Lina – Carla & Mauro

Por Carla, mãe

41 semanas e 1 dias de gestação

Sonhando acordada: magamalabares, ouvindo sininhos

Planejando o parto

Planejar não é o meu forte, às vezes penso que isto tem relação direta com a minha dificuldade de lembrar meus sonhos. Se tem algo positivo nisso é que consigo lidar razoavelmente bem e me adaptar aos imprevistos, creio eu.

Minha gestação, ou melhor nossa gestação (minha e de meu namorado, amigo e amor – Mauro) não foi planejada. Falávamos de ter filhos e Mauro parecia bem animado em se tornar pai, mas eu queria mais um tempo para curtir nossa relação a dois e resolver umas dúvidas sobre mim mesma, minha profissão e tentar traçar alguns mínimos planos para o futuro a médio prazo, pelo menos.

No dia 29 de outubro de 2011 eu cheguei de viagem, estava vindo de uma das jornadas de trabalho que frequentemente fazia para o Noroeste da Amazônia – rio Negro, mais especificamente –, desta vez vinha direto de Manaus, cheguei em casa tarde da noite, era um sábado e não tenho certeza se foi neste dia ou no dia seguinte, 30, que eu e Mauro nos amamos de uma maneira deliciosa e numa sintonia que parecia transcorrer outras dimensões da mente e corpo, outras vidas, outras boas lembranças e de alguma maneira nos conectava mais e de uma forma única. Foi tudo meio sem pensar e rápido. Logo, nos momentos seguintes eu pensei, puxa, essa transa pode ter me engravidado, tanto amor, sem prevenção. Fazendo rapidamente as contas, a partir de minha última menstruação, isso realmente era possível – e foi!! Mas eu logo abstrai deste pensamento… e alguns dias depois viajei novamente para a Amazônia, desta vez para uma brevíssima temporada. Durante esta viagem, em São Gabriel da Cachoeira, deveria ter menstruado, mas não rolou, nem liguei muito porque sou meio desregulada, sobretudo quando vôo por vezes seguidas. Mauro estava em viagem de veleiro, ele e um grupo de amigos pretendiam chegar em Punta d’Leste, não tínhamos contato e eu sentia uma vontade enorme de falar com ele, mas não havia como. Na primeira oportunidade, de uma parada que fizeram no meio do caminho, Mauro me ligou, eu fiquei muito feliz por ouvi-lo. Ele disse que estava enjoando muito no barco (e eu que estava grávida, ainda sem saber, não enjoava nada … rs). Eu me lembro de ter dito a ele que minha menstruação estava atrasada e que estava sentindo pequenas pontadinhas no pé da barriga, imaginava estar com alguma infecção, mas lembrei que havia a possibilidade de gravidez. Ele seguiu viagem e eu voltei pra casa no dia 25 de novembro, na farmácia do aeroporto de Manaus, onde fiquei por algumas horas fazendo conexão comprei um teste de gravidez, o coloquei na mochila e desencanei, era uma sexta-feira. Sozinha em casa minhas pontadas no pé da barriga pareciam aumentar no sábado e eu não conseguia relaxar, estava inquieta e pensei em fazer o teste várias vezes, mas fui enrolando e só o fiz na manhã do dia seguinte – domingo, dia 27. O resultado foi sendo desenhado na mesma hora, duas listrinhas cor de rosa, beeeem fortes … ai ai ai, será mesmo?

Fiquei atônita, feliz e desesperada, mais desesperada, pra falar a verdade. E foi assim meio barata tonta, chorando, andando pra lá e pra cá que Mauro me encontrou quando chegou de viagem – os planos de chegarem até Punta tinham naufragado por vários imprevistos com o barco, com a tripulação, e sobretudo, pelo clima. Eles passaram por uma tormenta, ficaram por horas rodando em um único quadrante em alto mar. A chegada dele em casa apaziguava meu coração, por ele estar bem e de volta, mas não só. E eu pensava como vou dar a notícia do resultado do exame, essa é a melhor hora? Não seria melhor confirmar com um exame de sangue, esperar um momento mais adequado e que eu esteja mais serena … não consegui esperar nada, foi abraço-lo forte e soltar: Lindo, acho que estou grávida!

Choramos, nos abraçamos e Mauro parecia feliz, mais do que eu, mais seguro. Mas, pairava uma incerteza: será que estes exames de farmácia são precisos?

