Mia – Renata & Ariel

Por Renata, mãe
39 semanas de gestação

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Tudo começou com uma dor no peito, veias inchadas e um sono incurável. Bom, na verdade foi mesmo com uma camisinha mau colocada, mau retirada ou mau fabricada, e uma pílula do dia seguinte que resultou em semanas seguintes de um crescente útero gravídico. Apenas 10 dias depois do ocorrido, lá estava enfim a dor nas mamas. Ainda faltava uma semana para a data que eu deveria menstruar, e a dor não me deixava dormir. Juntando lé com cré e passado mais alguns dias, me vi sentada na privada com um teste positivo nas mãos. Eu estava grávida.

A gravidez, apesar de não ser esperada, trouxe muita felicidade, pois eu já tinha idade, trabalho e a certeza de estar com um homem bom e amado. E com esse novo outro amor veio junto o medo. Era todo xixi até o 3º mês pensando em não perder o bebê. Até, que o 3º mês passou e o medo também… Nessa altura eu já tinha lido mais de 500 páginas sobre gravidez, já estava me alimentando muito bem, e tinha comprado as primeiras roupinhas para a Mia, quando todo aquele medo tingiu de vermelho minha calcinha. Um dia após completar 16 semanas gritei o Ariel (o homem bom) e fomos para o hospital. Algumas terríveis horas depois, eu estava mais calma, tinha feito um ultrassom que acusava “placenta baixa”, e falava com a Dra Betina ao telefone.

A Betina merecia um texto só dela, foi indicação de uma amiga, e acho que nada seria igual se eu não tivesse caído nas suas mãos. Quem conhece sabe, é uma mulher doce e simples, uma obstetra segura, tranquila, experiente; e a favor do parto humanizado. Nessa hora ela me tranquilizou. Depois, pediu repouso. Esse primeiro repouso durou três semanas (com já quase 8 meses a placenta tinha subido o suficiente, felizmente, para o parto normal). Já conseguia sentir a bebê mexendo. E era tão bom senti-la! Mesmo de repouso eu estava feliz, minha filha se comunicava comigo todos os dias, e eu sabia que ela estava bem. Já a amava tanto!!

Nove semanas depois, lá estou eu ligando novamente para a Betina tarde da noite. Dessa vez estava mais calma, apesar do novo sangramento. E lá se foi o tampão mucoso. Com apenas 25 semanas o colo já tinha começado a dilatar, e eu voltava ao já sabido repouso. Dessa vez quase absoluto. Não foi fácil segurar de novo o medo de alguma coisa dar errado. Contava os dias.

E assim, deitada no sofá, passei meu aniversário, acompanhei a pintura o quarto, a chegada do berço, a entrega do armário, a dilatação de 1cm, o dia das mães, a dilatação de 2 cm, o chá de bebê, as 35 semanas, e finalmente parei de usar a progesterona para segurar a dilatação (que comecei com 32 semanas) e com 36 semanas completas sai do repouso. Já tinha quase 3 cm de abertura no colo e uma certeza de que a Mia poderia nascer a qualquer momento.

Aproveitei para fazer tudo que precisava antes dela nascer. Lavei as roupinhas, arrumei o quartinho, cortei o cabelo, tirei o novo RG, fiz unha, depilação, comprei o que faltava e nada de contração. Nessa altura minha família já me ligava todos os dias ansiosos pela evolução do parto. Tentavam adivinhar a data, e assim que a escolhida passava, já tinham uma outra na ponta da língua. Era aniversário da madrinha, lua nova, feriado, dia do dinheiro embaixo do nhoque, lua cheia…

Para mim, feliz era cada dia que passava, com a Mia já na posição certa, encaixadinha, e uns 3,5 cm de dilatação, cada dia a mais dentro do ventre era um dia a mais no desenvolvimento da minha filha. Estava tranquila, apesar da ansiedade dos outros. E assim continuava a devorar textos e textos sobre amamentação, sling, ôfuro, maternidade consciente, co-sleeping, livre demanda, parto natural. Via partos de todos os tipos na TV e youtube. Já sabia os nomes de todos os procedimentos possíveis. E cada vez mais me sentia como uma fêmea. Uma mamífera que via essa transformação minha como um evento natural. Precisava respeitar esse sentimento. Não queria nenhuma interferência médica. Queria parir.

