Helena – Vivi & Tomaz

Pela mãe
40 semanas e 5 dias de gestação

vivipepice04

Obs: Logo depois de sair da maternidade, esbocei um breve relato do parto da Helena. Breve demais, hoje percebo. Um relato de meia página para uma experiência tão marcante, e sendo eu prolixa e detalhista como sou, era de se estranhar. Hoje percebo que havia muito mais a ser dito, mas algumas verdades precisam ser elaboradas aos poucos, com o tempo. Por essa razão, depois de mais de um ano, comecei a revisitar e reescrever o meu relato deste parto, em suaves prestações.

Quando engravidei da Helena, sabia muito pouco sobre parto humanizado. Tinha absoluta certeza que queria um parto normal, total repúdio pelo “Big Brother” do nascimento (cesáreas feitas na frente de uma janelinha na Pró-Matre já me embrulhavam o estômago naquela época), e me encontrava cercada por amigas e familiares que sempre acabavam na cesárea. Mesmo aquelas que pretendiam um parto normal durante toda a gestação, assistidas por médicos diferentes, no final, só dava cesárea. E os motivos eram sempre parecidos: “não tive dilatação”, “o cordão estava enrolado no pescoço”, “sofrimento fetal”, “bebê muito grande”, “bebê muito pequeno”, “pouco líquido amniótico”, “muito líquido amniótico”, “cheguei em 40 semanas e nada do bebê querer nascer”, “bebê não encaixou”, e por aí vai… E eu pensava, como é possível? Será que as mulheres desaprenderam como parir? Será que a natureza, tão sábia, iria falhar bem nessa hora da saída? Inicialmente, comecei a desconfiar que o problema eram os médicos.

Alguns meses antes de descobrirmos a gravidez da Helena, uma cunhada estava na reta final de sua gestação. E ela estava com 39 anos, diabetes gestacional, e streptococcus positivo. Eu juro que pensei: será cesárea, só pode ser. Se as amigas com 27 anos e gravidez sem nenhuma intercorrência estão acabando na cesárea, esta cunhada, com quase quarenta anos, e com esses “probleminhas” na gestação tinha tudo para acabar na cesárea também. E eis que, para a minha agradável surpresa, meu sobrinho nasceu de parto normal lá no Labor do São Luiz, com quase 41 semanas, esbanjando saúde. Hoje sei que foi um parto normal cheio de intervenções: anestesia, ocitocina sintética, epsiotomia e fórceps. Mas na ocasião, não tinha a dimensão da desnecessidade de tais intervenções, ou que pudesse ser diferente. Era um parto normal, e pronto. Quando soube que estava grávida, morando em Santos, na hora pensei: tenho que conhecer o médico da minha cunhada. Acho que ele é o único médico que ainda faz parto normal em São Paulo.

Aí, fomos conhecer o Dr. Marco Antônio L., um médico antropozófico, pessoa querida e gostosa, que cuidou muito bem de nós durante toda a gestação. E a empatia rolou de cara. E então seguimos com ele. Esse médico tinha uma pegada bastante paternal e acolhedora e, no decorrer do pré-natal, por mais de uma vez, costumava dizer que tinha sido o irmão mais velho de uma família italiana e, portanto, trazer um bebê ao mundo era algo muito sério para ele, não admitindo correr nenhum risco no decorrer desse processo. Essa é uma promessa tentadora para um jovem casal grávido de sua primeira filha, tão querida e esperada. Mas, infelizmente, é uma promessa falsa. Depois de algumas rasteiras, a vida me ensinou que riscos corremos sempre, por mais prudentes e cautelosas que sejam as nossas escolhas. E viver talvez seja a arte de administrar os riscos, o medo e a esperança.