Nas semanas seguintes, fiquei muito confusa, feliz e triste, cheia de vontade de ficar só, escrevi para a GO que me acompanhava há pouco mais de 1 ano e ela disse que ela mesma estava grávida de 9 meses, diminuindo as consultas pra entrar em licença maternidade, mas que iria me receber no hospital onde ela atende gestantes, um serviço público. Mauro foi comigo, muito fofo!

Dias depois a notícia se confirmou, estávamos grávidos!!

Por estas alturas eu já estava menos confusa e bem feliz, mas não queria compartilhar a notícia com ninguém. Contei apenas para uma amigona-irmã, hoje cumadre- querida, e só. Aos poucos fomos contando para as pessoas. Contei para meus familiares na noite de Natal, achei que era uma boa surpresa e um bom momento para a revelação. Foi bem gostoso sentir e ver a emoção das pessoas, meu irmão, em especial, ficou super feliz e emocionado beijando minha barriga e me abraçando, foi bonito!

Bem, no segundo e terceiro mês tive dias bem difíceis com muito enjôo e um cansaço que tirava até a minha concentração.

Adoro viajar no ano novo, eu e Mauro programamos uma viagem curta, que eu estava bem a fim de fazer – Serra do Cipó, BH, Brumadinho (Parque de Inhotim), um circuito em Minas – mas as chuvas que não paravam de cair e o mal estar que não me dava sossego fizeram a gente desistir da viagem e acabamos indo para Ubatuba, passar o réveillon com a família de Mauro (pais, tios/amigos e cunhados).

Foi uma passagem de ano diferente, pois havia algo previsível para ocorrer em 2012, o nascimento de nosso bebê. A gente passeava na praia e ficava imaginando como seria, fazíamos uma lista de nomes de meninos e meninas, foi divertido.

Eu não estava muito feliz com minha médica (GO), ela sairia em licença e tudo indicava que teria seu filho em uma cesárea eletiva – péssimo sinal, se ela não queria ter o filho dela por parto normal, é óbvio que não esperaria a vontade do meu filho de vir ao mundo externo.

O tempo foi passando, eu descobri, com a ajuda de um médico, o Eric Slywitch, que seria legal tomar ferro quelato e outros complementos vitamínicos para diminuir o cansaço, o fiz e melhorei muito.

Mais uns meses, a barriga crescendo, os seios já não cabiam nos sutiãs … passa, passa óleo preventivo de estrias.

Comecei a ler bastante sobre gravidez e parto, fui ao Gama, e procurava por um médico que nos respeitasse e acima de tudo valorizasse o parto normal, com poucas ou nenhuma intervenção clínica. Este tipo de parto não chegava a ser um sonho pra mim, aliás antes de estar grávida nunca havia pensando muito sobre o parir. Pensava em como criar os filhos, que escola, que comida, como incentivar a leitura, como driblar o consumo excessivo, mas o parto em si nunca foi tema do meu imaginário do devir em ser mãe, aliás eu facilmente adotaria uma criança, talvez adote ainda. De toda forma, cesáreas desnecessárias, tratamento de grávida como doente ou paciente ignorante, a não possibilidade de escolha, o sistema de saúde brasileiro, tudo isso e outros aspectos, me tiram do eixo, me fazem querer (des)entender nossa sociedade, mas sem me sentir parte dela – sensação meio comum pra mim.

Enfim, um parto responsável, respeitoso, na hora que meu bebê estivesse pronto e sem intervenções desnecessárias tem mais a ver comigo, com meu estilo de vida, com meus princípios. Pra isso, entendia que não estava preparada naturalmente, não bastava deixar vir, apesar de fisiologicamente o parto ser algo natural, eu sou mais do que um corpo fisiológico, sou produto da educação que minha família me deu, do que (não) aprendi nas escolas e na rua, da minha trajetória de vida, por isso entendi que precisava me preparar, estudando, descansando, comendo bem. Ademais, precisava da ajuda de profissionais carinhosos, experientes e responsáveis, alguns o chamam de humanizados.

Foi então que resolvi procurar um médico(a) fora do sistema de convênios. Por ouvir falar aqui e acolá o nome Cátia Chuba e as poucas referencias me atraiam.

Procurei saber onde a Dra. Cátia Chuba atende, preço da consulta e se era mesmo pró parto natural. Caramba! Ela atende no fim do mundo, longe pra dedéu, mas mesmo assim fiquei com vontade de experimentar. Fiz a minha primeira consulta com a Cátia antes de viajar pro Rio Negro, em abril de 2012. Mauro preocupado que eu pudesse me perder na zona sul de SP com nosso bebê foi junto pra consulta, todo duro, cheio de dores nas costas.

