Liz – Renata & Gabriel

Por Renata, mãe
39 semanas e 6 dias de gestação

Deixa que o sol te veja

Esse relato é pra você filha. Para que você saiba o caminho que fez pra chegar até aqui nesse mundinho. E que sabendo desse primeiro passo você possa percorrer muitos outros, com independência e segurança.

Antes de tudo, um pequeno esclarecimento:

A Liz foi um bebê meio planejado. Explico o meio: eu e Gabriel nunca tivemos grandes conversas sobre ter filhos, ou planejamos milimetricamente o “momento certo”. Apenas compatilhávamos da mesma opinião: que momento certo não existe, um dia você simplesmente sabe que quer ter um filho. Eu contei um pouco como foi nesse post aqui. Praticamente decidimos ter um filho por que estava chovendo…

Desde o início da gravidez, fiquei super curiosa para saber sobre o parto. Uma pulguinha atrás da orelha sempre me consumia: se a maioria das mulheres que eu conhecia queriam partos normais, por que diabos todo mundo acabava fazendo cesárea? E nunca eram histórias simples: era sempre um médico heróico que salvou a mãe e o bebê de uma tragédia… Fui pesquisar e acabei descobrindo que os índices de cesárea no Brasil eram alarmantes e que se eu quisesse um parto normal teria que correr atrás dele.

Eu e Gabriel conversamos muito sobre isso e devagarzinho fomos montando o parto da Liz na nossa cabeça – eu vi um monte de vídeos de parto, li pra caramba a respeito, escolhi uma obstetra porreta, a Dra Catia Chuba (ela atende aqui) e entrei na lista de discussão Materna_SP, uma rede de mulheres sensacional que apóia incondicionalmente o direito das mulheres por um parto digno, capitaneada pela parteira Ana Cris Duarte, do GAMA.

Mas essa parte foi até fácil, de estar cercada de informações sobre parto. Difícil mesmo foi assumir que a gente queria um parto mais íntimo, mais nosso. Mas a gente nem sabia direito o que era. E aí entra a intuição galopante do maridón.

Como um parto normal virou um parto humanizado hospitalar que virou um parto domiciliar

Filha, seu parto começou a ser sentido, intuído, quando você estava a 20 semanas na minha barriga. Fomos em uma reunião do Gama, que não tinha nada a ver com parto domiciliar, era sobre posições para o trabalho de parto. E na saída o seu pai me deu um beijão – um beijão desses cinematográficos de tirar o fôlego e disse: o parto da nossa filha vai ser do jeito que você quiser. Mas de que jeito eu queria? Contei o causo para uma amiga da lista e ela disse: nossa, de tanta ocitocina esse parto vai ser ótimo. Guardei comigo essa sensação – um parto ótimo!

Sempre que me perguntavam eu falava que seria um parto humanizado no hospital, explicava um pouco como funcionava. Parecia um plano perfeito: a segurança do hospital com uma equipe que respeitava a fisiologia do parto. Mas eu ainda não tava feliz com isso. Alguma coisa parecia não encaixar. Um dia estávamos na consulta com a nossa obstetra, Dra Catia, e ela começou a falar: então, vocês que vão ter um parto domiciliar… E a gente erspondeu: não, Catia! Imagina, você tá confundindo, o nosso é no São Luiz. E ela foi lá e anotou na ficha. Essa conversa ainda se repetiu mais uma vez, comigo e com o seu pai saindo do consultório dando risada da confusão. Imagina se a gente ia ter um bebê em casa.

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Tenho que contar também filha, que sua gravidez foi impecável. Perfeita mesmo. Tirando os enjôos do início, que acabaram por volta da décima semana, simplesmente nada aconteceu além do crescimento da barriga, do seu crescimento. Nenhuma dor, desconforto, nenhum exame fora do padrão. Nem vitaminas pré natais eu precisei tomar. Desde o início eu fiz yoga com a Cris Balzano e de tanta conversa depois das aulas ela virou minha doula. A relação com a Cris nas aulas foi uma das coisas mais gostosas da gravidez. Além do bem estar físico da yoga, os relatos de parto no fim das aulas davam uma perspectiva boa a respeito do parto, uma sensação de que sim, era possível ter um bebê de uma forma gostosa, respeitosa. E assim as aulas de yoga além de virarem rotina viraram um prazer. Você adorava, filha! Adorava mexer no relaxamento, me mostrar que estava lá, que participava, e juntinhas nós fomos aprendendo uma com a outra.

