Clara – Camila & Augusto

Por Camila, mãe
40 semanas e 6 dias de gestação

Esperando o meu sol chegar.

Passei por três intensas semanas de uma preparação para o momento mais transformador e desafiador da minha vida. No auge dos meus vinte e um anos tenho uma enorme propriedade para de fato concluir que o parto foi o momento mais tenso e intenso de toda e do resto da minha existência nessa passagem por esse mundo. Não é todo dia que nos vemos grávidas por “acidente” e encaramos frente a frente um lado nosso que desconhecíamos por completo. Quanto medo que dá! Quanto medo das responsabilidades, dos deveres e de todos os loucos sentimentos que começam a brotar em nosso coração no momento que sentimos um ser dentro de nós. O amor é incontestável, livre de limitações e condições! Ele é único, potente e puro. Durante três longas semanas senti leves contrações, que hora entravam em um ritmo, hora desistiam de continuar. Esse tempo só alimentou ferozmente a minha ansiedade e a minha total falta de controle diante dessa situação. Optei por um parto natural, onde respeitassem o meu corpo e os limites do mesmo. Onde respeitassem as minhas decisões e vontades diante do nascimento de dois seres: minha filha e eu, mãe. Porém, me vi ali, sem controle nenhum e desesperada por não estar ao volante. Pude, com isso, perceber o primeiro ensinamento, de milhares, que minha pequena estrela estava me trazendo: não controlamos tudo! Muitas vezes tudo foge das nossas expectativas, planos, para acontecer da forma que PRECISA acontecer, basta mergulhar na onda e deixar que ela nos leve para onde for necessário, para onde os ventos soprarem. Nesses momentos de ansiedade enxergava em mim uma fraqueza imensa misturada com uma força de leoa, pronta para lutar por si mesma, sozinha. Muitos pensamentos inundavam a minha mente, muitos desesperos gritavam depois de muito tempo calados! E agora? Não vou ficar grávida para sempre, a qualquer momento esse serzinho vai chegar e vou sentir o tapa na cara mais forte do mundo, eu pensava. E que tapa na cara!

Em uma quinta-feira, no dia doze de abril, comecei a sentir algumas contrações mais fortes, mais consideráveis. Nada de ritmo, nada que o meu racional instigasse a entrar em ação e me tirar do sério. Porém, um aperto estranho no peito começou a brotar. Instintivamente fotografei bastante a minha barriga com um ar de despedida pois, querendo ou não, a Clara não poderia ficar por muito mais tempo no conforto e no calor de meu ventre. Quanta pressão já sofremos ao nascer não? PRECISAMOS nascer! Nessa quinta-feira eu me lembro de chegar a noite e as contrações começarem a me avisar que tudo poderia acontecer mais rápido do que eu esperava. Ainda sem ritmo, por volta da meia noite, resolvi ir deitar com o meu companheiro, para assim relaxar e realmente desativar o meu lado racional que, eu insisto em dizer, me atormenta! Adormeci por um pouco mais de uma hora, mas para mim parecia ter passado um reles minuto! Escutei um famoso barulho, que li em muitos relatos e sempre fiquei imaginando muito como seria isso, o “PLOC” me aconteceu! Levantei as pressas e um liquido intenso começou a escorrer por entre as minhas pernas. Quanto riso! Ascendi a luz para ver a sua cor e estava transparente… a partir daí a memória me falta, o tempo me escapa e senti a nítida sensação de embarcar em uma linda viagem ao meu inconsciente. As contrações imediatamente começaram a vir de dois em dois minutos, em uma intensidade muito superior! De dois em dois minutos a dor bagunçava a minha mente, a minha visão e a minha fala. Pedi para o meu companheiro ligar para a linda Maira, que chegou rápido pelo o que eu me lembro. Ela me examinou e constatou que eu ainda (ainda?) estava com três centímetros e que era melhor continuarmos em casa para esperar um pouco mais de evolução. Fui para o chuveiro e a única coisa que eu conseguia fazer era, de dois em dois minutos, colocar todo o som que ecoava dentro de mim para fora. Compreendo isso como uma limpeza, bem profunda. A cada vez que ecoava uma vogal, que nascia do âmago do meu ser, vomitava as minhas duvidas, meus medos e controles. Permaneci ali por um tempo muito curto, acredito que uns quinze minutos ou um pouco mais. Sai e a Maira me disse que eu já estava com cinco centímetros! Nesse momento cai, rapidamente, em mim e pensei: preciso ir agora pro hospital porque ela vai nascer em pouco tempo! Decidimos então ir para o São Luiz, às duas e meia da manhã do dia 13 de abril, uma bonita madrugada de sexta-feira. Tenho guardado comigo o silêncio das ruas, o sereno que entrava pela janela do carro. No momento que sai de casa, que me senti um tanto desprotegida e um tanto arrependida de não ter escolhido parir no meu mundo, decidi rapidamente desligar o meu lado racional e me entregar para aquela dor voraz, que me tomava por inteira e me preparava para trazer minha filha ao mundo, louco mundo. Cheguei no São Luiz sem nem conseguir sentar para me examinarem, e acredito que cheguei na velocidade da luz. Vazando por todos os cantos, estava já com sete centímetros em um trabalho de parto que eu jamais imaginei ser tão rápido! A dor era imensa nesse momento e eu só me lembro daquela luz branca e fria do hospital, eu caminhando pelo corredor praticamente uivando e desejando a tão esperada banheira!  Entrei na banheira e as coisas melhoraram um pouco.