A consulta foi um enorme, instrutivo e tranquilo bate papo, a Clínica Tobias é um lugar super aconchegante, de muita luz e conhecimento, uma delícia.

Bem, fui pro Rio Negro e ficaria sem consulta de pré natal naquele mês, mas estava tranquila.

A minha gestação foi muuuito tranquila, tirando o cansaço no início e uma candidíase CHATÉRRIMA que apareceu nessa viagem ao rio Negro e perdurou por uns 2/3 meses. Eita bichinho insistente!!

De vez em quando me perguntava triste porque nunca sonhara com meu filho(a) e então lembrava de uma frase que me disse uma analista: “pode ser que você não lembre dos teus sonhos das dormidas porque os tem acordada”.

Bem, o tempo passando e os preparativos com a casa, roupinhas e sobretudo a equipe pro parto me assombravam. O pique de trabalho era intenso e ficava exausta pra pensar em outras agendas, foi então que me percebi sem muita conexão com meu bebezuco e resolvi dar uma desacelerada e botar o cabeção pra resolver os preparativos e o coração + pulmão pra respirar e sentir a vida dentro de mim pulsar.

Descobrimos que seríamos pais de uma meninota, Mauro quis saber o sexo, ele dizia que isso o ajudaria a imaginar como seria brincar, educar, amar nossa cria, facilitaria a conexão dele com o bebê.

As roupinhas rosas começaram a aparecer, mas nós queríamos cores, muitas e variadas cores na vida de nossa Birobinha, diminutivo de Gabiroba, que foi o apelido que demos à Lina, quando o nome dela ainda nem aparecia na lista de nomes em potencial.

Procurei outros médicos, não porque estivesse descontente com a Cátia, mas porque a Clínica Tobias é realmente muito longe de casa e Cátia atende de forma particular. Passei em uma consulta com outro médico indicado por uma amiga e não deu certo. Eu entendi que queria continuar sendo recebida pela Cátia (sim porque Cátia VEM nos receber e quem já passou em consulta com ela sabe do que eu estou falando) e suas delicadas e sensíveis mãos que tocavam minha barriga.

Ok, quarto pintado, algumas coisas compradas e ainda faltava escolher a doula (será mesmo que preciso de uma?) e pediatra.

Por estas alturas Mauro piorou feio da coluna e eu pensava que mais do que nunca precisaria de uma doula, ademais, descartei de vez a possibilidade de um parto em casa.

Bem, mais alguns exames de rotina, poucos, e Cátia me disse que estávamos super bem, me pediu pra fazer um plano de parto e apressar minhas escolhas em relação a doula e pediatra. Ela indicou alguns nomes e eu comecei a entrar em contato com eles.

Por fim, e sem muitas conversas e entrevistas, acabamos fechando com a Sandra Souza e Cris Balzano (obstetriz, recém formada e doula muito experiente).

Com a Sandra só falei por telefone, ela fez uma viagem de uns 10 dias e marcamos uma conversa na volta dela, caso o meu parto ainda não tivesse acontecido.

Com a Cris eu mesma fiz 3 conversas e uma consulta. Os olhinhos claros brilhantes e a feição serena da Cris me fizeram confiar neles e na longa estrada dela como mãe de 3 filhos, fisioterapeuta e doula. Fiquei com vontade de fazer as aulas de Yoga da Cris no Gama, mas ponderei o tempo x a grana que já estávamos investindo no parto e decidi por não fazer, continuaria minhas caminhadas e yoga sola, orientada pelo livro Parto Ativo, ainda que de forma bastante indisciplinada. Muitas vezes, Mauro, me chamava e me dava uma certa bronquinha, dizendo que eu precisa me concentrar mais nos exercícios e acabar de ler o livro logo. Mauro me deu um apoio muito único durante a gestação e sobretudo no parto, ele amou de forma silenciosa o nosso bebê desde a concepção, cuidou da gente, nos acompanhou nas consultas e mesmo sendo a pessoa mais questionadora do universo, recebeu minhas pesquisas e leituras sobre parto e cuidados com o bebê de coração aberto questionando muito pouco.

Ah! Com 34 semanas começamos as massagens e exercícios para o períneo com o epi-no, Mauro com um super bom humor, paciência e amor parecia um personal training. Eu tentava dar risada, mas não achava nada engraçado parir aquela bola azul e fazer xixi na cama. Sim, tive dois episódios de incontinência urinária durante os exercícios de epi-no. Mas olha, se uma gestante me perguntar se deve ou não usar o epi-no, eu direi, certamente, pra usar. Os exercícios são um treino importante e me deram uma ótima consciência corporal.

