Maia – Janie & Rodrigo

Por Janie, mãe
41 semanas e 1 dias de gestação

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Sento no computador em partes, 5 minutos, 15 minutos, 3 minutos e devagarinho vou digitando pedaços de vida que minha memória, meu corpo, meu coração, revivem com muita emoção. Enquanto eu te amamento revejo as fotos, tento lembrar de mais coisas que vivi e senti naquele momento para que um dia você consiga sentir nessas palavras que por por nós me parti em duas, a de antes e a de depois. Eu imaginava que iria ser assim depois de parir, só não que tanto.

O que conto hoje começou há 13 anos atrás. Começar com o parto, que hoje completa 1 ano, seria como contar uma história sem início. Então, volto um pouco e compartilho transbordando amor como, minha pequena, eu te vi nascer.

Há 13 anos atrás eu tinha 15 anos, não sabia quase nada de nada e dentro de mim uma outra vida já ganhava vida. Durante a gestação fiz o curso de gestante do hospital da cidade, conversei com sua avó que tinha tido 4 filhos de parto normal e ficou claro pra mim que o parto normal era o normal e cesariana era uma cirurgia que servia para salvar a vida da mãe e bebê caso necessário. 3 meses de muito sono, 6 de uma barriga enorme crescendo e a descoberta: um menino! Escolhi seu nome, Nicholas, e curtia ele mexendo na minha barriga, um peixe no meu aquário. Com 39 semanas e 6 dias a bolsa rompeu! Um pouco de líquido começou a sair, bem pouco, tomei um banho e fui com sua avó para o hospital. O que eu sabia de prático era que o meu corpo iria fazer o que precisava e que assim seu irmão iria nascer. 8 horas de contrações apertando um tanto as mãos da vovó, caminhando, respirando. Eu estava aguentando bem as dores, parecia que aquilo não seria tão difícil quanto eu tinha escutado falar. O médico chegou pela manhã, me examinou e disse “o bebê não vai passar, está com 5 cm de dilatação, está coroando, não tem passagem, teremos que fazer uma cesariana”. Chorei muito. Muito. Não era do parto que eu estava abrindo mão, no sabia o que isso significava, eu tinha muito medo era do corte, da anestesia, de ter que fazer uma cirurgia. Nicholas nasceu, com 3.850kg, as 9:55h da manhã de um sábado de março com céu tinindo de azul. Foi comemorado, cuidado e muito amado. Meu pós-parto, mesmo com muito carinho da família toda, foi ruim. Fiquei super fragilizada. Sem maturidade, informação e apoio profissional parei de amamentar poucos dias depois. Fui aprendendo a cuidar, mordendo suas dobrinhas e o abraçando apertado até que hoje é ele quem aperta você, e te levanta lá no alto dos seus 1.74 de altura. O parto? Ficou guardado, no fundo do baú embaixo das boas fotos de uma vida que seguiu.

Durante esse tempo vieram novas cidades, muita labuta, alegrias, medos, conquistas e, há quase dez anos atrás, um grande amor, seu pai, Rodrigo. O amor dele é tão grande que acolheu a nós dois, aí transbordou e veio você!

É menina, é uma menina!

Em março de 2012 eu fiquei 5 dias em estúdio dirigindo uma série de vídeos. Era pra eu ficar menstruada e não fiquei. Nunca anotei, mas conhecia meu ritmo.

Viajei dois dias depois para Curitiba a trabalho. Senti um leve enjôo no vôo e achei que o avião estava balançando muito. Fui direto para a produtora, chegando pedi para descansar um pouco e dormi 2 horas no sofá. Acordei e algo me levou pra uma sensação que eu já conhecia e assim o pensamento: enjôo + sono + atraso na menstruação…. será???!!!

Um bebê 12 anos depois? Eu queria recomeçar? Estava pronta? Frio na barriga!!! Na volta passamos na farmácia. Comprei um teste de gravidez e uma barra de chocolate. Banheiro. Xixi. 2 segundos. 2 listras!!! Eu estava grávida! Gestando! Eu estava pronta! Eu queria tudo isso e muito!!! Dúvidas? Nenhuminha! Ahhhhh que emoção! Quanta emoção! Abri a porta, chamei minha amiga que me hospedou em Curitiba, “Juju vem cá!” ela apareceu, olhou as duas listrinhas, nossos olhos marejados, um abraço inesquecível!

