Ceci – Lucelia & John

Por Lucelia, mãe
40 semanas e 5 dias de gestação

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sou um coração
sou um coração batendo no mundo.
você que me lê que me ajude a nascer.

espere: está ficando escuro. mais.
mais escuro.
o instante é de um escuro total.
continua.

espere: começo a vislumbrar uma coisa.
uma forma luminescente. barriga leitosa com umbigo?

espere – pois sairei desta escuridão onde tenho medo, escuridão e êxtase. sou o coração da treva.

o problema é que na janela do meu quarto há um defeito na cortina. ela não corre e não fecha portanto. então a lua cheia entra toda e vem florescer de silêncios o quarto: é horrível.

agora as trevas vão se discipando.

nasci.

pausa.

maravilhoso escândalo: nasço

Àgua Viva – Clarice Lispector

Ceci nasceu às 18:18 de um domingo, 22 de julho de 2012. Fez muito frio naquela semana, mas ela esperou o tempo esquentar para vir ao mundo no primeiro dia do signo de leão. A aventura da sua chegada eu conto 8 meses depois, misturando a lembrança com o que já elaborei de tudo que vivemos.

Segunda-feira, 16 de julho, véspera da DPP. O corpo começava a dar alguns sinais. Contrações sem ritimo, cólica… Um telefonema para médica e ela verbalizava o que meu corpo já sabia: estava chegando a boa hora. Sou tomada por um misto de emoção, alegria, medo e ansiedade. Precisávamos deixar tudo pronto, acertar os detalhes finais, aqueles que sempre ficam para a última hora. Uma sopa gostosa no fogo, lista de comidinhas leves para a hora P, o riso e o choro soltos. Resolvi tomar um banho. A água do chuveiro inspirou um choro profundo, como se ali eu estivesse lavando as sujeiras que o meu medo ainda teimava em deixar. A decisão era acertada, disso eu não duvidava: era PD, meu coração me dizia. O medo era desse mergulho no desconhecido, o medo de me atirar do abismo sem saber o que ia encontrar lá embaixo. Mergulho em queda livre. Ao mesmo tempo, estava muito feliz de saber que aquele momento tão esperado estava cada vez mais próximo – e que nas últimas semanas parecia que nunca iria chegar. E não chegou naquele dia. Logo as contrações cessaram. Seguimos com os preparativos, passamos a semana recolhidos, queríamos manter um clima de amor, de tranquilidade em casa. O John só saía de casa para trabalhar. Ficamos mais juntos do que nunca naquela semana. No dia seguinte era nosso aniversário de casamento, o dia da DPP. Resolvi escrever uma carta para Ceci aonde eu dizia: “Vem filha, estou pronta para me tornar sua mãe. Estamos aqui só te esperando”. Nesse dia comemoramos 2 anos de casamento e pensei que, dali para frente, nos anos seguintes nós teríamos sempre mais um motivo para celebrar. A semana passou sem maiores novidades. A nossa casa parecia um parque de diversões do parto, piscina inflável na sala, rede pendurada no quarto, bola de pilates. Tudo pronto esperando a hora da brincadeira começar.

Na sexta-feira à tarde eu senti minha barriga endurecer. Ficou um tempo assim e resolvi ligar para Deborah. Ela disse que viria me examinar à noite. Estava muito frio. Tomei um banho quente, liguei o aquecedor no quarto e preparei um escalda pés, coloquei uma baixa e uma música gostosa para tocar. Meu corpo pedia movimento, então eu dancei. Uma dança lenta e suave. Eu estava convidando Ceci a vir dançar comigo aqui fora. Acendi uma vela pedindo proteção ao meu anjo da guarda durante o parto. Pedi serenidade para enfrentar a dor de frente, pedi coragem e sensibilidade para escutar o que meu corpo me diria. Pedi ajuda para conseguir desligar minha consciência e deixar que a natureza agisse em sua força e sabedoria. Pedi humildade para aceitar ajuda e os caminhos do meu parto. Pedi determinação para não perder o foco das minhas escolhas. Pedi luz para o John, para que ele pudesse viver esse processo intensamente, sem medo, com alegria. Pedi ao meu anjo que nos mandasse energia de vida para festejarmos o nascimento da nossa filha.

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Quando a Deborah chegou eu estava bem relaxada, recolhida, concentrada. Conversamos e ela me examinou. Estava tudo bem. Como já havíamos passado das 40 semanas, ela sugeriu que eu fizesse uma ultrasonografia no sábado (dia seguinte). Ela deixou as coisas para o parto aqui.  Colocamos tudo no quarto da Ceci e aproveitamos para sair um pouco e curtir um sambinha no boteco da esquina, já imaginando que aquele poderia ser nosso último samba antes dela chegar.

