Maya – Tuca & Fabrício

Por Fabrício, pai
40 semanas e 2 dias de gestação

Tuca03

Acho que o relato do parto da Tuca começou pra mim no final do dia do nosso chá de bebê. Naquela hora eu pensei: pronto, agora já fizemos tudo, recebemos as pessoas, brindamos, ganhamos fraldas e roupinhas. Agora só falta a Maya nascer. A primeira vez que tive um friozinho na barriga depois daquele dia 31 de dezembro de 2011.
Tenho um problema em memorizar datas, mas foi nesse dia que a Tuca me disse, com uma cara de pânico, que estava grávida.
Depois do chá de bebê nós vivíamos a sensação do “pode ser a qualquer momento”. Nunca fui de usar muito o celular, mas passava o dia inteiro com ele.
Até que, pontualmente em torno das 40 semanas numa manhã ensolarada de terça-feira, a Tuca virou-se pra mim e disse que tinha começado a sentir umas contrações diferentes e que tinha saído o tampão na madrugada. O processo havia começado!!!
Ela me falou que eu podia ir trabalhar naquele dia porque provavelmente ela ficaria até a noite progredindo no trabalho de parto.
Eu vim trabalhar e, como todos os dias no último mês, as pessoas me perguntavam sempre que me viam: e aí, já nasceu?
– Não, ainda não. Se tivesse nascido eu não estaria aqui, né?
– Mas quando vai nascer? (é impressionante a dificuldade que a sociedade tem de entender que não temos como marcar a hora em que nossos filhos vão nascer. As pessoas simplesmente não assimilam que não marcamos uma cesárea).
Eu respondia que não sabia quando ia nascer. Que podia ser a qualquer hora, mas também daqui uns 15 dias. Eles ficavam bem confusos com essa imprecisão toda.
Mas naquela manhã de terça eu disse: a Tuca começou a ter umas contrações diferentes. Acho que vai ser nessa madrugada de terça pra quarta.
Nossa, finalmente uma resposta! O pessoal ficou bastante entusiasmado!
Naquele dia eu trabalhei olhando pro celular o tempo inteiro. Fui pra casa de noite e a Tuca estava bem. Contávamos as contrações e ainda estávamos no início.
A madrugada de terça pra quarta foi um tanto desconfortável pra Tuca. Tinha contrações o tempo inteiro. Acordava, contava a frequência e acabou dormindo meio mal.
Na quarta de manhã as contrações estavam mais fortes e eu já avisei que não ia mais trabalhar. Queria ficar com a Tuca direto. Pensava que seria naquela quarta até final do dia.
A partir daí entramos num mundo paralelo onde não há dias nem horas, é tudo uma coisa só. Ficamos grande parte do tempo dentro de um quarto. A Tuca fazia posições pra ver se ficava mais confortável. Eu ajudava às vezes. Trazia comida e bebida.
Passamos o dia juntos ali naquela função. Anoiteceu e começamos a dormir. Porém só eu conseguiu dormir. A Tuca passou a noite inteira abraçada numa bola de pilates tentando dormir sentada, sem conseguir. Eu acordava de tempos e tempos e via ela ali tendo contrações bem fortes.
Nessa hora começou a me dar uma coisa estranha. Ficava claro que esse negócio de ter um filho era MUITO mais complicado pra ela do que pra mim. A Tuca já não tinha dormido bem uma noite e nessa agora não estava dormindo nada.
Eu comecei a entender que a nossa vida contemporânea é absurdamente confortável. E quando entramos em contato a natureza mesmo, o impacto pode ser violento. Pra mim era violento. Acho que se tivéssemos marcado uma cesariana com chapinha e unhas feitas teríamos dado umas aparadas nas arestas do parto e viveríamos uma experiência mais proporcional às vidas bunda moles que levamos.
Então sei que amanhecemos na quinta-feira mergulhados no mundo selvagem do parto. A Tuca tinha contrações super fortes que atrapalhavam até pra comer.
A Maíra veio umas 11h e disse que estava progredindo. Escondida na cozinha ela me cochichou que ainda estava no início.
A Tuca dizia que já tava muito foda e eu começava a me perguntar, “o que foi que eu fiz com a minha esposa?”. Essa pergunta me assombrou por muito tempo e não foi fácil me livrar dela.