Lá pelo fim da gravidez eu e seu pai resolvemos ir em mais uma reunião do Gama, que dessa vez sim falava sobre tipos de parto. Acabou que as informações mesmo, evidências científicas, dados, pesquisas, a gente já sabia. A reunião acabou e eu só fiquei pensando: será? é isso que eu quero, será que eu banco? fiquei pensando na nossa casa. Do tanto que deu trabalho conseguir a nossa casa. De como pensamos essa casa inteirinha pra te receber.

Da janela grande pra você ver o quintal. Do jasmineiro que sua bisavó plantou pra você no gramadinho. Das paredes quebradas pro sol entrar. Eu e seu pai entramos no carro em silêncio. Ele botou a chave na ignição e disse: se você quiser ter a nossa filha eu casa, eu topo. E na hora eu respondi: eu topo. Eu quero!

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Eu já queria um parto completamente natural – sem episiotomia, anestesia, ocitocina sintética. Ter seu parto, nosso parto, no hospital não me parecia uma rede de segurança, parecia um contrasenso: se eu não queria nada disso qual o sentido de ir pro hospital só por que teria esses procedimentos à disposição? Afinal o hospital era o ambiente preparado para que essas rotinas acontecessem… se eu não queria nada disso… Essa decisão deu a maior paz de espírito do mundo, mas agora a gente tinha que se preparar para sua chegada, e montar um parto domiciliar não é complicado, mas exige um pouco mais de organização do que fazer a mala da maternidade. Cheguei em casa do Gama e na hora liguei pra nossa doula, a Cris. Me deu uma vontade louca de ligar para ela e sabe como foi que ela recebeu a notícia? Dando uma risada maravilhosa. Se eu tinha alguma dúvida, ela foi embora na hora. Marcamos uma conversa para ela dar umas dicas pra gente. Nisso eu já mandei um email para Ana Cris Duarte, que é a parteira que eu conhecia por conta da lista materna pra saber mais sobre PD e se ela estaria disponível para data do parto. Estávamos no fim da gravidez, eu não queria perder tempo, mas o destino se encarregou de mudar os nossos planos.

Curiosamente a nossa doula “perseguiu” a gente a semana inteira antes da consulta – ganhei um dvd de shantala, fui olhar o verso, a professora era Cris. Ganhei um livro do Ric Jones e tava lá a Cris nos agradecimentos. Fui dar uma olhada no livro Parto com Amor numa livraria, abri numa página aleatória e quem tava lá? A Cris de novo. Cris, você tá querendo passar algum recado? rs

Na consulta a Cris contou pra gente que depois de anos acompanhando partos como doula estava oficialmente sua vida de parteira (A Cris é Enfermeira Obstétrica formada na USP, chique à beça. ) e que se a gente quisesse e se sentisse bem, ela podia ser a nossa parteira e que indicaria outra doula. Mas que se a gente quisesse, podia escolher outra profissional e indicou alguns nomes. Eu e Gabriel saímos da consulta já sabendo que ela ia ser nossa parteira, agora era só escolher uma nova doula e ver se a pediatra que atende partos domiciliares estaria disponível perto da nossa data provável do parto. As coisas se encaixaram tão maravilhosamente bem que no mesmo dia fechamos o trio parada dura que acompanharia a sua chegada: Natalia Rea nossa doula, Ana Paula, sua pediatra, e lógico, a Cris. Depois da agitação de remontar a equipe de parto e fazer os preparativos da sua chegada, relaxei e fiquei te esperando na maior paz de espírito. Seu pai ficava faldno: não deixa a Cris pegar outro parto antes da gente, temos que ser os primeiros! E eu explicava que seríamos os primeiros “oficiais” que ela já tinha amparado a saída muitos bebês. Mas seu pai ria e dizia: mas oficiais somos nós. Então tá! Bebês do mundo, segurem aí pra Liz chegar! Mas era uma brincadeira pois eu e seu pai jurávamos de pés juntos que você viria só depois da DPP. Mas os bebês tem seus próprios desígnios misteriosos, e com 39 semanas e 5 dias aconteceu isso aqui ó:

O Trabalho de Parto

Duas da manhã do dia 25/06: – Gabriel, tô com contrações. – Gata, você sempre tem contrações. – Mas essas doem. – Você acha que é alguma coisa? – Ah, elas são diferentes, mas acho que não deve ser nada. – Então dorme.