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Grávidos no Jardim Botânico, levando nossa filhota pra ouvir as flores!

A termo

Com 37 semanas de gestação eu ainda não havia sonhado com o parto e tão pouco com o rostinho de Birobinha.

As contas da idade gestacional eram 3: pela DUM (primeiro dia da última menstruação), pela concepção e pelo primeiro US (ultra som), realizado com 10 semanas. Nunca acreditei na conta feita a partir da DUM. Quando eu estava perto da 32a semana, pela DUM, Cátia preferiu optar por nos orientarmos pela conta do primeiro US, sendo assim minha DPP (data provável do parto) mudava de 20 para 27 de julho. Nas minhas contas, considerando a concepção, a DPP 27 de julho era mais razoável.

Estar a termo é uma contradição de sentimentos, bom pelo menos pra mim foi. Eu queria parir, mas não logo, queria curtir mais a barriga, me dei conta que o tempo voou. Eu queria descansar, mas queria deixar tudo prontinho e fazer algumas coisas que eu sabia que não faria no pós parto: cinema, supermercado, dormir bastante, namorar. Eu queria estar perto das pessoas que amo, queria comemorar, passear e tirar fotos, mas também queria ficar introspectiva, conectar-me com Birobinha, cuidar do Mauro para ele estar bem no TP e fugir da pergunta inevitável de todos que encontrava: pra quando é? E a seguinte: já arrumou a malinha? affe! as pessoas perguntam de boa, mas cansa e pressiona. Fora que não há resposta pra primeira pergunta quando não se escolhe o dia do nascimento.

Passei da minha segunda DPP (27/07), já tinha arrumado a malinha, que segundo a lista da maternidade vira um malão (affe!) e nada de chegar em 30cm de circunferência no epi no. Já tinha conseguido quase quase 29, mas foi numa única vez.

Ainda não tinha passado em consulta com a Sandra, a pediatra, mas Cátia tinha me esclarecido algumas dúvidas sobre os cuidados com a bebê e eu estava lendo um monte a partir de indicações da própria Cátia e da lista maternas do Gama (meu oráculo até hoje). De toda forma marquei uma consulta com a Sandra para o sábado dia 04 de agosto e ela, no telefone, afirmou: isso se você não parir antes.

Entrando na 41a semana e nada de dilatação e nem da cabecinha encaixar, Birobinha estava cefálica, mas não encaixada. Fiz um US e um cardiotoco e lembro deste dia como o pior da minha gestação. A médica e as técnicas do laboratório não acreditavam que eu estava tranquila (ao chegar lá), pela diu eu estava na 42a semana e alguns dias e por elas eu deveria ser internada para uma cesárea naquele momento. A médica do US disse que a quantidade de líquido aminiótico (ILA =7) estava baixa e que iria ligar para a Cátia. Eu disse que não, que eu mesma ligaria, ela bateu a porta da sala do US na minha cara bufando, me achando uma doida inconsequente. Foi difícil sair de lá e manter a serenidade. Do táxi eu liguei pra Cátia, ela me acalmou perguntou quanto estava o valor do líquido aminiótico, e disse pra eu me acalmar, beber bastante água e fazer a acupuntura.

No dia 03 de agosto, uma sexta-feira, eu fui pra consulta com a Dra Eneida, a acupunturista, uma fofa! Ela me receitou um floral, apertou alguns pontos, me ensinou um ponto para massagear o útero e estimulá-lo. Voltei pra casa, passei no supermercado e pensei que deveria fazer um jantarzinho bacana pra ficar com Mauro.

Fiz, comemos e Mauro foi deitar e ler pra descansar a coluna.

Eu fiquei na sala, cansada pelas noites insone dos últimos 2 dias, jogada no sofá assistia o final do capítulo da novela que estava bombando – Avenida Brasil – acompanhada de algumas coliquinhas que estavam presentes há uma semana mais ou menos. Acabou a novela e começou o Globo Repórter, eu pensei, vou desligar a TV e deitar pra tentar dormir. Agora além de não sonhar, nem conseguia dormir, mas antes mesmo de desligar a TV senti uma cólica mais forte e fui ao banheiro, fiz um número 2, pequeno, e ao voltar pra sala pra desligar a TV, outra pontada fortinha. Resolvi deitar ali mesmo, no sofá, e esperar um pouco, veio a terceira e eu fiquei confusa se aquilo era mais uma vontade de fazer número 2 ou o TP (trabalho de parto) que estava começando. Finalmente desliguei a TV e fui pro quarto, falei pro Mauro o que estava sentindo e ele nem deu bola. Tentei ficar deitada na cama, mas não conseguia, nem sei dizer se estava com siricutico ou dor mesmo, acho que os dois. Pedi pro Mauro começar a anotar, acreditando ser o TP.