Passamos o dia naquela dimensão paralela e no início da noite a Tuca dizia que não agüentava mais. Ela já não falava. Ficava sempre quietinha e fazia umas caras feias toda vez que vinham as contrações. Como eu vi que alguma coisa tinha mudado (não falava mais) eu liguei pra Maíra. Ela disse que levaria uma banheira inflável pra nossa casa (na verdade a casa da mãe da Tuca, pediatra. Nossa casa está em reforma).
Eu saí pra rua pra comprar uma lona grande pra forrarmos a banheira e mais outros utensílios.
Voltei pra casa e quando a Maíra chegou, eu e a irmã da Tuca começamos a armar um tremendo de um esquema de banheira inflável furada enchida com panelas de água quente no meio do quarto da mãe delas. Uma puta bagunça na casa.
A Maíra dizia que a banheira era pra Tuca dar uma descansada antes do trabalho de parto engrenar (engrenar? Mas o que estava acontecendo até agora era o que?).
A Tuca não aguentava mais e não conseguia caminhar direito. Dizia pra Maíra que não ia conseguir, que não aguentaria mais. A Maíra dizia pra ela que ela aguentou até agora e continuaria aguentando. Que ela ESTAVA aguentando.
A Tuca foi pra nossa banheira improvisada tipo umas 10 e pouco da noite. O plano de descansar e até dormir um pouquinho não deu muito certo. A Tuca tava achando muito quente, as contrações não aliviaram muito e ela só tentou ficar quase uma hora porque a Maíra disse que depois que saísse da banheira nós daríamos uma caminhadinha pro parto engrenar.
A Tuca não se imaginava caminhando. Ela mal conseguir dar um passo, mas, com uma coragem e determinação das quais eu não tenho nem um quinto, ela se levantou, se vestiu e descemos pra caminhar no térreo do prédio, levando as malas pro carro.
Vestida com um casaco do avesso, enrolada nuns panos que prendiam uma bolsa de água quente nas costas, ela foi caminhando bem devagar, agarrada em mim e na Maíra. Os outros condôminos nos olhavam com curiosidade e espanto.
Depois que deixamos as malas no carro, a Maíra teve a ideia de subirmos umas escadas porque o movimento do quadril ajuda o bebê a descer, encaixar, não sei direito. Subimos dois lances de escada e quando chegamos no térreo do prédio a Tuca deu um grito MUITO alto, deu mais três passos e outro grito MUITO alto. A Maíra se ligou que alguma coisa havia mudado e sugeriu que subíssemos pro apartamento pra pegar as bolsas porque estava chegando a hora de ir pro hospital.
Eu não tirava os olhos da Tuca e confesso que estava um tanto adrenado. Não era bem aquele parto na banheira, tocando musiquinha, cujo final a gente sabe que vai ser feliz porque estamos assistindo ao telão do GAMA. Era o parto da Maya ao vivo e a cores, eu não tinha certeza de nada e mal sabia se estava tudo bem.
Chegando no apartamento, vimos um sangramento na calcinha da Tuca. Era hora de ir pro hospital.
Pegamos tudo e fomos pro carro num clima meio tenso. Chegando lá, Maíra sugeriu à Tuca ir de quatro no banco de trás. A Maíra espremida do lado dela cochichou no meu ouvido -“Vai rápido”.
“Vai rápido”. O que será que quer dizer isso. Não tenho nem a oportunidade de perguntar porque ou o que está acontecendo. Só sabia que tinha que ir rápido. Era uma emergência? Alguma coisa tinha saído do controle? Sei lá, fui rápido. Na verdade eu andei o mais rápido possível num caminho que já tinha planejado e treinado antes só que dessa vez com a Tuca urrando e a Maíra com o braço pra fora do carro pedindo pra pessoas saírem da frente. Varei o farol vermelho da Rebouças (com muito cuidado, né, gente?) e, como eram umas 23h30, chegamos muito rápido no São Luiz. Mais precisamente as 0h.
Nossa, a partir daí era adrenalina total. Eu deixei as meninas na recepção e fui estacionar o carro e encaminhar os documentos. Quando terminei, saí correndo meio perdido na direção onde me disseram que era o vestiário masculino. Nessa hora saem a Maíra e a Tuca (de cadeira de rodas) de uma portinha. A Maíra fala: Fá, vai rápido. Tá nascendo.