Estava nas mãos certas com a Betina, e para continuar assim, induzimos o parto às 13h00 do dia 02 de julho, era uma segunda-feira. A Betina entraria de férias em poucos dias, iria para a Turquia, e eu nesse dia completava 39 semanas. A pedido do Ariel, que além de bom e amado é muito, mas muito ansioso, levei a nossa mala e a mala da bebê no porta-malas. Mesmo explicando que não seria um processo instantâneo, aprontamos tudo e às 13h00 estávamos na sala de espera do consultório. Ufa, quanta coisa passamos até aquele momento. Além de todo amor e expectativa para conhecer aquela pequenina. Não tinha mais medo. Acordei sabendo que tinha uma missão, e que para parir tinha que encarar aquele trabalho de parto como um trabalho, com consciência e sabedoria. Sem medo deitei na maca do consultório.

A indução era simples, e podia não funcionar. Com os dedos a Betina descolou a bolsa do útero. Tirou as luvas e disse “pronto, agora vai caminhar um pouco”.

Com o porta-malas cheio, fomos almoçar no shopping, para que eu pudesse andar bastante. E assim, depois do almoço, e com um Ariel nada paciente, fui olhando as vitrines do shopping. A cada andar, uma cólica discreta me deixava na dúvida se a indução tinha funcionado ou se eu estava sentindo o que queria sentir. Até que fiquei com muita vontade de ir no banheiro e pedi para voltar para casa.

Chegando em casa, resolvido a questão do banheiro, aquela cólica, imaginária ou não, me permitiu dormir um pouco no sofá.

Já eram seis da tarde quando acordei. A cólica estava mais forte e o Ariel ainda dormia. Levantei e comecei a caminhar pelo apartamento, não conseguia parar de andar, me movimentar e pouco depois a cólica já tinha se transformado em pequenas contrações.

Estava anotando a frequência quando o Ariel acordou assustado. Me viu de um lado para o outro, anotando os minutos, e para minha surpresa, ficou calmo! Assim, ainda com as contrações irregulares e fracas, ficamos conversando e rindo até umas sete, quando tudo parou. Já estava cansada de ficar em pé, e agora um pouco frustrada, deitei com ele na cama. Ele, muito esperto, lembrou que a Betina também tinha aconselhado a namorar, e após vinte minutos, as contrações voltaram com força: eu havia entrado em trabalho de parto! Amasso dado, ele foi até a cozinha me fazer um sanduíche.

Fiquei deitada na cama em posição fetal, com a mão na barriga. Queria sentir a Mia, se ela estava mesmo pronta. Olhei nas marcações e já estavam de 5 em 5 minutos. Eu estava feliz. Quando ouvi um barulho dentro de mim. Pluf, levantei num pulo e fui fazer xixi. Não sei como, mas sabia que a minha bolsa tinha estourado. Esperei um pouco depois do xixi e sim, tinha água escorrendo por ali.

Com um sorrisão no rosto chamei pelo Ariel no mais clichê de filme de grávida, “Amor, minha bolsa estourou, liga para a médica”! E ele em um segundo estava parado na minha frente, acho que curioso para ver se eu tinha molhado o quarto todo, como nos filmes.

Dois minutos depois estávamos no carro. O porta-malas já cheio, ainda bem! Eram oito e meia da noite.