No dia seguinte fiz o teste de sangue logo cedo, fui para a produtora e o resultado saiu online. Sua madrinha Diana estava morando em Londres nessa época e estava ansiosa comigo esperando o resultado sair online. Atualiza a página, atualiza, de novo, mais uma vez… vamos dar 15 minutos? Simmmmmm!!! Confirmado!!!! Festejamos muito! Choramos de alegria! Muito emocionada respirei fundo, chamei seu pai via Skype:

Eu: quero te contar uma coisa… (e comecei a chorar, soluçar)
Ro: o que foi? (acho que seu pai já estava acostumado pois eu sou chorona e nem imaginava o que eu estava para contar!)
Eu: eu estou grávida!!!!!!!!!!!!!!!
Ro: mas como você sabe?
Eu: sabendo! Fiz o teste!
Ro: mas como assim? Que teste?
Eu: De sangue, agora de manhã!
Ro: eu vou ser pai? (não sei como essas palavras saíram, ele já tinha parado de respirar na segunda frase)
Eu: Sim!!! É uma menina! Você vai ser pai de uma menina!!!

Eu só vi que falei que ía ser uma menina meses depois revendo o vídeo no computador, eu filmei a tela enquanto falávamos por Skype sem seu pai saber!.

E assim sua vida foi recebida, com nossos braços abertos e cheios de amor!

Aprendendo a fazer escolhas

Um grupo. A primeira coisa que senti ao me dar conta do que viria pela frente é que precisava de um grupo para me informar, para conversar e me preparar. Cheguei ao Gama, aos vídeos de parto no youtube, a Ana Cristina e suas respostas para minhas dúvidas e para meu coração. Eu queria parir.

Todas as quintas estive nas palestras para casais no Gama. Mudamos de médico com 36 semanas de gestação. Participei ativamente do Materna_sp, onde tirei dúvidas, li outras dúvidas que nem tinha mas foi bom saber das respostas.

Li o Parto Com Amor, Parto Ativo, Quando o Corpo Consente, Se Me Contassem o Parto e outros mais e textos, e blogs, e relatos, e relatos, e relatos.

Cantei no chuveiro para me acostumar com meu som, sentei no banquinho e me apaixonei pela água do chuveiro na minha lombar, me questionei se conseguiria e quando eu tinha coragem de dizer que tinha medo de conseguir, o Rodrigo me lembrava de que eu só saberia se tentasse e que sabia que o que estivesse ao meu alcance eu faria, e até lá iríamos juntos.

Foi assim que a barriga cresceu, conheci o tamanho do meu medo, dos meus traumas, das minhas alegrias, do limite da minha pele, do peso dos ombros e da pressão na pelve, da minha coragem. Conheci uma quantidade de alternativas que só fizeram sentindo a partir do momento que aprendi a fazer escolhas. De nada adianta ter liberdade se os olhos não abrirem para olhar o horizonte.

Foi naquele pôr-do-sol

37 semanas e um dia inteiro sentado na sala do Gama, com outros casais, ouvindo Mariana no curso de preparação para o parto. Cada etapa, com detalhes. Mas fase latente termina quando? E a doula chega quando? Todo parto começa quando a bolsa se rompe? Depois do parto foram explicadas as intervenções, estas que geralmente desencadeiam outras intervenções. Por fim as intervenções praticadas como protocolo nos bebês logo que nascem. Aspira, estica, mede, limpa, suga, ufa!!! Muito já tínhamos escutado nas palestras das quintas-feiras, pois frequentei assiduamente, mas estava alí, tudo sendo repassado, o que esperar do parto, do corpo, do bebê e também do hospital. Saímos de lá e seu pai parou na praça do pôr-do-sol. O fim de tarde de primavera estava lindo. Falávamos sobre o parto, sobre nossas possibilidades e ele “… acho que precisamos esgotar o assunto parto domiciliar”. Pronto. Choro só de lembrar! Abri meu coração, falei de todos os meus medos, meus sonhos, ele escutou, acolheu, me ajudou a pensar, olhar, respeitar o medo mas não me paralisar por conta dele. Ele falou dos medos dele, das preocupações e das possíveis estratégias. Nos abraçamos, muito, e minha respiração a partir daí mudou.