Fomos tocando a gravidez, tudo correndo bem, sem sustos ou percalços, e eu tranquila, preocupando-me apenas com roupinhas, enxoval, com a cor da parede do quarto. Quando completei seis meses de gestação, mais ou menos no início de agosto de 2011, percebi que algo estava faltando. Não sentia que estivesse me preparando para o parto, sabia pouquíssimo sobre seus aspectos fisiológicos. Queria falar mais sobre as questões práticas do processo, aprender exercícios, posições, respirações que pudessem me ajudar a parir naturalmente. Queria ler mais sobre o assunto, queria mais. E cheguei com essas inquietações na consulta. E o médico nos falou sobre uma terapeuta que coordenava grupos de gestantes, com encontros semanais, e que talvez fosse aquilo que eu procurava.

Liguei para ela no mesmo dia. Ela se chamava Dulce Amabis. E falou acerca de um grupo de grávidas que tinha começado a se reunir há três semanas, e que os períodos gestacionais dessas mulheres eram bem próximos ao meu. Assim, sugeriu que eu chegasse uma hora mais cedo no encontro seguinte, para que ela me situasse sobre os assuntos que já tinham sido explorados com as outras gestantes, e que seguisse com esse grupo a partir desse ponto. Os encontros eram semanais, em São Paulo, às 11h. Seria um perrengue. Mas eu queria tanto buscar respostas para as minhas inquietações que topei. E toda quinta-feira, fizesse chuva ou sol, lá estava eu, subindo e descendo a serra, para participar das reuniões. O grupo era bastante heterogêneo. Éramos em seis mulheres, na faixa dos trinta anos, com estilos diferentes, temperamentos, personalidades, profissões bem dissonantes. No decorrer das reuniões, falávamos sobre parto, dor, analgesia, episiotomia, amamentação, baby blues, libido, sexo, medos, extero-gestação. E líamos textos, bibliografia especializada, discutíamos filmes, documentários. Muita informação, absorvida por mim com avidez.

vivipepice02

Lembro-me que, cerca de um mês e meio depois, quando voltei para a próxima consulta do pré-natal, com sete meses e meio de gestação, sentia-me como se tivesse atravessado o Canal da Mancha do parto. Tinha adentrado num universo de conhecimento, informações, questões. Cheguei a anotar todas as minhas dúvidas sobre o parto, bastante específicas, com receio de esquecer alguma. Lembro-me que perguntei ao médico se ele já tinha lido “Quando o corpo consente”, de Therese Bertherat, uma das melhores coisas que tinha lido até ali, e o que ele achava dos exercícios sugeridos para o trabalho de parto. Ele foi categórico ao responder algo do gênero “não li (apesar de tê-lo no consultório) e não gostei”. Segundo ele, o livro era radical e xiita, ao combater com veemência a analgesia e a episiotomia. Que as francesas estavam em outro ponto histórico em comparação com as brasileiras. Que aqui combatíamos a cesárea eletiva e lá elas já tinham essa luta como superada, e precisavam arrumar outras lutas para se ocupar. Perguntei o que ele achava de parto na água. Disse que era contra, que não fazia, que existiam pesquisas que evidenciavam que nascer na água poderia ser prejudicial ao sistema respiratório do bebê. Perguntei sobre as posições verticalizadas para parir, como a de cócoras, onde a gravidade poderia auxiliar a fisiologia do nascimento. Ele respondeu que não gostava dessas posições, que nelas a chegada ao mundo era muito abrupta ao bebê, muito violenta. Perguntei sobre analgesia, e ele disse que só se utilizava desse recurso em dois casos: se fosse um pedido da mulher ou se houvesse uma real indicação médica, para evitar uma cesárea indesejada. Perguntei ainda sobre episiotomia, e ele disse que, quando julgava necessário, fazia uma perineotomia, somente para evitar uma laceração maior. Perguntei, por fim, se deveria procurar uma doula. E ele respondeu que não achava necessário, que as doulas mais atrapalhavam do que ajudavam, que muitas tentavam interferir no trabalho do médico, e que ele já tinha em sua equipe uma Enfermeira Obstétrica (EO) que cumpria esse papel, e que me manteria bastante ocupada durante o meu trabalho de parto. Neste momento, ele olhou para mim profundamente e disse: “Vivi, a melhor forma de você se preparar para o parto é entregar-se. Entregue, Vivi. Não racionalize demais, não fique pensando muito sobre o parto, pois isso atrapalha. Entregue”. E isso marcou o fim daquela conversa. Sai da consulta com um pequeno alarme soando, baixinho, ao pé do ouvido. Naquela conversa, tive indícios de que talvez não estivéssemos falando a mesma língua. Mesmo assim, ignorei o instinto, e toquei o barco. Confiávamos no médico, tudo parecia bem, e ele se dizia disposto a respeitar o meu desejo de um parto o mais natural possível. “Se você não quiser anestesia, fazemos sem anestesia, não há problema”.