Às nove chegamos no estacionamento do lado do hospital. Eu fui andando sozinha na frente, parando a cada contração. Quando cheguei na recepção da maternidade, a moça perguntou o que eu tinha ido fazer ali, e eu disse, vim ter neném, ué… Minha barriga de 9 meses por si só não contava nada, era muito pequena.

Subi com a enfermeira para o quarto de parto natural do São Luiz. Para minha alegria, a Betina chegou minutos depois de mim. Já tirei toda a roupa e voltei a andar e andar pelo quarto. Ela me examinou e disse que eu já tinha 6 cm de dilatação. Eu estava muito a vontade com ela. As enfermeira quase não entravam no quarto. E ela ficou comigo, sem dizer nada quando não era preciso, massageando minhas costas, acalmando minha respiração. Eu estava concentrada.

O Ariel vestido de roupa cirúrgica entrou no quarto, agora não tão calmo, e já pegou a câmera para filmar o processo (nós dois trabalhamos com cinema, mas ele é fotógrafo, não pôde deixar de levar a filmadora dele, mesmo contratando outra pessoa para filmar…). E assim ficamos lá, eu respirando, andando de um lado para o outro, e a Betina, com uma tranquilidade contagiante.

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Logo entrei no chuveiro, a água quente nas costas ajudava bastante, eu estava confiante, sabia que podia ir até o fim daquilo. As contrações eram fortes já, sentia como se alguém estivesse torcendo meu corpo por dentro, uma dor amarga, como se esmagassem o ponto de angustia. Só me sentia confortável em pé durante as contrações, apoiando os braços na pia, curvava as costas e ficava nas pontas dos pés. Eram uns 10 segundos de muita dor, depois ia perdendo força até passar a contração, que durava uns 40 segundos / 1 minuto. No intervalo, às vezes ficava bem concentrada, às vezes conversava e ria. Eu queria passar por aquilo, estava entregue a dor, ela não chegava a me incomodar. Já havia me preparado desde a gestação, sabia que apesar de intensa, a dor era passageira. Tentava ajudar meu corpo naquele trabalho.

Já fora do chuveiro senti vontade de fazer xixi, e assim que o xixi acabou, comecei a querer empurrar.

Só haviam passado uns 40 minutos desde que tinha chegado no hospital, nada estava pronto para receber o bebê. E assim que a Betina me examinou, olhou no meu olho e disse “quase”, já sabia que estava praticamente com a dilatação total. Ela ligou a torneira da banheira, e saiu com pressa. Eu já estava empurrando, vendo a água da banheira subindo, sentindo a bebê descendo. As enfermeiras entraram com panos e coisas algumas vezes, e quando vi, a pia do banheiro já estava cheia de volumes, a banheira quase cheia e uma menina segurava uma câmera atrás de mim.

Entrei na água. Nessa altura a Betina já tinha me ensinado a por a dor para fora fazendo um barulho com a boca, quase um grito de Ahhhh. E cada vez mais sentindo a Mia descer e entrar por um pedaço de mim que não lhe cabia direito, deixava esse grito sair e fazia muita força. Mas fazia de verdade muita força. Eu simplesmente sabia o que fazer com o meu corpo para dar a luz aquele bebê, era instintivo, natural mesmo. Ficava lá, de cócoras, sentindo aquele processo tão incrível dentro de mim, e a cada contração ia colocando o grito de Ahhh para fora e fazendo muita força. O Ariel e a Betina já me olhavam da beirada da banheira com um olhar maternal, e eu sentia que estava perto de parir.

Meu grito ficou mais forte e a dor agora queimava, realmente como um circulo de fogo, e por um momento eu achei que não ia suportar. Cheguei a dizer em voz alta “eu não vou conseguir”, mas ai lembrei de um texto, o relato de parto da Livia, que ela descreve como foi difícil a fase de expulsão dela, acho que demorou mais de uma hora, porque ela estava com medo. Ela foi revendo questões mau resolvidas da vida dela ao mesmo tempo que tinha medo de ser mãe, e estava segurando aquele bebê dentro dela. Eu não queria segurar aquele bebê, queria parir. Queria muito parir, e voltei a me concentrar naquele trabalho de parto, tão orgânico, quanto eu não poderia imaginar que seria. Gritei e deixei o medo sair junto com a cabecinha da Mia.