Combinamos que só iríamos fazer o parto em casa se nossa médica e a obstetriz autorizassem com base nos exames que tínhamos feitos. Isso era quinta feira, feriado. Tínhamos consulta marcada para a terça seguinte com a Dr. Déborah. Chegamos em casa, enviei um e-mail pra Ana Cris com o assunto “mudança de planos”.

Na consulta, a médica nos apoiou e esclareceu nossas dúvidas sobre o “plano b”, que seria com ela no hospital. Tudo combinado e fomos pra consulta com a obstetriz. Eu era pura ansiedade, estava mesmo planejando ter minha filha em casa? Ía ter coragem? Estava pronta? Será possível? Será que consigo? Será que estou louca? Olhou os exames, fez perguntas, esclareceu nossas dúvidas e… e agora? Agora era comigo. Com seu pai. Com você. Nossa escolha estava feita.

Pausa – 38? E agora?

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Parei de trabalhar. Ainda respondia uns e-mails. Foi muito difícil desconectar a cabeça do que me ocupava 12 horas por dia. E agora? Tinha que olhar pra mim?

Olhei a lista de coisas necessárias para ter em casa para o parto 752 vezes. Tudo separado. Acho que não chegavam a 15 coisas, tudo simples, e eu olhava e reolhava. A mala da maternidade pronta no cantinho do quarto com todos os documentos e exames. Na geladeira um papel com a senha da internet e os telefones de contato em ordem de “quem deve ser acionado primeiro”. Compras feitas. Uma caixa com bolos, chocolates e sucos para o dia do parto, afinal quanto tempo a equipe vai ter que ficar aqui em casa? Temos que estar preparados… pode demorar.

Bebês não nascem de 38 semanas? Porque todo mundo se assusta quando passa de 38? Eu já estava com tudo pronto! Já não tinha mais do que fazer! O que arrumar! E porque não começava o trabalho de parto?

Aprendi na marra que o tempo não era controlado por meu check list. O tempo testou minha confiança. Noites em branco, afinal a noite geralmente é quando o trabalho de parto começa, corpo relaxado… Muito cansaço no dia seguinte, um sorvete para acalmar o calor dos dias mais quentes do ano e muito colo do seu pai.

Se você vier
Pro que der e vier
Comigo…

Eu lhe prometo o sol
Se hoje o sol sair
Ou a chuva…

Se a chuva cair
Se você vier
Até onde a gente chegar
Numa praça
Na beira do mar
Num pedaço de qualquer lugar…

Nesse dia branco
Se branco ele for
Esse tanto
Esse canto de amor… amor…

Se você quiser e vier
Pro que der e vier
Comigo

Se você vier
Pro que der e vier
Comigo…

Dia Branco – Geraldo Azevedo

Te vi nascer

Madrugada de sábado para domingo, dia 9 de dezembro de 2012.

Estava dormindo, acordo com a sensação de que algo estava se soltando dentro de mim, levanto correndo e sento no vaso do banheiro do quarto, sinto algo molhado escorregando dentro de mim. Olho para baixo e uma mancha grossa vermelha forte está lá no fundo.

Eu: AMOR! Amor? Amor!
Ro: (acordado, sem levantar): oi…
Eu: Amoooooor! saiu o tampãããããããooooooo!!!!
Ro: Eeeeeeebaaaa que legal!!!!
Eu: Quer vir aqui ver?
Ro: Não… não precisa… vem deitar…

Murchei. Poxa, tinha que participar! Um tempão depois ele me contou que gostaria de ter levantado, que pensou nisso depois e que se arrepende de não ter ido.

Pródomos – contrações leves, de 15 em 15 minutos.