Trabalho de Parto em casa

Mauro pegou o caderninho vermelho dele e começou anotar, eu roubei a bolsa de água quente que ele estava usando, pensando que calor poderia me confortar, mas a bolsa estava fria. Levantei pra esquentar a água e acho que me deu uma vontade de vomitar, vomitei e pensei, se isso for TP, cadê as velas, o incenso e aquele clima bonito que vejo nos vídeos de parto?

As dores começaram e eu não conseguia ficar deitada, lembro-me de ter ficado um pouco brava com o Mauro, que (tadinho) não se mexia na cama, continuou lendo e de vez em quando escrevia no caderninho vermelho.

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A planilha do trabalho de parto, pelo pai.

Não sei explicar muito bem, mas o comecinho do TP não ficou inscrito na minha memória. Lembro-me mais do meio pro final (ou devo dizer começo? Começo de uma nova vida, de uma nova Carla.).

Enfim, lembro de ter feito outro cocô e ter vomitado umas duas vezes e nestes momentos voltei a pensar, puxa cadê a trilha sonora, as velas, a DOULA, e eu pedia pro Mauro ligar pra Cris. Eu quero, eu preciso dela! Mas Mauro dizia que as contrações não estavam a ponto de ligar prela (ela nos disse pra ligar quando tivesse 11 contrações/hora). E eu pensava, mas eu nem tenho certeza de como contar estas maledetas, o que é uma contração? A força da dor? Ai caramba li tanto sobre isso e agora mal consigo raciocinar. Porque doía tudo e pensava: como assim, os livros dizem pra gente descansar entre uma contração e outra?? Sentia dor (cólicas muuuito fortes) e não tinha como ficar deitada, não tinha como descansar. “Os livros não são sinceros ”, como já disse Marisa Monte, em magamalabares. E falando em magamalabares, esta música daria uma boa trilha sonora para o TP. Sininhos, uma sensação de solidão (ruim e boa) e de força contracenavam comigo.

Fui pro chuveiro quentinho, não conseguia encontrar uma posição, peguei uma toalha pra ficar de quatro no chão, deixando a água cair, sai, voltei, peguei um banquinho, sai, voltei, molhei toda a casa, dane-se eu tô pariiiiiindo! No chuveiro quando havia um mínimo intervalo de dor eu pensava 3 coisas: 1) Eu quero a Cris! 2) E minha

bolsa? Ouvi dizer que quando ela rompe a dor é forte .. ai ai ai. 3) Num próximo filho, se houver, cesárea eletiva na certa, pra que tudo isso??

Desligo o chuveiro e tento ir pro quarto pra tentar recostar, mas nem dá tempo de chegar no quarto e vem outra, eu grito pra que Mauro pudesse anotar e digo, chama a Cris e ele: tá cedo ainda!

Nada da bolsa estourar, eu vomitei mais algumas vezes, gritei outras tantas e no meio disso tudo Mauro apareceu no banheiro, só lembro da carinha dele, meio perdida, tentando ajudar sem saber o que fazer e eu me senti um pouco distante, em outra dimensão, como se estivesse olhando de longe. E esta sensação me acompanhou durante quase todo o TP. Não sei bem explicar mas é algo como solidão necessária, desconexão de um lugar para chegar em outro, quando em lapsos de sanidade me dava conta disso me assustava e procurava pela Cris ou pelo Mauro, mas mesmo quando eles estavam perto eu os sentia longe. Só no expulsivo essa sensação se diluiu (volto nisso mais a frente).

Bem, finalmente, lá pelas 4h30 Mauro concordou em ligar pra Cris, ainda que o número de contrações não estivesse no ponto combinado. Eles falaram entre eles e eu corri pro chuveiro de novo e pensei: por que eu não fico direto aqui dentro do box? e me dei conta que tinha medo da resistência queimar … Não sei muito bem como, mas (umas duas horas depois) a Cris apareceu do lado do box, os olhos azuis dela me puxaram da outra dimensão e com um sorriso delicado ela disse suavemente: Isso Carla, é tua filha nascendo, a cada contração ela está mais perto de você! E então pediu pra eu sair do box assim que conseguisse pra ela me examinar.