Acordamos no sábado e nos preparamos para ir ao hospital fazer a ultrasonografia. No metrô, a caminho do hospital, eu resolvi que não queria fazer o exame, disse para o John que, se ela não nascesse até completar 41 semanas, eu faria o exame. Já haviamos escutado o coração dela na noite anterior, estava tudo bem, não quis passar pela burocracia do hospital e me estressar por bobagem. Descemos na estação e resolvemos almoçar no nosso restaurante indiano preferido pertinho dali. Caprichei na pimenta, tomei uma cerveja e voltamos para casa. À noite, por volta de 23 horas eu comecei a sentir algumas contrações e um pouco de cólica. Nada forte, mas quis avisar a Mari (nossa doula), apenas para que ela soubesse que poderia ser aquela noite. Ela me disse para eu tentar dormir o máximo que eu conseguisse e que não me preocupasse em contar as contrações. Se eu sentisse que estavam muito próximas, que eu ligasse novamente. Mandei uma mensagem para Deborah e fui dormir. Passei a noite revezando entre o sono e as contrações. Quando elas vinham eu respirava fundo, abrindo a garganta soltando um som aberto na expiração. Ahhhhhh. Não senti vontade de me levantar, fiquei deitada a noite toda e dormia entre as contrações. As dores eram contínuas, nada insuportável, mas logo cedo já não conseguia mais ficar deitada, tive que me levantar. Resolvi ligar para a doula e desliguei chorando: só pródromos? Pelas minhas contas o intervalo entre as contrações ainda nao configurava TP. Ela me disse para aproveitar o dia e se mudasse o ritmo era para ligar de novo. Algum tempo depois as dores foram ficando mais fortes e eu tinha que parar o que estava fazendo quando vinha uma contração. Nessa hora eu me apoiava nos móveis ou me agarrava a rede que eu havia pendurado na porta do quarto da Ceci.

O John começou a arrumar algumas coisas, passou o aspirador na casa. Em duas horas as contrações já estavam bem próximas, além de bastante doloridas. Ligamos para a Mari e ela disse que estava a caminho e que ligaria para Deborah. Parecia que tinha engrenado. Era domingo e nossa pequena estava vindo. A festa do nascimento começara. Luiz Gonzaga no som e uma surpresa já na primeira musica da playlist escolhida pelo John. No meio de uma contração eu escuto:

Lula!
– Pronto patrão.
– Monte na bestinha melada e risque. Vá ligeiro buscar Samarica parteira que Juvita já tá com dô de menino.

Eu não sabia se ria ou chorava. Resolvi dançar, chacoalhando de leve os quadris. Pensei que aquele era um bom dia para parir. O tempo havia esquentado, fazia um sol bonito lá fora. Mas eu estava mesmo indo na direção oposta, indo cada vez mais para dentro de mim, ao encontro da nossa filha. Estava indo buscá-la para que ela pudesse vir ao nosso encontro aqui fora.

Quando Deborah e Mari chegaram foi uma alegria. Eu ainda conseguia conversar e comemorei quando, no exame, a Deborah constatou que eu já estava com 6 cm de dilatação. Nessa hora o tampão saiu. Depois disso a lembrança é meio turva, desfocada. As contrações ficaram mais intensas e eu já nao interagia muito. Fiquei um bom tempo usando a rede como apoio durantes as contrações e precisava que alguém me apertasse o quadril, o que aliviava muito as dores.

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Eu respirava e vocalizava a cada contração. A rede ajudou muito pois eu conseguia soltar o corpo em direção ao chão. Me lembro que o John enchia a banheira de água que esquentava no fogão e, num determinado momento ouvi ele dizendo que o gás havia acabado. Ele conseguiu ligar para pedir um novo butijão, e eu me lembro do momento que alguém entrava em casa para entregar o gás e eu gemendo dentro do quarto. Também percebi que havia um problema com o pediatra que deveria fazer parte da equipe, mas resolvi não me preocupar e deixei que eles (a equipe e o John) resolvessem. Minha sensação é que tudo passou rápido demais. Ouvi a Mari dizendo que eu já estava com 10 cm de dilatação, que havia passado pelo período de transição. Mas a bolsa ainda não havia rompido. As dores começavam a ficar muito fortes quando a Deborah sugeriu que rompessemos a bolsa. Lembro dela me explicar que se rompessemos o processo poderia desenrolar mais rapidamente, pois parecia que a Ceci não descia. Aceitei a sugestão dela. Naquela altura eu queria que minha filha nascesse logo. Eu estava deitada na banheira e ela tinha que esperar a contração para conseguir estourar a bolsa. Essa foi a parte mais dolorida, pois eu precisava ficar parada durante a contração. Fiquei apreensiva mas foi muito rápido. Como estava dentro da água eu nao senti a bolsa estourando de fato. Logo depois achei melhor me levantar e caminhar um pouco pela casa, queria ficar de pé. Voltei a me apoiar na rede e de repente ouvi um ploft e senti um monte de água caindo no chão. A bolsa só rompeu mesmo ali naquele momento.

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A partir daí foi tudo muito rápido (pelo menos na minha lembrança). Voltei para a banheira pois sentia que aliviava muito a dor, que a essa altura já estava ficando mais intensa. Perguntei se ia doer mais do que aquilo e se estava tudo bem comigo e com a Ceci. Acho que esse foi o único momento em que fiquei com medo de que as coisas saíssem do controle, tive medo de me apavorar. Mas, o sorriso da Mari e da Deborah foram fundamentais para que eu continuasse firme.  Elas me olharam com muita calma e disseram que estava tudo indo muito bem, que eu estava ótima e a Ceci também. Eu tentava não lutar contra a dor. A presença do John sempre junto, muito calmo também foi fundamental. Ele que no início do TP estava mais concentrado em arrumar as coisas, encher a banheira, agora estava presente ao meu lado o tempo inteiro.