Voltei para a cama, nos abraçamos, silêncio. Seu pai tentando embalar o sono. Eu esperando o sono voltar e quem vinha era uma cólica, de repente começava láaaaaaaaaaa de longe, de onde vem as contrações, onde não sei explicar, um incômodo e eu respirava com um pouco mais de intensidade. Seu pai ouviu minha respiração. Três vezes depois… “está indo e vindo né? Vamos marcar? Vamos lanchar?”

Claro que o sono não veio. Fomos fazer um lanche e vimos que o pão estava acabando, mesmo tendo feito uma compra para a equipe, imagine só deixar passar fome com trabalho de parto longo? Seu pai resolveu ir comprar pão na padaria 24 horas (sim ele saiu!). Fiquei com o celular dele para marcar as contrações no aplicativo (sim ele saiu sem telefone!!!). Voltou com 20 pães, rindo muito pois se deu conta de que você ía nascer e ele não tinha o que estar fazendo na fila do caixa da padaria as 5:30h da manhã!

Mandei mensagem para duas amigas que combinei que iria avisar se entrasse em trabalho de parto, Renata Corrêa, que estava com a Liz com quase 4 meses e Natalia, que esperava Inês, também para um parto domiciliar e estávamos com a mesma equipe.

Depois do lanche voltamos para a cama, tentar descansar era o que tínhamos que fazer, como indicava o que lemos e ouvimos.

Mandamos uma mensagem para a Maira avisando que tinha começado, para ela nos ligar quando visse a mensagem.

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Manhã do dia 09 de dezembro de 2012. Dia branco.

Fase latente – contrações de 8 em 8 minutos

As 8h da manhã saímos do quarto, levantamos. Já não dava mais para ficar deitada tentando dormir. Andamos pela casa, seu irmão acordou, descobriu que o trabalho de parto tinha começado e que este era o sinal de que logo você chegaria. Ele estava ansioso. Sabia de várias informações e tinha ideia do que ía acontecer. Já tinha combinado com a Diana que ela viria para fazer companhia para seu irmão enquanto seu pai estaria comigo.

Maira ligou, ligamos para a Diana. As duas a caminho.

As contrações estavam então de 8 em 8 minutos, eu conseguia conversar entre uma e outra mas não tinha muito foco para diálogos mais longos. Me lembro de perguntar “fala para a Diana vir para cá… pra não demorar.” Ouvi seu pai conversando com ela, não me lembro o que era mas me lembro de repetir “fala pra vir logo!”

Ficamos pouco tempo fora do quarto. Escuro, ninho. A sensação de ninho era gostosa.

Maira chegou, ah que alívio olhar para ela! Acho que eram dez e tanto da manhã. Tudo certo, tudo normal, estamos indo bem mas ainda no começo. Ela foi embora e disse que voltaria em três horas.

As cólicas tinham se transformado em ondas mais fortes. No final da coluna uma dor que não sei explicar bem como era. Uma contração. Ficava de quatro na cama apoiada nos travesseiros. Quando vinha seu pai massageava forte, as vezes eu queria mais massagem, as vezes pedia pra tirar a mão. Fiquei de cócoras na ponta da cama e parecia uma posição gostosa. Comecei a soltar um “aaaaaaa…” baixinho. Para ajudar a respirar quando a dor vinha. Para me acostumar com minha voz. Tinha medo de travar o processo por vergonha de gritar. Acho que deu certo, a partir daí não parei mais de vocalizar.

Coloquei a calcinha e o sutiã que tinha escolhido para usar em casa, confortáveis, molinhos.

A cada contração seu pai dizia “mais uma, que bom, está tudo certo…” Ele respirava comigo, fazia o “aaaaaa” junto. Massageava.

De repente a dor subiu mais um estágio. Minha voz começou a ficar um pouco mais alta. Me assustei. Ro ligou para Maira. Senti medo. Seu pai me acalmava, fazia massagem, me lembrava de respirar. Encheu a bola de pilates. Eu já não queria conversar muito entre uma contração e outra. Estava tentando entender o que fazer, com lidar com aquela onda que já já viria de novo.