Exame de toque feito, sem dor, acho. E ela me diz você está com 6 dedos de dilatação, se vocês não querem que o bebê nasça aqui, temos que ir pro hospital. Me veio um segundo de lucidez e eu pensei, putz podia dar uma enroladinha por aqui quem sabe ela chega logo e aqui em casa, mas logo depois vi o Mauro e pensei, não, melhor irmos pro hospital, Mauro não estava nada confortável com a ideia de ter um parto domiciliar e eu, durante a gestação optei por não forçar a barra, já que ele estava gastando uma super energia em melhorar da coluna. Rapidamente arrumamos uma mala pra mim e pro Mauro, fechamos o malão que eu havia preparado pra Birobinha e lá fomos nós no carro da Cris. Gente, posso dizer? Ooooo situação: Mauro deitado no banco de atrás meio sentado meio deitado com uma cara mista de dor e preocupação, Cris com um olho na direção e outro em mim. De vez em quando, a dor vinha beeem forte, nem sei como a Cris percebia, mas ela percebia, pegava na minha mão, diminuía a velocidade do carro, trocávamos olhares e eu, com mais força, saia de mim novamente. Fomos o caminho todo assim, pra mim demorou e foi a parte mais desconfortável do TP, a despeito de todo apoio que Cris me deu. Aliás a minha memória de carinho e apoio da Cris é bem marcada por este momento no carro e depois no finalzinho do expulsivo quando ela e Cátia me davam uns toques de como respirar.

Na delivery 2 do São Luiz (Itaim)

Minha entrada no SL, às 7h20, foi tranquila, Cris é super conhecida e foi abrindo os caminhos dizendo: ela é paciente da Dra Cátia. Na triagem, que não deu pra pular, lembro-me da enfermeira me dizendo: tenho 8 perguntas pra te fazer e eu gritando: oooooito? Nem sei se respondi as oito, acho que falei qualquer coisa que me veio a mente … lembro também que a enfermeira queria “pegar minha veia” pra um sorinho preparativo da analgesia e Cris disse, ela não vai fazer analgesia e eu, rapidamente,

apoiada na maca, quase de quatro no chão, reagi: Cris, eu não tenho tanta certeza disso, não! Sem soro, sem mala, sem marido e sem a Cris eu cheguei na delivery: Cadê todo mundo? Eu só enxergava a banheira e me via lá dentro boiando feliz e sem dor. Mauro apareceu com uma enfermeira do hospital e ligaram a banheira.

Nada da bolsa estourar, eu pensei.

Mal a banheira estava cheia e eu me joguei. Na hora de arrumar a mala pro hospital eu havia separado um top, pensei em amarrar meu cabelo de um jeito bonito e firme, queria ficar bonita como as parturientes que assisti nos vídeos, mas nada disso foi lembrado naquele momento.

Entrar na banheira foi relaxante, eu tive vontade de ficar de barriga pra baixo, queria sentir minha barriga n’água. Fiquei de molho lá, tendo contrações por horas (na verdade foram 3 horas no total, mas pra mim pareceram umas 6).

Ora eu sentia aquela banheira graaaande e eu pequena dentro dela e ora eu a sentia minúscula, me apertando. Mauro, paramentado, parecia empolgado e nem expressava mais a carinha de dor feita no carro. Ele grudou na câmera de filmar do pai dele e ficou lá atrás sorrindo, me olhando, focando, trazendo a toalha. Eu pensei que gostaria de te-lo mais perto, na banheira comigo, mas não falei nada por achar que isso fosse machucar a coluna dele. Cris deu uma sumida. Na delivery vizinha, alguém, que eu não sei quem é até hoje, estava passando por um processo de indução de parto e Cris a conhecia e foi dar um allô. A Cátia ainda não havia chegado e as dores só aumentavam, me vi uma mulher de coragem, e ao mesmo tempo frágil e só. Hoje, pensando nisso, parece que o TP foi o momento de aprofundar neste único ser só, (que na verdade há 9 meses era um dois em um) para então parir e virar binômio: mãe-filha. Tornar-me 1 pessoa + 1⁄2 de mim, geneticamente falando. Transformar- me em veículo/túnel pra dar espaço e tempo a outro serzinho. [No pós parto, muitas vezes quando amamentava Lina, me via refletida nos olhinhos dela e me imaginava parindo nós duas de novo (e sempre).]