E eu dormi. Um sono leve, mas dormi, sonhei com uma índia pequena que falava: abaixada vai ser mais fácil pra você. depois sonhei com os ovinhos que a lagarta colocou no nosso limoeiro. E não tinha casulo, as borboletinhas saíam direto dos ovos. E acordei cedo, com as contrações ainda fracas e irregulares. Filha, eu tava achando que não era nada e deixei seu pai ir pro trabalho. Mas aí peguei um caderninho e comecei a anotar as contrações. Estavam muito espaçadas. As 10h da manhã mandei uma mensagem pro seu pai: relaxa, parou tudo… Sua tia Lia mandou uma mensagem perguntando se tava tudo bem que achava que você ia chegar. Credo, que intuição tem sua tia! Avisei das contrações E tirei um cochilinho no sofá. As 11:40 acordei com uma contração mais animadinha. Fui no banheiro fazer xixi e tinha uma espécie de muco marrom na calcinha. Liguei pra Cris e pra Natália. Era o famoso tampão mucoso que começava dar sinal de vida. Filha, era o colo do útero trabalhando pra se dilatar, abrir e trazer você pra gente! Fiquei meio bebinha de alegria e achei que ainda dava para fazer almoço. Fui descongelar um frango. Quem descongela um frango em trabalho de parto? Dou muita risada dessa parte até agora. Eu achando que ia conseguir cozinhar alguma coisa… Continuei anotando e as contrações se regularizaram, de 9 em 9 minutos. Daí eu liguei pra sua vó no Rio e ela ficou agoniada, que a passagem dela era só dia 29, e eu falando: calma mãe, esse bebê pode nascer só amanhã! Mas ela conseguiu uma passagem, só que descia lá em guarulhos onze da noite o vôo. Ela achava que não ia dar tempo, mas pelo andar das coisas eu achei que você só viria pela madrugada.

Pedi um delivery pra almoçar pois me dei conta que aquele frango ali não ia descongelar a tempo… rs e mandei uma mensagem pra sua tia Lia: estão de 9 em 9 minutos. E ela: Cadê o Gabriel? Olha, filha, eu não lembro direito, mas rapidinho o seu pai chegou. E sua tia Lia também. E eles ficaram cuidando muito de mim. A Lia anotava as contrações que a essa altura estavam de seis em seis minutos. No dia anterior eu tinha testado a piscininha inflável, enchi com uma bombinha, mas não tinha enchido inteira. Você acredita que seu pai terminou de encher no gogó? É muita emoção, Liz! hahahaha

Seu pai e sua tia queriam que eu comesse, mas eu não conseguia comer nada, só queria ficar quieta. As contrações ficaram mais fortes, e vinha uma fraquinha logo em seguida. E assim ficamos até o fim do trabalho de parto: uma forte e uma fraca. E eu ficava puta com a fraca: porra, já tive que aguentar uma e vem outra? Sacanagem… Fui pra debaixo do chuveiro quente com a bola, sua tia ficou lá me dando uma assessoria-parto, mas eu odiei a bola debaixo do chuveiro, preferia uma coisa mais estável. Mas quando eu tava relax, pimba! o chuveiro desarmou o disjuntor e ficamos com a casa às escuras. E a água fria, claro! Sua tia me socorreu com a toalha, seu pai correu pra rearmar, mas eu já tinha desencanado. Aí terminou a parte ATIVA do meu TP (depois de ler a Janet Blaskas, achei que ia ficar caminhando no quintal, lymda e loura entre as contrações. AHAM) – começou foi a me dar um frio desgraçado, uma tremedeira nas pernas e eu fui pra cama, de lado, curtir umas contraçõezinhas em um ambiente com dois aquecedores e um belo edredon.