Lembro de conseguir lidar com ela, me acalmar, me concentrar de novo por conta da voz do seu pai. Depois do meu grito ficar mais alto, logo que acabou a contração ele me disse “essa foi mais forte né? Está tudo bem, vamos aprender a lidar com ela”. Ele dizer o que estava acontecendo me ajudou muito. Eu me sentia menos perdida. Mais segura.

Diana chegou! Um abraço no corredor! Ufa! Fiquei muito trânquila por saber que seu irmão agora estava com ela na sala. Relaxei um pouco mais. Me entreguei um pouco mais. Cada pouco era como ir cada vez mais longe daqui e chegar mais perto de você. Mas eu não tinha controle. Isso era natural, meu corpo sabia pra onde me levar.

Acho que por volta das 2 Maira chegou para ficar! Ueba! Ela entrou pro nosso ninho, música, me fez massagem, sorriu, trouxe calma, segurança. Ficamos todos juntos na sala. Nicholas tirou umas fotos. Eu conseguia conversar entre uma e outra mas não me lembro de nada do que falamos.

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Contrações de 6 em 6.

Comecei a sentir uma dor dentro de mim, além da lombar, onde acho hoje que era meu colo do útero. Uma fisgada pontual. Quando as contrações ficavam mais doloridas esse lugar ia ficando maior, parecia que uma linha se abria na base da minha barriga e ía ficando maior. Eu mostrei isso para seu pai. No começo era um ponto e que agora era uma linha pequena muito dolorida. Eu estava enfrentando a dor, eu estava com medo dela. Quando vinha uma contração meu corpo se preparava para “aguentar”. Meu ombro subia. Minha respiração queria parar. Estava forte. AAAAAaaaaa…. Mas não queria ficar aguentando mais e mais contrações. Perguntei se tinha algo que eu pudesse fazer para fazer com que tudo andasse mais rápido, que eu pudesse ajudar meu corpo e Maira sugeriu de caminhar pela casa. Olhos fechados, braços nos braços do seu pai, ele andava de costas e ía me guiando. Mais contrações! Aguentar elas em pé era mais difícil.

Depois de um tempo voltamos para o quarto, cansei de andar, queria ir para o chuveiro. Durante a gestação eu sempre tomava um banho mais longo a noite, sentada no banquinho, conversando e cantando para você. Do lado de fora do box seu pai e Maira. Do lado de dentro ondas cada vez mais fortes… AAAAAAAAAAAAAAAAAAAA………

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Seu pai saiu e foi junto com o Nicho e a Diana preparar a banheira. Depois fiquei sabendo de mil coisas que deram errado e atrasaram fazendo com que a água quente tivesse que vir do fogão. Enquanto isso eu estava no chuveiro dizendo para Maira “não quero ir para o hospital para dilatar 2 centímetros…” Estava dolorido. Estava longo. Um pouco mais forte. Mais uma. Ela vinha e quanto mais dolorida mais eu gritava. Faltava ar, puxava mais ar, gritava mais. Eu tinha medo de não conseguir aguentar mais se a dor aumentasse muito. Tinha medo de não dilatar. Quando acabava, abria a porta do box, olhava nos olhos dela e ela repetia: você está indo bem, está tudo certo.

Maira: quantos anos você tem?

Eu: 28
Maira: jura? Achei que você tinha uns… (não me lembro qual foi a idade, nem pra mais, nem pra menos)
Eu: pois é… e pelo visto esse saturno retornando tá me revirando inteira…

Acho que conversamos outras coisas mais, não me lembro dos diálogos. Me lembro desse porque fiquei pensando “nossa a gente parece que se já conhece a tanto tempo e eu ainda não sei a idade da Maira também!”

Me lembro da sensação de ir para longe quando vinha uma onda de dor. De me sentir aliviada quando ela ía embora. De me sentir medo da próxima e de puxar o ar quando ía começar de novo. Do quanto me fazia bem ouvir da Maira ou do Rodrigo “você está indo bem, vai dar conta de mais uma…”

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Dinda Diana e a água para a banheira

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A parte elétrica daria um relato a parte

“O que é que eu fui inventar?”