– Tá nascendo!!!
– Tá. Dilatação total com um sorrisão de orelha a orelha.
Caralho, tá nascendo?!?!?!? Pensei comigo. Mas há uma hora atrás ainda estávamos numas de fazer engrenar e agora TÁ NASCENDO!!!!
A partir daí as minhas lembranças são meio embriagadas. Só sei que fui perguntando pra pessoas até chegar no vestiário, botar a roupinha de pai e correr pro delivery, onde encontrei a meninas de novo. Estavam esperando a liberação de um das salas.
Eu ali parado vejo uma mulher saindo de maca com uma cara de “estragaram o meu astral, seus inconvenientes”. Uma voz pergunta pra mim calmamente: quando foi a última menstruação?
Cara, que coisa mais descontextualizada. A minha esposa tá parindo na minha frente e um cara me pergunta qual foi a escalação do mundial de 70. Tipo isso.
Eu respondi: não sei. Há nove meses atrás. A enfermeira riu entendendo que eu não tinha condições de responder nada. Nessa hora, daquela cadeira de rodas, toda amarrotadinha a Tuca grita uma data. Não sei como ela conseguiu responder isso. Acho que é aquela famosa capacidade multitarefas da qual as mulheres se orgulham e que os homens tanto invejam.
Já podemos entrar? A Maíra pergunta.
Duas enfermeiras correndo no meio da confusão falam: não, ainda temos que limpar e esterilizar a sala!
Cara, nessa hora a Tuca deu simplesmente o maior grito que já tive a oportunidade de ouvir nessa minha longa existência. Simplesmente aquele grito com a força concedida apenas àqueles que abriram mão de sua sanidade. É com aquela força que tu não sabes que tem. Toda a força e todo o pulmão. Vários segundos até acabar todo o ar.
Seguiu-se uns segundos de silêncio depois daquilo. Até as outras mães parindo pararam pra ouvir o que foi aquilo. Tinha nascido uma criança de 5 anos? Não. Era Tuca “explicando” que não precisava esterilizar a sala.
– Vamos só trocar os lençóis. Disseram elas e fizeram exatamente isso.
A Tuca levantou da cadeira e subiu de quatro na maca. Eu e a Maíra fomos ver se a Maya tava chegando.
Cadê a máquina? Tá aqui! Tentei filmar uns segundos e fotografar. Senti que não queria que uma câmera ficasse entre eu e o nascimento da Maya e larguei a câmera de lado.
– Liga pro meu pai- disse a Tuca e eu fiz. Oi Beno, tudo bem? Tudo, tudo bem. Tá tudo bem, estamos aqui no São Luiz, a Maya vai nascer. Sim, é a Tuca que tá gritando.
Voltei correndo.
“Vai ali na frente falar com ela”, disse a Maíra.
Fui lá na frente e peguei a mão da Tuca. Ela tava com os olhinhos fechados e apertava a minha mão. Eu falava com ela, mas parecia que ela não me ouvia. Estava concentrada.
Fui ali para a região da ação pra ver se a Maya estava chegando mas quem chegou foi a Betina. Sorridente como sempre e mais amarrotada do que nunca. Acho que aquela blue moon inspirou muitos bebês.
– Faz força Tuca, ela está chegando.
A Tuca fez força e a Maya coroou. Pus a mão na cabecinha dela. Queria ser a primeira pessoa a tocar a Maya.
– Faz força Tuca.
A Tuca fez mais uma força e o rostinho da Maya apareceu até o nariz. Com os olhinhos fechados e roxinha. Paradinha. Fiquei pensando – será que está tudo bem com ela?!?!
A Tuca fez mais uma força e saiu toda a cabeça da Maya pra fora. Nessa hora ela abriu a boquinha e expeliu o líquido amniótico, espremendo os olhinhos, se mexendo como se quisesse se soltar. Eu segurava a cabeça dela. Lembro até hoje o cheiro da Maya quando nasceu.
Nessa hora a Betina pediu licença pra dar uma ajudinha. Pegou a cabeça da Maya e girou uns 45 graus pro ombrinho dela passar pelo períneo.
– Mais uma forcinha Tuca.
A Tuca fez mais uma força e a Maya foi saindo e, depois que saíram os braços ela escorregou pra fora. Eu peguei ela. A Betina e mais uma outra pessoa que estavam ali mexeram na Maya. Apertaram aqui e ali e ela começou a chorar.