Bem, voltemos a banheira: nada de flores, nada de velas ou incensos e nem música, tudo que eu ouvia eram os gritos da vizinha de delivery e os meus próprios. Cátia chegou e me jogou um beijinho. Acho que por aí, Cris e ela ficaram próximas à banheira e fizeram um cardiotoco dizendo que estávamos indo muito bem. A Cris comentou que sou uma mulher parideira. Na verdade, acho que ela falou isso pra me encorajar. Mais gritos (da vizinha e meus) e eu sentindo que ia me quebrar ao meio e pedi analgesia. Cátia olhou bem pra mim e disse que naquelas alturas não seria necessário, ela estava vindo, faltava pouco.

Sandra, a pediatra, com quem eu finalmente conversaria em consulta naquele dia a tarde, chegou. Lembro de te-la visto ao mesmo tempo que dava um super berro.

Perguntei à Cátia sobre minha bolsa, como assim estou perto de parir e minha bolsa nem estourou, ou será que estourou e eu nem tô me lembrando. Ela me disse que muito provavelmente ela tinha estourado na banheira em uma das fortes contrações e eu nem percebi. Explicou que havia ‘gruminhos’, tecido da bolsa, na água da banheira e isso sinalizava bolsa rota. Pensei: isso é porque está tudo fluindo bem ou por que estou desconectada? Deixei pra lá a resposta, lá vem mais uma contração. Por estas alturas as dores eram diferente, mais abaixo no ventre e eu realmente sentia que viraria duas, mas agora sem poesia, pensei mesmo que ia me rachar ao meio e disse isso. Cátia logo reagiu: querida é assim mesmo, eu tive essa mesma sensação no parto

da minha filha, mas a gente não racha não. E agora, além da dor me sentia cansada e a vontade de fazer força vinha, mas me parecia insuficiente. Notei as contrações mais espaçadas, a Cris me deu água, foi ótimo (aliás depois do nascimento, do colo, do encontro, que sede!! Bebi litros de água). Mauro continuava de olho na câmera só que agora o foco me parecia mais embaixo e logo entendi o motivo. Cátia e Cris me disseram que estávamos quase lá, ela tá vindo, já deu pra ver a cabecinha, não sei bem porque mas não tive a ideia de sentir com os dedos. A partir daí, um toque da Cris e outro da Cátia foram essenciais para eu parir. O da Cris: respira, segura a respiração e vai soltando concentrando na vagina, faz dessa dor a tua força! Eu tentava respirar e concentrar força, mas me embananava na respiração e lembro de ter dito algo do tipo: ah! Se eu tivesse feito as aulas de yoga da Cris. A Sandra riu, aquela risada delícia dela.

Além da dificuldade com a respiração eu desequilibrava, escorregava na banheira, mas não tinha vontade de sair de lá, pensei que alguém pudesse me apoiar nas costas, queria o Mauro, mas não quis sugerir (pela coluna dele) e em paralelo a estes pensamentos a Cátia (bruxinha do bem!) verbalizou que eu estava escorregando no final da força da contração e precisava de um apoio, sugeriu que Mauro entrasse na banheira, eis o toque da Cátia, sabido, sensível e decisivo para o meu expulsivo (aliás, que nome feio e impróprio, pra um momento tão intenso e bonito). Mauro disse: mas terei que entrar de cuecas, nossas malas não subiram e eu tô sem calção, as meninas riram e disseram que já viram muito homem de cueca na vida e nos partos ….. Amei Mauro ter entrado e foi lindo sentir a energia dele e o apoio para as costas realmente facilitou.

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Tentando respirar melhor e envolvida pelo Mauro a banheira me pareceu mais azul, as contrações vieram e eu me senti coroando. Cátia dizia para eu colocar a mão e senti-la, não sei porque não tinha feito isso antes, acho que fiquei com medo de empurrar pra dentro novamente, o que, na verdade, já estava acontecendo sem eu colocar a mão, ela vinha e voltava. Acho que foram mais umas 4 contrações beeem intensas e senti a roda de fogo, sai do ar por uns segundos e quando retornei os olhos de Cátia vibravam e logo logo senti vontade de fazer força novamente e aí pude sentir uma das mais emocionantes sensações da minha vida, senti todo o corpinho dela passando por mim, senti direitinho, como uma foto em braile, como comer algo delicioso que é novo pra você, mas contempla sabores já conhecidos, só que melhor!! Um bracinho ficou meio preso e Cátia ajudou a endireitar, a pegou e me deu. Ela de olhinho aberto, sem chorar, ficou no meu peito e eu a observando vi sua mãozinha de unhas enormes fazendo figas e um rostinho muito parecido com o do pai.