Liz, a partir daí as coisas ficam meio nubladas – eu não sei em que ordem as coisas aconteceram, mas a Natalia chegou e sua tia Lia foi embora. Ela chorou por que não queria ir, mas sua prima Alice também é um bebê e precisava de um colinho. E olha, a Natalia chegou em boa hora pois as contrações começaram a reverberar nas costas. E a lombar apertava. E doía. Só que eu não conseguia que ninguém mexesse onde estava a dor, tinha que ser mais pra cima. Mas pergunta pra alguém se eu conseguia falar alguma coisa? O verbo, filha, tinha me abandonado. Eu e você tínhamos virado entrega e instinto. A parte racional do cérebro foi se apagando, uma vela de bolo de aniversário soprada. O seu aniversário.

A Natalia me avaliou – cinco centímetros. Cinco centímetros foi música para os meus ouvidos! Depois disso lembro que a Cris se materializou dentro do quarto. Não me perguntem como, só sei que hora ela não estava e no segundo seguinte ela estava lá. Nas contrações eu retesava bastante o corpo inteiro, lembro das mãos dela no meu ombro, abaixando o ombro e aquilo me deu uma iluminação corporal (gente, só posso dar esse nome, pois parece que foi o corpo que “pensou” e não eu) – a contração é na barriga, não precisa ser em todo lugar! E a partir dali eu comecei a administrar melhor os intervalos e as contrações.

Sua vó chegou e falou comigo. Só lembro da presença dela, mas não lembro o conteúdo de nada, só que a presença dela foi gostosa. Mas eu não conseguia ser muito tocada, era incomodo, e ela tadica, foi rezar na escada. Como o vôo dela chegava em guarulhos umas 23h, calculo hoje que isso tenha sido uma meia noite…

Por volta de uma da manhã a bolsa estourou. Taí uma das sensações mais intensas do TP. Fez um “ploc” e um gel e uma água começaram a sair de mim e eu avisei – estourou a bolsa! A Cris veio avaliar e o líquido tava claro e no doppler os batimentos da Liz estavam ótimos. Chegou a fase ativa do TP!

Uma pausa para o núcleo de humor desta novela

A partir do momento que a bolsa estourou eu PRECISAVA entrar na água. As contrações se intensificaram e dava pra ver os seus movimentos, Liz. Sério, dava pra ver você inteirinha se mexendo através da pele da barriga, uma loucura. Só que a gambiarra que eu e seu pai fizemos de encher a banheira com a mangueira do chuveiro do banheiro deu errado. O disjuntor desarmou e ficamos no escuro pela segunda vez na noite. Eu não lembro, mas já me contaram que ainda ficamos mais duas vezes sem luz até o Gabriel desistir e ele e minha mãe encherem aquele troço no braço, com água fervida na panela de casa. Eu falava: Cris, eu PRECISO entrar nessa água + impropérios. Depois o Gabriel contou que ela ia toda fofa avisar: gente, vamos agilizar que a Re tá querendo entrar na banheira… rs

Voltando à programação normal

Eu entrei na banheira. Nossa, que alívio. Passei ali toda a fase ativa. Sem essa banheira eu não sei o que ia fazer da minha vida, juro. A Natalia colocou um pano com água fria no meu rosto que foi A GLORIA em forma de paninho e um dos meus gatos, o Xoq, ficava por perto, todo macio ao alcance das minhas mãos. A minha vontade era apertá-lo a cada contração, mas eu me controlei e esmaguei a mão da pobre da Natalia. Tem uma foto do parto que eu tô esticando a mão pra pegar o gato… hahahaha

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A cada contração, minha pequena, eu sentia você mais parto de mim. Eu gritei. A cada contração eu tentava tirar aquela dor de dentro de mim através da garganta, um “A” bem gordo que saía lá da barriga, enchia o peito e vinha pra fora. Eu consegui administrar tão bem as contrações quando eu estava na piscina que não queria sair de lá de jeito nenhum. Acabou que eu relaxei tanto, que completei a dilatação total e não senti os “puxos” começarem. (Aliás, cada parto é um parto mesmo – todo mundo diz que não tem como não sentir os puxos, e eu não identifiquei de cara) A Cris e a Natalia falaram que de fora dava pra ver claramente que eu estava sentindo, que mudou meu comportamento e o som que eu fazia, mas óia, eu não lembro não.