As últimas semanas voaram e, quando me dei conta, já estava com 37 semanas, gestação a termo, finalizando as últimas pendências no trabalho, pronta para as tão sonhadas férias. As férias para esperar pela chegada da Helena. Viemos para São Paulo e nos hospedamos num apartamento desocupado da mãe do Tomaz, perto de Higienópolis. E foi muito bom chegar, relaxar, não pensar mais em trabalho, processos, pepinos, e curtir a sensação do “a qualquer momento”. Havia certa ansiedade nesta ideia de poder acontecer “a qualquer momento”. Lembro que ficava sofrendo por antecipação ao pensar “mas e se eu estiver sozinha e entrar em trabalho de parto?”, “mas e se eu estiver na casa dos meus pais? Eles vão se desesperar em me ver com dor. Se isso acontecer, tenho que dar um jeito de sair de lá antes que eles percebam que eu estou em trabalho de parto”. Lembro que fiquei angustiadíssima com a notícia de que uma amiga muito querida de Brasília viria passar uns dias em São Paulo e queria ficar hospedada conosco, neste apartamento, bem naqueles dias. E eu pensava: “como vou fazer sala, programas, passeios turísticos. Eu estou prestes a parir!!! Será que as pessoas não se dão conta?”. E os dias foram seguindo, a barriga crescendo a galope nesse finalzinho, e a ansiedade começando a dar as caras.

vivipepice03

Neste momento, um fato trágico aconteceu. O falecimento do meu único irmão, de trinta e dois anos, duas semanas antes do nascimento da Helena. É com muito pesar que me lembro daquele 31 de outubro de 2011, do desamparo, da dor, da fragilidade que senti com a notícia. Fui arrancada do estado de maternidade primária em que me encontrava, e lançada num turbilhão de sentimentos confusos e doídos. As duas pontas da vida se unindo, num mesmo contexto, morte e nascimento, começo e fim. O olhar perdido dos meus pais, sentir vontade de ampara-los, maternalmente, no exato momento em que me preparava para morrer a filha e nascer a mãe. Foram dias difíceis, de vigília, sofrimento e muitas lágrimas. Mas uma das lembranças que tenho é que Helena chutava muito, se mexia o tempo todo na barriga. Quase me dizendo: “está tudo bem aqui, viu? Não se preocupa. Cuida das coisas por aí e, quando tudo estiver pronto, eu vou chegar”. Acho que foi um dos nossos momentos de maior conexão durante toda a gravidez. Eu e ela. Mãe e filha, cuidando uma da outra, no nosso tempo. Aqui, acho importante fazer uma observação importante. Nosso médico foi maravilhoso, de um acolhimento sem precedentes. Antes de me dar a notícia, Tomaz ligou para ele, assustado, sem saber o que fazer. E ele o tranquilizou, dizendo que a Helena já estava prontinha, que o máximo que poderia acontecer seria um antecipação do trabalho de parto, o que não seria um problema, pois já tínhamos chegado ao termo daquela gestação. Disse: “Tom, a Helena está ótima, nós temos que cuidar agora da Vivi”. No dia seguinte, demos uma breve saída no meio do velório para uma consulta rápida, para ele me examinar, examinar a Helena, ver como estávamos. Lembro até hoje de quando a porta da sua sala se abriu e ele me recebeu com os braços abertos, num abraço apertado, afetivo, que valeu por muitas palavras. Depois de um breve exame, em que constatamos que eu estava bem de saúde e Helena também, ele sentou conosco e nos ouviu falar, e acolheu toda aquela dor. E serei sempre agradecida por sua sensibilidade e delicadeza num momento tão triste e difícil.