Acho que aí se localiza o prazer máximo do parto, uma explosão de felicidade e emoção que circulam nas veias, mente e coração, é rápido e intenso. O desvendar de uma passagem, paixão, um renascimento!

Surpreendentemente nesse nosso primeiro encontro com nossa filha eu não chorei, os que me conhecem e sabem como sou (era) manteiga derretida poderão entender o estranhamento sobre mim mesma. Ali, na banheira, segurando a Lina eu já pensei nisso, caramba estou tão emocionada e não cai uma lágrima, que esquisito!

Nasceu assim uma fofucha que demos o nome de Lina e também uma nova mulher, ainda sem nome, a ser descoberta, reinventada. Alguém cheia de energia e força para cuidar e apresentar à filha um mundo bonito, de diversidade, por vezes generoso e outras vezes cruel, mas também disposta a aprender sobre e com ela.

Depois de algum tempo namorando a Lina e sentindo os braços emocionados e acolhedores do Mauro comecei a sentir uma dorzinha (pouca), e nem sei dizer se era uma contração da placenta ou o cordão que esticava. Sandra trouxe a tesoura e Mauro fez o campleamento. Sandra e Cátia acharam melhor a gente sair da banheira por conta do frio que a bebe poderia sentir. Lina começava a resmungar, quase quase chorando.

Depois de pesa-la, fazer o capurro, e outras medições Sandra a trouxe para mamar, que delícia senti-la, que sonho! Facilmente ela agarrou o peito e com um ou dois toques da Sandra lá estávamos nós em formato acoplado e delicioso. Sandra riu e disse à Cátia que estava indo embora antes mesmo da Cátia porque a bebê era uma “profissional da mamada”.

Meu parto foi liso, tive uma pequena laceração, que segundo a Cátia nem precisaria de pontos, apesar de eu ter preferido recebe-los. Lina foi uma bebê sabida e tranquila, fez a parte dela, na boa … um parto na água, sem intervenção clínica nenhuma, sem mandos de posições e com muito respeito, foi meu sonho acordada, um sonho de luz, de muita energia e drogas pesadas (naturais) – ocitocina – correndo nas veias!

Lina nasceu, às 9h36 do dia 04/08/2012 com 49cm; 3275Kg; 40semanas, pelo capurro; apgar 10/10; com a carinha do pai e unhas bem grandes!!

Amamentá-la, dar colo, cheirar e namorar cada curvinha é tão bom, tão gostoso que às vezes dá aquele medinho da felicidade, sabe?! Quando sinto isso, grudo, grudo e grudo nela, respiro e deixo o amor fluir. É inexplicável como se pode estar disposta a cuidar e amar tanto alguém desconhecido ainda e é lindo viver a construção deste amor a cada dia de dedicação, entrega, noites mal dormidas e muitos beijos!!

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Algumas considerações a mais

Foi bom parir no hospital com segurança, amor, respeito, água e pouca luz, mas foi ruim me separarem da minha filha para a alfândega e nos deixarem na sala de pré parto, porque não havia quarto vago e a delivery precisava ser desocupada pois uma outra gestante estava preste a parir. Isso e a transferência de casa para o hospital me fazem considerar fortemente ter um segundinho, caso o tenha, em casa.

Dor? Cadê, onde foi? Como foi mesmo? Só lembro que foram fortes e me trouxeram a Lina-mãos de tartaruga com um leve sorriso no rosto. E por isso, por não me lembrar da dor e por lembrar que li um relato – da Angela Neto– que falava algo bem semelhante é que a despeito do meu parto ter sido sem intercorrências (liso e sem intervenções clínicas) resolvi fazer um relato que não foi escrito somente pra mim mesma e pra Lina. Espero que ele sirva pra preparar, divertir e encorajar outras mulheres. O parto é, a princípio, uma festa, é vida e não necessariamente precisa ser encarado como sofrimento em ambiente esterilizado e antisséptico.

****

Quando retornamos da maternidade, transbordando de amor, os avós de Lina haviam deixado em casa uma orquídea com flores brancas, linda! Dias atrás, 6 meses depois, as últimas flores caíram marcando um novo ciclo em nossas vidas, estou voltando a trabalhar e Lina está vendo o mundo de outra perspectiva — sentada.

Relato escrito em fevereiro de 2013.

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2 pensamentos sobre “Lina – Carla & Mauro

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