Queria ir para a banheira. Eu sabia que era lá meu último auxilio para a dor. Sabia porque eu tinha lido, me preparado, nada era muito claro pra mim, mas algo dizia que eu tinha que ir pra lá. Eu já não falava entre uma contração e outra. Eu já não me lembro de palavras, me lembro da sensação de tomar um caldo do mar. Me lembro de já não sentir muita dor na lombar mas a dor da linha dentro de mim já ía de um lado ao outro da base da barriga. A contração vinha e parecia que algo me revirava inteira. Maira me avisou que se eu fosse e o trabalho de parto desacelerasse eu teria que sair da banheira pra caminharmos, eu topei, qualquer coisa, mas queria entrar lá logo. Entre uma contração e outra saí do box e fui para o quarto. Uma contração no caminho. Ela balançou meu quadril e eu travada em

AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA….

A banheira ainda estava com pouca água mas eu me senti feliz por estar lá. Seu pai estava comigo e quando veio a contração eu gritava muito e ele fazia um “aaaaa…”  mais baixo que me ajudava a lembrar para onde ir, como respirar. Mas estava intenso. Me perdi. Não sabia mais o que fazer. O que falar. Não me lembro de nada além de ondas, caldos, mais uma…

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Até que escuto a voz da Ana Cris (Ana Cristina Duarte / Obstetriz e parteira). Que alívio!!! Enquanto ela não chegasse eu sabia que ainda estava longe de terminar. Senti um alívio enorme em meio ao caldo. Ela entrou, sorriu e disse “olá! Você está parindo!” e eu acho que disse “acho que sim”. Veio uma contração e eu me perdi de novo. Um grito perdido, alto e escuto a voz da Ana dizendo  “Janie, que isso, respira”. Me lembro claramente de pensar “como assimmmmmmmmmmmmm???? Tá achando que está fácil aqui dentrooooo?????? Que é só respiraaaar????? Ahhhhh mas se ela diz que é pra respirar é porque eu consigo!!!!!!!!!!!!!!” E fiquei com raiva de estar perdida, e tirei forças de um lugar que não conhecia dentro de mim para respirar. Esse momento é o da foto abaixo. Só eu sei o que estava passando dentro de mim. E é inesquecível.

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Ana mediu a dilatação e com isso foi embora meu primeiro medo, dilatação total!!! Como assim??? Total? Total? Sim!!!!! Lembro do seu pai comemorar, eu comemorei! Ana saiu para ligar e chamar a pediatra. Maira apoiava meus pés pois eu ficava instável na banheira. Seu pai praticamente me segurava no colo, emocionado, repetia “você já conseguiu, aguenta mais uma” e respirava comigo.

Foi ana sair do quarto e tudo mudou. Algo aconteceu, mudou o tempo, as ondas se foram, a dor se foi, meu corpo ligou uma máquina diferente, olhei para Maira e disse “estou com vontade de fazer cocô”. Maira gritou para Ana “Ana, os puxos”. Mas peraí, eu tinha dois medos! O primeiro era não dilatar, o segundo era ter um bebê grande que não passasse. Esses eram meus medos, do meu histórico. Pedi para chamarem a Ana.

Eu: mas o bebê vai passar?
Ana: como assim vai passar? Já passou!
Eu: como assim já passou?
Ana: já passou!!! Coloca o dedo para sentir!

Não tenho palavras para dizer o que senti quando toquei a cabeça da Maia ainda no canal, descendo. Não tenho palavras para descrever o alívio, alegria, a realização de saber que eu tinha ido até alí. Estava mesmo dando certo!

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Os puxos eram forças incontroláveis, que fazia meu corpo inteiro se contrair e fazer força. Me perdi com sensação nova sem saber o que fazer, Maira me ensinou o momento de segurar o ar e consegui me controlar. Era intenso, me tomava por inteiro, uma pressão me dava a sensação de me partir em duas sem sentir dor. Mais uma vez toquei a cabeça da Maia. Ela estava mais perto. Mais respiração. Conseguia conversar, contar o que eu estava sentindo, não tinha mais dor, estava alí voltando pra terra com um furacão dentro me torcendo por inteira.