E os dias seguiram. E, aos poucos, fomos recolhendo os caquinhos. Lembro-me que tinha pouquíssima vontade de conversar com as pessoas. Almejava por recolhimento. Desliguei celular. Não respondia ou via emails, quase não entrava no facebook. Ficava muito com meus pais e com o Tomaz. Comungava muito com eles. Lembro de ter arrastado minha mãe ao cinema e vimos juntas “A pele que habito”, do Almodovar. E a tal data provável do parto chegou, o esperado dia 10 de novembro, sem nenhum sinal da natureza. Não tinha contrações de ensaio perceptíveis, não tinha nada de dilatação, não tinha perdido o tampão (que aliás, para mim, só foi sair com o TP já bem avançado), enfim, só tinha aquele barrigão gigantesco e reluzente, de quase 41 semanas, que causava espanto nas pessoas, que perguntavam se eram gêmeos, se iria nascer naquele dia, entre outras pérolas do gênero. Isso sem falar nas incríveis histórias da Candinha, lendas urbanas bizarras e inoportunas de supostos bebês que “passaram da hora”. Além, é claro, dos emails, torpedos e ligações telefônicas do gênero: “e aí? Já nasceu? Esse bebê vai nascer ou não vai?”.

Como eu não tinha percebido nenhuma contração durante toda a gestação, eu costumava perguntar para o médico se eu não seria daquelas mulheres parideiras que, ops, pariam no ponto de ônibus, sem perceber que já tinha começado o trabalho de parto. Ele ria e me dizia que, com certeza, quando a coisa começasse, eu perceberia e que, numa primeira gestação, eu dificilmente pariria “sem querer” no ponto de ônibus. E ele tinha razão. Lembro claramente da primeira contração que tive, ainda na fase latente do trabalho de parto da Helena. Estava dormindo e, às duas da manhã, pimba, uma contração inconfundível. Sem dor ainda, mas barriga toda dura, e a tal sensação da onda que vem e que vai, que começa no pé da barriga e acaba nas costas. Daí, acordei eufórica, achando que Helena iria nascer na próxima hora. Era 14 de novembro e eu estava com 40 semanas e 4 dias. Fui correndo para a sala, ansiosa, e já comecei a rebolar na bola de pilates, ensaiando posições, e com a cadernetinha em mãos para anotar a próxima. Tomaz acordou logo em seguida, e ficou acordado, ao meu lado, com a cadernetinha em punho. E isso foi um erro de principiante, que certamente não repetirei mais. Fiquei horas e horas em casa antes de chegar nos tão esperados “quatro em quatro minutos por mais de uma hora”, que era o sinal combinado com o médico para ir para o hospital. Num próximo parto, quando começarem as contrações, tentarei ficar deitada, descansando, enquanto não doer e for possível encontrar posição. Depois que as contrações começarem a ficar mais próximas, vou caminhar, vou andando até a padaria, vou me mexer ao máximo. Ou seja, meu lema, para a próxima, é: descansar ao máximo, enquanto for possível, e mexer-se ao máximo, quando já não for possível descansar.