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A dor era intensa, eu era intensa e tudo ao meu redor permanecia na extrema calmaria. Luz baixa, poucas vozes. Estava ali eu e meu companheiro que realmente foi um verdadeiro companheiro. Com as suas mãos pesadas aliviou muito as dores de enlouquecer que eu sentia na lombar a cada contração, que ali já estavam de um em um minuto. Eu gritava muito, e acredito que devia até dar um pouco de medo de mim! Coloquei para fora tudo aquilo que eu não fazia ideia que existia dentro de mim, um alguém que era completamente desconhecido. Não sabia que carregava comigo essa força, esse instinto, essa potência! Também não fazia ideia que aquele cara que estava ali comigo, meu namorado a cinco anos que cresceu ao meu lado, junto comigo, tinha uma força e uma luz imensa! Sem ele eu acredito que as coisas teriam sido muito diferentes. Encontrei nele um conforto, um relaxamento nos momentos de descanso, uma cumplicidade infinita e também um medo gigantesco diante daquela mulher que nascia ali: uma desconhecida para os seus olhos.

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Dilatação total e a vontade de fazer forçar surgia. Sempre imaginei como seria essa vontade, sempre achei um tanto estranho pensar nisso! É tão natural que foge de qualquer ideia que eu fazia. A Maira me pediu para levantar um pouco, sair um pouco dali. Quando tentei fazer isso senti uma pressão muito grande no meu cóccix, e na hora sabia que eu estava entrando no expulsivo! Na verdade a Clara já estava coroando! A Dra. Andrea veio e eu comecei a fazer uma força sem ar, uma força que eu busquei no fundo de mim, uma força sem igual. Senti cada parte do corpinho da Clara passar por mim, cada milímetro e cada esforço dela de vir ao mundo dessa forma digna e tão linda! Saiu aos poucos, dentro da água para apagar um pouquinho todo esse fogo que carrega consigo, ariana brava! Veio diretamente para os meus braços, com um cheirinho de céu e uma calmaria sem igual. Olhava a mim e ao seu pai, que chorava naquele momento tão único e tão especial. Se encostou em meu peito e parecia descansar depois de tanto esforço. Um esforço natural, mas com certeza o primeiro desafio de sua vida: NASCER! Nascia também ali uma nova Camila. Uma nova mãe, cheia de dúvidas e inseguranças mas muito certa que nada mais seria como antes. Uma mulher que precisava deixar de ser menina. Clara veio rápido, como um furacão em um trabalho de parto de quatro horas, quatro lindas e intensas horas. Ali surgia uma nova família, três novos seres. Ali surgia as minhas sombras, e ela chegou para ser o meu sol, me iluminar e me guiar por entre esse caminho às vezes torto mas com muitos ganhos!

Obrigada a Maira, Dra Andrea e ao Cacá que proporcionaram para mim e para a minha filha uma vinda ao mundo digna e respeitosa, permeada de amor e tranquilidade! Obrigada ao meu companheiro, Augusto, que me marcou com a sua fiel presença e amor incondicional!

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