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Era toda rosinha. Eu não sabia se era assim mesmo. A cabeça não era oval. Nós passamos ela por debaixo das pernas da Tuca e ela colocou a Maya no peito imediatamente. Tadinha, toda roxinha, chorando.
A partir daí eu comecei a me acalmar e a olhar prós lados. Fui vendo que a Maya começava a ficar gradualmente rosinha. Primeiro o corpo e a cabecinha e depois o rosinha ia descendo pra extremidades dos membros. Depois de pouco tempo ela já estava toda rosinha e a sala estava parecendo uma balada. Todos felizes e orgulhosos olhando pra Maya no peito da Tuca. A Betina teve que sair rápido pra outro parto na sala ao lado.
Vi que o pai da Tuca tinha chegado. Pude dar um abração nele. Beijei a Maíra que foi nossa doula e também a Maíra Bittencourt que apareceu. Apareceu também o Cacá, a Marina mãe da Tuca e a Mi, irmã da Tuca. Uma verdadeira confraternização com pessoas amadas.
Ficamos ali umas 3 horas curtindo. Cortei o cordão umbilical muito tempo depois. A Maya foi pesada e fez outros procedimentos depois que já estava mais calminha. Depois disso fui com a Tuca pro quarto e depois desci pra olhar a Maya da vitrine do berçário até ela subir pro quarto. Não dormimos direito aquela noite, era muita adrenalina. Mal sabíamos nós o que nos esperava, o que é bom. Cada desafio de uma vez.
A Tuca entrou na sala de delivery às 0h10 e a Maya nasceu às 0h20 do dia 31 de agosto. A única data que lembro além do aniversário da Tuca, do meu irmão e do meu mesmo e daquele 31 de dezembro de 2011.

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7 pensamentos sobre “Maya – Tuca & Fabrício

    • A Tuca foi forte né? Eu acho que eu teria afinado!
      Meu, eu sempre lembro de ti porque tu foi um dos grandes incentivadores do meu ingresso nessa jornada. Muito obrigado!

  1. Bela descrição do parto! Lindo mesmo! Tudo, as dores, o desespero, as incertezas… Estou com 26 semanas de gestação e quero muito tudo isso! Um parto normal e humano! Parabéns a Tuca, ao Fabrício, a Maíra e a Maya! Lindo demais =D

  2. Chorei… emocionada… ainda mais com a visão do pai, aqueles que querem ajudar tanto, e REALMENTE ajudam.. mesmo que seja com aquela cara: “como faço agora… e como ELA faz agora?!? como não dormir tantos dias e estar com esta força pra gritar com a equipe? como um neném está saindo ali???”

    Revivi meu parto… que foi diferente mas parecido… e meu esposo tão presente quanto foi permitido! parabéns pelo lindo relato…

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