As lembranças que tenho do decorrer dessas horas, em que ficamos a sós, Tomaz e eu, naquele apartamento, são meio difusas. Mas houve alguns fatos pitorescos. O primeiro deles foi quando amanheceu e, de repente, nos lembramos que Francisca, a diarista, que estava nos ajudando, duas vezes por semana, no decorrer daquele mês, poderia chegar a qualquer momento. Só de imaginar barulho de aspirador de pó, rádio ligado, cheiro de comida no fogão, e Francisca zanzando pela casa, entrei em desespero. E falei para o Tomaz: liga para ela, cancela, diz que não precisa vir. Mas claro que os celulares não funcionam quando precisamos deles e não conseguimos falar com a Francisca. E a peculiaridade em despachá-la era não ser muito claro sobre os motivos, pois Francisca era uma “informante” para a mãe do Tomaz, que mora em Itatiba. Para não parecer invasiva, minha sogra ligava para a Francisca, sua ex-funcionária, como quem não quer nada, para saber como andavam as coisas, se eu estava com contrações, e coisas do gênero. Sei que sobrou para mim a tarefa de despachar a Francisca. Não lembro bem o que falei para ela, mas a missão foi bem sucedida. Francisca deu meia volta, sem que a sogra aparecesse no pé da porta nas próximas horas. Outra providência que tomamos foi cancelar nossa ida para um almoço na casa da minha avó. Lembro que liguei, sem muita criatividade, e dei a primeira desculpa que me ocorreu: que tinha acordado com dor de barriga, intestino meio solto, e que ficaríamos em casa, com uma dieta mais frugal. Meus pais acreditaram tanto na desculpa que, alguns dias depois do parto, presenciei minha mãe comentando com alguém: “a Vivi nem percebeu que estava em trabalho de parto, achou que era dor de barriga, que tinha comido algo que não caiu bem”. Só aí me dei conta que não tinha desfeito aquela conversinha furada da véspera. E o último fato pitoresco, e bem oportuno, foi a visita inesperada do irmão do Tô e da cunhada (a que tinha tido parto normal), para copiar os arquivos de umas fotos que tinha batido do aniversário de um ano do meu sobrinho. Eles ligaram, dizendo que estavam bem próximos, se podiam dar uma subidinha. Nessa hora, eu estava no chuveiro, com a água nas costas, e era impossível disfarçar a chegada de uma contração. E elas vinham de dez em dez minutos. Então, eles sacaram que eu estava em trabalho de parto. E ela comentou que, já em trabalho de parto, ligou para o médico, que a orientou a tocar o barco, “vida normal”, e que ela saiu para buscar o almoço com o marido, dentre outras coisas. Foi ótimo ter ouvido isso naquele momento. Deviam ser umas 16h, e eu me dei conta que já não aguentava mais ficar presa naquele apartamento, que sair para andar seria ótimo.

A sensação que tenho é que o trabalho de parto só engrenou mesmo quando eu fiquei entediada de ficar em casa naquele “vai-não vai”, e resolvemos ir andando até o Shopping Pátio Higienópolis para comer. Foi muito engraçado. A distância era curta, mas eu andava cinco minutos e parava por conta de uma contração. Andava mais sete minutos, e parava de novo. E quando andava, ia devagar, por conta do barrigão. Já no shopping, lembro que na hora de fazer o pedido no restaurante Wrap, tive que parar no meio da fala e levantar da mesa, dando uma reboladinha, no meio de uma contração, aos olhos incrédulos do garçom. Ou seja, a louca quase parindo no Pátio Higienópolis, rsrs… Mas foi aí que as coisas engrenaram mesmo e o tempo entre as contrações foi diminuindo. Quando voltamos para casa, depois da nossa epopeia no shopping, as contrações já vinham de quatro em quatro minutos. E aí ligamos para o médico pela primeira vez, por volta das 19h. Ele sugeriu que aguardássemos por mais uma hora, uma hora e meia, monitorando as contrações. Se elas continuassem ritmadas, de quatro em quatro minutos, deveríamos tomar um banho, arrumar as coisas, e ir para o São Luiz. E foi o que fizemos, com bastante calma. Eu estava incrivelmente serena, como não imaginei que fosse estar nesse momento.

