venha, eu faço força e ela não vem. Meu Deus, onde que eu tô segurando essa menina aqui dentro? Vem, Luiza, vem Luiza. Cadê a música dela?

Rua,
Espada nua
Boia no céu imensa e amarela
Tão redonda a lua
Como flutua
Vem navegando o azul do firmamento
E no silêncio lento
Um trovador, cheio de estrelas

Vem, minha filha, eu tô aqui. Tô te esperando. Eu vou conseguir, você vai vir pra mim, vem, vamos as duas fazer força. Vem minha filha. Faz anos que eu te espero. Eu sempre soube que você viria. Chegou nossa hora. Vem pro meu colo, minha filha. Sai do ventre pro meu colo. Eu tô te esperando. Seu pai me dá a mão.

Vem cá, Luiza
Me dá tua mão

Vou sair da banheira de novo. Apoia na pia. Força, força, força. Meu Deus, agora eu tô conseguindo fazer força até o fim e quando eu consigo, não dói. Só dói quando a força termina antes da contração. Mais força. Vem minha filha. Vem. Yara, vem aqui, você quer tentar deitar? Às vezes a posição mais comum é a melhor. Claro, pode ser. Eu sou uma mulher comum. Vamos lá. Mas espera. Espera. Força. Força. Vamos. Me ajuda, Luciano, tenho medo de cair nesse chão molhado.

Deitei, nossa! O que é isso. Aiiiiiiiii, tá ardendo. Yara, a cabeça dela tá aqui. Aiiiiiiiiiiiiii, aiiiiiiiii, Betina, o que você está fazendo? Nada. Mmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmm!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! Força!!!!!!!!! Quer pegar Luciano? …Titubeou um segundo! Eu quero! Eu quero! Minha filha, minha filha Luiza! Vem minha filha!

5h19
Rosinha! E branca de vérnix. Yara, é bom pra pele. Maíra passa no rosto. Que lindas essas meninas todas na minha volta. Três mulheres do bem para receber a mulher da minha vida. Minha Luiza. Apgar 10/10. Já parou de chorar. Lugar de bebê é no colo da mãe.

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Peguei a minha Luiza

Luciano não acredita. Sandra pede para pesá-la. 3,218 quilos. Colocou os pezinhos na agenda mágica e nos papeis de praxe, fez os testes e pronto. Vai pro colo da mãe. O pai, em algum momento, também pegou. Uma contraçãozinha e lá se foi a placenta. Vermelha. Grande. Laceração? Não tem não senhor. Nada? Nadica de nada. Nem arranhão. Pergunte-me como: santo epi-no. E vem pro peito, minha filha. Saiu mamando. Não precisou ajuste de pega, nem intervenção. Nasceu sabendo.

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Cordão cortado depois de parar de pulsar

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Yara + Luiza

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Quantas vezes na sua vida você já chorou, Luciano?

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Nunca vou poder agradecer o suficiente. A mulher que esperou as, talvez, 5 horas de expulsivo. Sem minar minha confiança.

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As quatro meninas de Luiza

Não tinha noção de tempo há muitas horas. Domingo, dia 16 de dezembro de 2012, às 5h19, nasceu minha sagitariana, com ascendente em sagitário e lua em aquário. Veio no dia que quis. Veio como quis. Eu vim junto. Renasci.

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:)

 

Por Luciano, pai
38 semanas e alguns dias de gestação

A Luiza nasceu no dia 16 de dezembro de 2012, mas o parto dela começou alguns anos antes. Acho que foi em 24 de agosto de 2006, quando o Pedro nasceu de uma cesárea desnecessária. Algumas poucas horas de trabalho de parto, pouca dilatação, uma médica inescrupulosa e pais de primeira viagem ansiosíssimos conduziram a mais uma intervenção ultrajante.

Desde que nos conhecemos a Yara já dizia:

-Vou casar com você e teremos dois filhos.

Depois do Pedro a regra virou:

-Só mais um e vai ser de parto normal.

O processo foi todo normal. Ela fez xixi nos dedos de novo ao fazer o teste de farmácia (não consigo mais usar o maldito copo, que ainda tá lá na cozinha, bem no cantinho), a barriga cresceu dentro do normal, ela ficou cada vez mais linda e radiante à medida que o tempo passava, o Pedro cada vez mais curioso, a família sempre perguntando, o tempo trancado na garganta e eu tenho que viajar. Data prevista do parto: 27 de dezembro. Data prevista da minha volta: 16 de dezembro. Em dez dias a gente termina de arrumar o quarto, a mala, o Pedro, a vida… Sexta feira, 14. Acho que estou com contrações, mas não te preocupa, é normal nessa época. Sexta, 14, durante a madrugada inteira. Peraí, são contrações de verdade,  quando é que tu volta mesmo?  Sábado, 15. Caralho, não consigo nem falar no telefone. Pedro, marca mais uma. O trabalho acabava no domingo, dia do jogo final da competição que encerrava o ano e com a presença de todos os chefes e das equipes mais importantes. Eu saí correndo, foda-se, minha filha Luiza, do parto de seis anos, estava nascendo! Deu tempo de chegar. Ufa. Deu tempo de chamar a linda doula. Tu acha que tá na hora, de verdade. Pô, o Pedro marcando contrações? Deu tempo de comprar umas comidinhas, água, barra de cereal, da Maira chegar, deixar o Pedro na casa da sempre presente tia Ângela e irmos pro hospital encontrar a Betina, já meio em modo zumbi, pra nos ajudar. 22h30. Sala de parto, banheira, carinho, caminhada, apóia, segura, massagem, conversas, óleos, concentra, grita, rola, abraço, beijo, palavras baixinhas, estrelas no teto, música indiana … que sabe a gente vai pra cama, pra aquela posição mais normal do mundo? 05h19, e então a mãe mais especial do mundo deu á luz à filha mais querida do mundo, da maneira mais normal do mundo. Do jeito que ela sempre soube que seria. Ainda bem que a Luiza nos escolheu. Porque com ela estamos mais completos, realizados. Mais conscientes. Maduros. Bem, pelo menos o  Pedro vai superar essa fase!

LUCIANO01

Parto de Pai

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Crédito das Fotos: Maíra Duarte, doula, acalmadora de corações e fotógrafa.

Foto das meninas: Luciano Bergamaschi.

Serviço:

Doula: Maíra Duarte – (11) 9-8415-8222/ mairaduarte@gmail.com

Obstetra: Betina Bittar – (11) 2309-8666/ 97591-3042/ consultoriobetina@hotmail.com

Pediatra: Sandra de Souza – (11) 99658-8342/ http://clinicamatryoshka.blogspot.com.br/ sandracest@gmail.com

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