Uma pressão grande descendo, sentia você indo e voltando “vem bebê… vem comigo vem… a gente vai conseguir…”  Eu deitada, seu pai me segurando, me dando colo para eu conseguir me apoiar, Maira apoiando meus pés, e mesmo empurrando com os pés sentia empurrando o períneo e voltando.

Eu: ela não está passando, o períneo está segurando.

Maira: toma! Passa óleo!

E virou um tanto de óleo para massagem no períneo na minha mão, enfiei minha mão dentro da água, dedos no períneo, sua cabecinha estava logo acima, massagem, 5 segundinhos, tirei a mão.

Eu: pronto! Foi! Agora vai!

Ana Cris sugeriu que eu mudasse de posição para ter mais apoio, abracei seu pai. Como me agarrei naquele porto! Que bom foi estar alí nos braços dele! Força, força física, puxando, empurrando, sem eu nem saber como. O corpo tomando conta. Seu pai, meu porto seguro. Meu corpo e uma pressão descendo. De repente tudo ardia “circulo de fogo… está ardendo… está ardendoooooooo”. E a voz da Ana lá longe dizia “é assim, aguenta firme”.

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Você subia quando a força parava e de repente, de novo, força, pressão, estica, arde….. e eu me joguei para trás. Para ajudar a fazer força para baixo me joguei! Maira correu para me dar colo, seu pai jogou os braços na água para apoiar meu quadril no fundo da piscina.

Eu: Tira tira tira!!!!!!
Ana: Não, não tem que fazer força, respira, agora tem que ter calma.

Quando o puxo passou, nos braços da Maira e com seu pai na minha frente a Ana falou que eu podia já sentir sua cabecinha do lado de fora, passei a mão, senti sua pele molinha, uma sensação i-n-e-s-q-u-e-c-í-v-e-l!!!

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Outro puxo, longo, eu gritando, ardendo, aaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaarhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh….ahhhhh!!!! E senti você escorregando dentro de mim, como uma massagem, molinha, saindo toda, levando embora tudo o que eu estava sentindo!!! E me trazendo o ar! Seu pai pegou você dentro da água, eu sentei rápido e te pequei, trouxe para colo.

Eu não sei descrever o que senti, mas eu sinto ainda quando me lembro. A alegria, o alívio, o medo, a volta para a terra, a satisfação, a adrenalina, o prazer, estavam todos alí, no meu colo, no meu corpo, na minha história a partir daquele segundo.

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Você não chorou, ficou quietinha. Alí encostadinha no meu peito.

Eu: ela vai ficar assim quietinha?
Ana: ela está ótima viu!

Respiro.
Eu: … a gente conseguiu filha, a gente conseguiu!!!

O sorriso do seu pai foi o mais lindo que já vi no rosto dele! Ele estava radiante! Eu não sei em que ordem as coisas aconteceram, Ana pegou você e te colocou de novo na água, para acalmar seu corpo com a sensação de imersão, com muito amor e você sabia que estava em boas mãos, estava relaxada. Voltou para o meu colo, te cobrimos com fraldas de pano. Eu e seu pai nos beijamos e nos emocionamos olhando para você, seus olhos lindos! Sua madrinha que entrou para fotografar seu nascimento ligou para seu irmão que estava na quadra do prédio e disse para ele subir que você tinha nascido. Ele entrou muito alegre, e te apresentei para ele, ele ficou muito feliz por te ver e saber que tinha dado tudo certo e saiu para jantar e comemorar com seu padrinho, o Rune. Ganhei um beijo estalado da Ana na testa, com um parabéns!

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O sorriso mais lindo do mundo!

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Fiquei de pé com você no colo, deitei na cama ao lado, você mamou lindamente, fez cocô, o cordão já tinha parado de pulsar, algumas cólicas e a placenta saiu rapidinho. Seu pai cortou seu cordão e você estava então no mundo, conectada comigo e com seu pai agora por nossos laços e nosso amor.

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Eu pari depois de uma cesariana. Eu te recebi em casa filha. Sua vida me fez fazer escolhas e mudou a minha! Descobri que sou corajosa, que meu corpo é forte e capaz. Que posso buscar informações e fazer as escolhas. Que nem sempre é fácil, mas que vale muito estar atenta e fazer escolhas. Que minhas marcas, meus medos, minhas vitórias são minhas e é com elas que vou dormir todos os dias. Sinto orgulho da minha coragem. Sinto orgulho por ter na minha história dois filhos, dois caminhos e por vocês o maior amor do mundo.