Chegamos no São Luiz às 21:45h do dia 14/11/11 e, no primeiro exame, na admissão, foi constatado que eu já estava com 4 centímetros de dilatação e em trabalho de parto ativo. Fiquei tão feliz com a notícia que as contrações ficaram até mais suportáveis. Nosso médico foi avisado, e acionou os outros profissionais da equipe. Fomos para o Labor Delivery Room (LDR), a sala de parto natural do hospital e, logo em seguida, chegou a Tânia, enfermeira obstétrica da equipe do médico. Essa enfermeira passou a trabalhar conosco ativamente, com exercícios na banheira, na bola, no chuveiro. Este foi um momento muito marcante do trabalho de parto, pois acredito que comecei a ir para a partolândia. A Tânia ligou uma música no rádio e ficamos dançando, Tomaz e eu, eu na banheira, com uma ducha forte nas costas, ele fora, me acompanhando, e fui me desligando da dor física e indo para outro lugar. A estação de rádio vinha tocando uma seleção de músicas meio anos oitenta, e uma delas me marcou demais, com o refrão dizendo “Porque eu só faço com você, só quero com você, só gosto com você, adivinha o quê…”. Acho que nunca vou esquecer desse momento meio “non sense”, comigo nua, numa fumaça de vapor, rebolando numa banheira cheia de luzes, ora verde, ora vermelha, ora azul, indo para longe, muito longe, para outra dimensão, com uma música anos 80 ao fundo. Infelizmente, o termostato da banheira estava quebrado, e era quase impossível mantê-la numa temperatura agradável. Ora ficava quente demais, ora gelada, e nessa oscilação de temperatura, comecei a me sentir meio tonta, talvez com uma leve queda de pressão, e a enfermeira obstétrica sugeriu que eu saísse da banheira. Uma pena, pois a banheira foi, de longe, o lugar mais agradável de se estar naquela intensidade do trabalho de parto. Naquele momento compreendi a razão pela qual tantos partos naturais acontecem na água.

Sobre a postura da equipe, em pouco tempo de hospital, já fui percebendo o quanto eles estavam pouco afinados com o meu propósito de um parto natural. Não jogávamos no mesmo time, não falávamos a mesma língua. Tânia, a EO, em menos de uma hora de hospital, já decidiu fazer um novo toque vaginal, e ficou visivelmente desapontada por eu estar com cerca de cinco centímetros de dilatação. Lembro que ela já falou em soro com ocitocina nesse momento, alegando que, uma evolução “normal” de TP seria de, no mínimo, um centímetro por hora. E, a cada meia hora, perguntava se eu não iria querer anestesia. Mesmo depois de saber que eu não pretendia tomar anestesia e nem soro com ocitocina, e que eu desejava um parto natural, sem nenhuma intervenção, se possível, continuou insistindo no assunto. Dizia que, caso eu mudasse de ideia, que avisasse antes sobre a vontade de tomar anestesia, que não esperasse a dor ficar insuportável, pois o anestesista morava em Santana, e demoraria cerca de uma hora para chegar. Mássimo, o médico assistente, também parecia bastante favorável às intervenções, apesar de sua opção por aguardar a chegada do Marco, para que esse desse a palavra final sobre a conduta a ser tomada. Um pouco antes de entrar no labor, o médico assistente encontrou o Tomaz no vestiário. Como não sabíamos se haveria ou não a internação, acabamos esquecendo no carro uma bolsa com nossa máquina fotográfica, e várias comidinhas que tinha separado para o TP (mel, nozes, castanhas, damascos). Tomaz então saiu do labor para resgatar a tal bolsa, o que foi uma epopeia: tirar a roupa paramentada, ir até o armário, pegar o ticket do estacionamento, ir até o estacionamento, voltar para o vestiário, colocar novamente a roupa paramentada. A curiosa burocracia hospitalar, com suas rotinas que se assemelham as de um estabelecimento prisional. No vestiário, numa dessas idas e vindas, acabou topando com o médico assistente da equipe, e ambos perceberam que iam para o mesmo parto, o parto da Helena. Então, Mássimo perguntou se o anestesista já tinha sido chamado. E Tomaz respondeu que eu não queria tomar anestesia, que eu desejava um parto natural. Surpreso, esse médico questionou se tratava-se de alguma provação, se eu pretendia me submeter a uma dor extrema. Complementou dizendo o quanto a anestesia tornava a experiência de parto mais prazerosa para a mulher. E que as mulheres modernas não haviam sido criadas para serem corajosas e, sim, inteligentes, e que a dor de um parto sem anestesia poderia acionar os hormônios de luta, o que dificultaria e muito os aspectos fisiológicos do processo.