De repente me chega uma figura toda encapotada, como se tivesse uma nevasca do lado de fora. Era a Ana Paula, a pediatra luz-raio-estrela-e-luar e eu soube que se ela tava ali é por que estava perto de você chegar. Engraçado que o quarto estava super quente por conta da banheira e dos aquecedores e ver sua pediatra chegando era como perceber que existia um mundo lá fora e outro mundo ali, só da gente, meu, seu e do seu pai.

Eu estava de quatro a banheira quando a Cris pediu para eu me virar para ouvir os batimentos da Liz – e eu respondi: Cris, não quero me mexer, que quando eu me mexo vem uma contração! E ela: Renata, se você não tiver contrações a Liz não vai sair! (óbvio, né, Renata? rs) E ela sugeriu que eu saísse da banheira e fosse pra banquetinha de cócoras.

Eu resisti sair da banheira pois eu queria ter você na água, mas o relaxamento tava tal que eu não conseguia fazer força. Sentei na banquetinha de cócoras, o Gabriel me apoiou por trás e a Cris me ensinou uma respiração para ajudar o expulsivo. A Cris falou que você logo logo ia estar nos meus braços, mas eu não acreditei. Ela confirmou, e minhas forças se renovaram na hora. Respirei fundo e empurrei. O louco é que a cada vez que eu “empurrava” você me trazia uma sensação diferente. E aí não existe mais dor. Dor é só na dilatação, você chegar era só surpresa. Em certo momento eu senti um movimento e você se desprendendo e foi a sensação mais gostosa do mundo! Falei – Delícia! E ouvi uma risada no quarto, não sei de quem foi. Daí quis muito ver você, muito mesmo. A Cris sugeriu que eu colocasse a mão pra sentir sua cabeça, eu senti o seu cabelinho, Fiz mais umas forças (não sei quantas) e senti você passar, e seu corpinho liso escorregando pra fora de mim. Cara, que loucura essa sensação! Você nasceu exatamente as 4:36 da manhã do dia 26/06. Minha fogueta, minha curumim, minha bravezinha.

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A Cris colocou você direto no meu colo e alguém me colocou na cama. Seu pai ficou estupefado, uma emoção intensa se apossou do quarto. Você chorou muito, gata. Muito. Mas no meu colo tudo ficou bem. Você estava cheirosa, macia, quente. Bebês saem cheirosos da barriga, pensei. Ninguém tinha me contado isso. Seu cordão parou de pulsar bem rápido e a Ana Paula clampeou por que nem eu e nem seu pai tivemos coragem. Demorei um pouco para expulsar a placenta, tive que tomar uma injeção de ocitocina e ficar de cócoras e nessa hora alguém te sequestrou para te vestir. Seu vô paterno veio aqui, mas eu nem vi, pois eu precisei levar uns pontos por conta de uma laceração. Contaram que você estava em OS, uma posição um pouquinho mais difícil pra sair, e provavelmente por isso rolou a laceração. Nisso eu já tive saudades de você e reclamei que você não estava lá e logo te trouxeram de volta. A Ana Paula te colocou no meu peito e você mamou, mamou, mamou e eu fiquei encantada, pois eu me preparei muito para não conseguir dar o peito por conta da cirurgia. Mas você não quis saber do medo da sua mãe e tomou posse do peitão.

A equipe foi indo embora devagar depois de arrumar as coisas. Eu e seu pai colocamos você na cama e dormimos pela primeira vez ao seu lado. Nós três estávamos exaustos, apagamos logo. Depois de algumas horas, abrimos a janela. Um céu claro lá fora, um dia frio e azul, típico de inverno. E pela primeira vez você viu a luz do sol, seu quintal, ouviu som das maritacas que vêm comer no seu pé de fruta do conde. E assim eu e seu pai deixamos de imaginar você para aprender você. Estamos aqui, filha. Pra tudo que você quiser ensinar.

Com amor,

R. (sua mãe)

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Site da Renata

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