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Comecei a sentir vontade de empurrar. Estava deitada na banheira e tentei empurrar ali, mas estava muito difícil. Me lembro de ouvir a voz da Ana Cris entrando na casa e depois no quarto. (com a ausência do pediatra ela veio acompanhar o parto preparada para intervir com a Ceci, caso fosse preciso. Não precisou mas, sua presença veio completar o clima de tranquilidade e alegria que pairava na casa). Deitada na banheira eu não sabia exatamente que força devia fazer. Eu gritava colocando muita força na garganta. A Mari me alertou, me explicando que a força era outra. Demorou um tempinho até que fizesse sentido e que meu corpo encontrasse a expressão necessária. A Mari me deu uma toalha para que eu puxasse com os braços na hora de fazer força, mas não adiantou muito, eu estava muito cansada.

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 Depois tentamos com meus pés apoiados, em seguida de joelho na banheira, mas também não estava bom. Percebi que aquela posição não era boa para mim. Precisava ficar de pé. Quis me apoiar na rede, no quarto ao lado. Mas as contrações vinham uma atrás da outra e era difícil me mexer. Não sei com que forças eu me levantei da banheira. Ouvi a  Deborah dizer que não dava tempo de ir até a rede, a Ceci estava nascendo. Foi o tempo dela colocar a banqueta de cócoras para eu me sentar. O John estava atrás de mim, mas ele queria pegar a Ceci, então a Ana Cris ficou me amparando. Me lembro que ela dizia umas coisas no meu ouvido, mas eu estava completamente em transe, só escutava um sussurro gostoso. Só soube o que ela dizia depois quando assisti ao video. Ela mandava eu soprar como se estivesse soprando a Ceci para fora de mim. A sensação era de que ela saía sem eu precisar fazer força. Eu sentia os puxos bem fortes, senti o círculo de fogo, mas não sentia mais dor. Era uma força para além de mim. Um grito e a cabeça saiu. A Ana guia minha mão até a cabeça da Ceci já do lado de fora. Nunca vou esquecer aquela sensação, a textura que senti com a ponta dos meus dedos. Foi incrível!! Eu estava ali sentindo aquilo tudo, mas ao mesmo tempo parecia um sonho. Logo senti o resto do corpinho descendo. Um som gutural saía da minha garganta e logo meus gritos se misturaram aos choro dela, minha filha querida estava ali. O John a segurou com a ajuda da Deborah e ela veio direto para os meus braços. Só quando a senti toda molhada e quente no meu peito, despertei do transe, voltei da partolândia. Quando finalmente eu entendi o que tinha acontecido eu consegui dizer: Filha, você chegou!!! Lembro de olhar em volta estupefada e dizer: Que loucura!!!

Ela seguiu chorando, mas logo se aninhou no meu colo e se acalmou. Ainda na banqueta senti uma coisa quente no meio das pernas e a placenta saiu, muito rápido. O John cortou o cordão. As meninas me ajudaram a sentar na cama e enquanto elas foram buscar as roupinhas o John a segurou pela primeira vez. Ana Cris a vestiu, examinou e pesou nossa pequenina, ela estava ótima. Logo voltou para os meus braços para mamar. Assim ficamos um tempo, e quando eu me dei conta elas já tinham limpado tudo. O quarto exalava amor e alegria. Eu estava eufórica, me sentia a mulher mais forte e poderosa do mundo. Ainda não acreditava que havia parido meu bebê naturalmente, na nossa casa, no nosso quarto. Nunca vou esquecer este dia. O dia que vivi a experiência mais louca, linda, intensa e forte de toda minha vida. Não tenho palavras para agradecer todo o amor que recebi da minha linda equipe (Deborah, Mari e Ana Cris) que encheram nossa casa de carinho, exatamente como deve ser o clima em torno do nascimento de um bebê, uma mãe e um pai. Agradeço muito à Ana Cris por me mostrar o que eu precisava saber para parir com respeito. Minha doula querida, Mari, minha mais profunda gratidão. Agradeço também à Deborah, médica querida que me acompanhou na gravidez e bancou junto com a gente o meu PD.  Às mulheres poderosas da lista materna, que dividem todos os dias suas experiências e seu carinho com pessoas que muitas vezes nem conhecem… é uma rede incrível! E principalmente ao John, que esteve junto durante todos os momentos, que viu nossa filha nascendo com respeito e amor e que sempre acreditou que tudo isso seria possível, mesmo quando eu achava que não seria capaz. Que aguentou meus choros, minhas crises de insegurança mas, que também viveu comigo todas as alegrias desse lindo processo. Obrigada, meu amor, por topar viver comigo essa aventura louca e deliciosa. E nossas vidas nunca mais foram as mesmas.

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