O trabalho de parto foi prosseguindo, lentamente, até atingirmos cerca de sete centímetros de dilatação, por volta das duas da manhã do dia 15. Eu estava há cerca de quatro horas na sala de parto, tendo recebido um toque vaginal a cada hora para verificar a dilatação. Me sentia bastante cansada, mas a dor das contrações não era insuportável. Conseguia administrá-las bem, até aquele momento. Foi quando o médico assistente pediu que eu ficasse deitada na maca, presa no cardiotoco, para fazermos um trabalho de respiração, oxigenando a Helena o máximo possível durante as contrações. Os batimentos cardíacos da Helena estavam ótimos, não havia nenhum sinal de oscilação ou de sofrimento fetal. E, no entanto, fiquei presa no cardiotoco por cerca de uma hora e meia, deitada, na posição mais desconfortável possível para enfrentar uma contração. A partir daí, a dor ia aumentando, não pela intensidade das contrações, mas pelas condições em que me encontrava, e comecei a ficar contraída a cada nova contração, o que aumentava ainda mais a dor, como se quisesse resistir às contrações, ao invés de me entregar a elas. Nesta uma hora e meia, a dilatação não aumentou e as contrações começaram a espaçar, apesar de estarem bastante dolorosas.

E foi somente nesta hora que o Marco, nosso médico, chegou no São Luiz. Os outros profissionais da equipe falavam em ocitocina, em involução do trabalho de parto, em espaçamento das contrações. E ele, sabendo que eu preferia um parto sem anestesia, concordou em aguardar mais trinta minutos, fora do cardiotoco, com a retomada dos exercícios na bola, na expectativa do progresso da dilatação. Trinta minutos. Trinta minutos somente. E com aquela tensão no ar, a ansiedade da equipe, e, da minha parte, a sensação de que algo estava errado, de que o meu corpo não estava “funcionando” como deveria. Assim, passados os tais trinta minutos, recebi um novo toque vaginal, e o médico constatou que a dilatação continuava estacionada em sete centímetros. E as contrações estavam vindo a cada três minutos, um minuto, três minutos, um minuto. Sugeriu então fazermos uma analgesia leve, seguida de soro com ocitocina, para ritmar novamente as contrações. Segundo ele, se partíssemos só para a ocitocina, a dor pioraria muito, e eu não aguentaria, pois já estava muito cansada, acordada há muitas horas. Assim, ele sugeriu a anestesia antes da ocitocina para evitarmos uma “cesárea de emergência”. Eu concordei. Cesárea era o que mais temia naquele momento. Qualquer alternativa a uma cesárea seria válida. Ainda mais uma “cesárea de emergência”, que envolve a ideia de risco, perigo. Chamaram o anestesista, que chegou em vinte minutos, e foi feita a analgesia, seguida do soro com ocitocina.