Duas considerações que vieram depois de repensar meu parto: o que está escrito aqui, o que vejo nos vídeos do parto, enquanto eu respirava, está longe, longe, longe de ser o que aconteceu dentro de mim. Ana Cris, sim, o parto é da mulher, só entendi isso depois de parir, e mais ainda, o parto é dentro da mulher! E não sei o quanto o óleo ajudou de fato a massagear meu períneo dentro da água da banheira, mas sei o quanto me ajudou ter minha doula me lembrando como enfrentar os medos que não sumiram, como eu imaginava, mas não me paralisaram.

E apesar da biografia ser pessoal, ela se constrói junto.

Nicho, se não fosse por você e por nossa história, eu não teria buscado essas escolhas. Filho, muito obrigada por me fazer mãe e por crescer junto comigo!

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Ro, você me ensina tanto! Gestar e parir ao seu lado foi o melhor presente que você me deu!!! Muito, muito, muito obrigada amor meu!

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Ana Cris, por acreditar na força, liberdade e capacidade da mulher em parir, por cada palestra, por cada frase que me guiou no momento em que os caldos quase me afogavam, muito obrigada! Nunca vou conseguir te agradecer o suficiente, e ter me tornado doula é talvez a melhor forma de te agradecer e propagar o que aprendi com você.

MUITO OBRIGADA!

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Maira, doula amada, você foi nosso barco, nos conduziu com segurança, apoio e muito amor para um lugar especial e inesquecível! Obrigada por aceitar ser nossa parceira, obrigada por cada palavra, por acreditar que eu era capaz! Obrigada por apoiar meus pés, massagear meu peito, me segurar no colo. Foi nos seus olhos que encontrei o caminho por onde seguir, e eu sei que você sabe do que estou falando.

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A querida Ana Paula Caldas, que recebeu Maia com carinho e tirou todas as nossas dúvidas ansiosas de recém pais.

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Ps: no próximo parto me lembrem de pentear o cabelo para a foto final!

A nossa família e também ao Rune, Diana, Julia, Renata, Natalia, Leandro, e mais amigos que nos acompanharam,  participaram e apoiaram nossa caminhada, MUITO OBRIGADA!!!

Dedico este relato a minha mãe, que me pariu e todos os anos da minha vida, antes do meu aniversário, conta o meu relato de nascimento. “Há 25 anos atrás, esta hora, eu estava no salão fazendo as unhas, todos achavam que você ía nascer alí mesmo… ” Mãe, muito obrigada por me trazer ao mundo, muito obrigada por me mostrar que este dia foi importante. Foi você que plantou a primeira semente do que hoje me realiza: ser doula, apoiar mulheres para que cada parto com amor seja um passo para um mundo com mais amor.

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7 pensamentos sobre “Maia – Janie & Rodrigo

  1. Que lindo amiga, emocionei aqui! Muito amor por vocês, viu? E a partir do relato do parto da Maia no GAMA a nossa história e o nosso parto domiciliar foi se construindo…
    Obrigada por todo apoio no meu puerpério, você foi essencial, fundamental pra construção da minha maternagem de forma mais leve e tranquila.
    Obrigada família querida!
    Beijos, Dane, Le e Alice.

  2. Janie,

    Que linda história, fiquei emocionada e feliz por voce e sua linda família. Te conheci ainda pequenina em Porto Velho, e hoje vejo que se tornou uma grande mulher. Eu tenho 03 Filhos e todos foram césarea, por problemas de saúde nao tive como ter o parto natural, o meu bebe caçula e especial ( down) os filhos sao as nossas maiores riquezas. Beijo grande.

  3. :)))))))))))))))

    Sem palavras. Chorei rios lendo seu relato. E imaginando como será q vai ser o meu um dia… Espero ter pessoas tão maravilhosas me apoiando como vc teve… Como qualquer mulher deveria ter.

    Um beijo. E obrigada por contar.
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