Não tinha percebido até que a Betina me disse para sentir o cabelo dela, mas eu estava tão concentrada em terminar aquele parto, em fazer nascer minha filha, que mesmo já podendo botar a mão nela, não me emocionei. E ainda mesmo com a cabeça dela para fora de mim, e a dor que misteriosamente tinha passado, não conseguia parar de fazer força. A Betina disse, relaxa, deixa ela sair, não faz força. E eu tentei não fazer, mas meu corpo estava numa inércia, até que veio a última contração e eu ouvi o Ariel dizer “a bebê”. Olhei para baixo e ela estava ali, na água, fora de mim, fazia parte do mundo. Eu tinha parido. Com a ajuda da Betina virei ela para mim, e nunca vou me esquecer dessa imagem. Ela tão pequena, se esticando pela primeira vez, já a sabia de cor.

A coloquei no meu peito, e assim ficamos, eu, o Ariel e nossa filha, abraçados pela primeira vez. Choramos mais que ela, que deu apenas uma choradinha e logo se aninhou no meu colo.

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Como era um parto humanizado, e o pediatra ainda não tinha chegado, com ela ainda no meu colo, a Betina enxugou de leve o seu rostinho e se certificou que ela estava bem, e assim ela ficou durante 20 minutos. A felicidade não cabia dentro de mim, mas a dor da laceração já me incomodava. O Ariel cortou o cordão, nos separando definitivamente, e a segurou no colo.

A Mia nasceu às 22h28. Quase uma hora e meia depois que chegamos no hospital. Não podia acreditar como tinha sido rápido. Ufa!

Ela abriu seus olhinhos ainda no colo do pai e assim que a Betina acabou de dar uns pontinhos em mim, ela veio para o meu colo mamar.

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Os nove meses foram poucos para a sensação que era ela mamando em mim. Ainda lambia e sugava sem jeito, mas o fazia com sabedoria, algo que só a natureza explica. Ela já sabia viver.­

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2 pensamentos sobre “Mia – Renata & Ariel

  1. Oi Re
    Finalmente consegui uma manhã calma pra ler teu relato. Adorei! Eu ia te mandar uma mensagem mas achei legal postar aqui pra deixar registrado, rs…
    Li teu relato enquanto ordenhava, e olha, ajudou viu? É tudo muito ligado né? Parto, bebê, leite, coração… Alguns comentários:
    Lendo seu relato entendi melhor a questão do repouso, não deve ter sido fácil… por outro lado deve ter te proporcionado um super mergulho na gestação. Realmente a Betina merecia um texto só dela. GO linda e querida. E que bom que vc caiu nas mãos dela, ainda mais com a necessidade de repouso e tal, muito importante ter uma presença segura, tranquilizadora e doce ao lado de vcs.
    Ah… gostei qdo fala do barulho da bolsa estourando. Eu tb senti! Rs. Mas não levantei, vazou tudo na cama, rsrsrs… E no final do relato, quando a Betina pediu pra vc relaxar e deixar a Mia sair também me lembrei que quando saiu a cabeça do Iuri eu tava tensa, segurando, morrendo de medo que ele voltasse. E quando relaxei ele escorregou, que nem manteiga. É muito louco como nossa mente e nosso corpo estão conectados né? É tudo tão bonito!
    Lindo também aprender a deixar o medo e a dor saírem, junto com a voz.
    Obrigada por compartilhar sua história. Com certeza ela ajudou a nascer a mãe que és hoje, pelo menos é o que eu vejo, a Renata mãe da Mia nascendo a cada parágrafo. Grande beijo

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