A partir daí, as coisas engrenaram, reconheço. As contrações foram ficando fortes e prolongadas, se repetindo a cada minuto. E eu já não sentia dor. Mas também não sentia mais as contrações. Apenas via a barriga contrair e relaxar, sem sentir nada. E isso foi me dando uma espécie de “alheamento”. Como se eu tivesse sido alijada, excluída do meu próprio parto. Não me sentia mais agente dos acontecimentos, não me sentia mais parindo. Era como se os médicos estivessem parindo por mim. Divido o meu parto em dois grandes momentos: antes e depois da anestesia. Antes, eu estava completamente conectada com meu corpo e com o trabalho de parto, consentindo com todo aquele processo. E a anestesia criou uma lacuna nisto tudo, pois ela levou embora, além da dor, boa parte da minha percepção corporal do processo. Outro aspecto que me desagradou bastante foi a “insensibilidade” de alguns membros da equipe médica após a aplicação da anestesia. Enquanto havia na sala uma pessoa com dor, todos mantiveram uma postura respeitosa, silenciosa. Porém, depois da anestesia, a equipe “relaxou”, e começou a conversar, entre si, sobre assuntos diversos e aleatórios, sobre a qualidade das luvas de borracha do São Luiz, entre outras coisas. E isso me incomodou demais, fez com que eu me sentisse extremamente desrespeitada. Tive vontade de dizer: “olha, pode não parecer, mas tem alguém parindo aqui, viu?” Mas eu fiquei calada. No espaço de uma hora entre a anestesia/ocitocina e o nascimento da Helena, lembro de ter ficado deitada na maca, de lado, aérea, um pouco sonolenta. Tomei picolé de côco, mais de um, eu acho, que as funcionárias do São Luiz levaram até a sala de parto. Lembro que a equipe saiu da sala, e ficamos eu e o Tomaz, a sós, no silêncio, com as luzes apagadas. Esse foi um outro momento marcante, em que fomos tomados por uma sensação de grande paz e tranquilidade. Foi muito bom ficarmos a sós, sem barulho, sem pessoas estranhas, sem aquele entra e sai. Não cheguei a dormir, mas talvez tenha dado uns cochilos. Lembro também, nesse meio tempo, do médico estourar minha bolsa com uma espécie de “agulha de tricô”, azul, de plástico, sob o pretexto de que aceleraria as coisas. E entre mais alguns “apagamentos”, lembro da equipe ir voltando ao quarto, lentamente, e após um novo toque vaginal, começou um movimento, uma agitação, em razão do início do expulsivo. Tinha chegado a hora, eu estava com a dilatação completa. De alguma maneira bem íntima, eu sabia que tinha chegado a hora de conhecer a Helena, de reconhecê-la aqui fora, depois de tantas coisas fortes vividas aqui dentro. Eles falavam, entre si, sobre aspectos técnicos, que não vou me lembrar, como “colo apagado, sem rebordo”, e o médico assistente repetiu para mim umas duas ou três vezes a frase “você ganhou seu parto”, “você ganhou seu parto”.

vivpepice05

E foi neste momento que sinto ter me reapropriado do meu parto, já na fase expulsiva quando, com as minhas mãos, senti a cabecinha da Helena coroando. Isso rolou cerca de uma hora depois da anestesia: alcançamos os três centímetros finais, Helena bem baixa, descendo cada vez mais, e nosso médico começou a vestir aquela roupa azul e pediu para que eu sentisse Helena coroando, para que compreendesse para onde deveria direcionar a força. Foi tão emocionante sentí-la, tão cabeludinha, e pensar que minha filha estava vindo ao mundo, saindo daqui de dentro. Acho que nunca vou esquecer essa sensação táctil de uma superfície tão macia. Foi uma das emoções mais belas que já senti, a vida saindo daqui de dentro. É um marco poderoso, um divisor de águas, um recomeço. É forte, é indescritível. Acho que nunca voltarei a ser quem era depois disso. E comecei a fazer força, muita força. Estava deitada na cama, semi-sentada, e lembro de apoiar as duas mãos nas barras laterais da cama, e fazer uma força enorme, longa, de olhos fechados. Lembro de ouvir o pediatra, Sérgio Spalter, comentar: “nossa, que força linda que ela faz”. E abri os olhos, ao fim de uma segunda contração, e vi o Tomaz, emocionado, com aquela carinha de menino na apresentação da escola, que não quer fazer nada de errado, ao lado do nosso médico, com as mãos erguidas, para receber a nossa pequena. Lembro-me de ter pensado como eu o amava. E como amava a nossa filha, que chegava ao mundo. Foram três forças e ela nasceu, devagar. Foi recebida pelas mãos do seu pai, calma e tranquila, sem chorar, olhando a tudo e a todos com aqueles olhinhos de recém-nascido, que ainda mal conseguem focar, às 6:20 da chuvosa manhã de 15 de novembro de 2011. Não vi o relógio, mas ouvi alguém dizer a hora. E ela era linda e tão perfeita. Era a coisa mais linda que eu já tinha visto. Somente chorou quando Sérgio, o pediatra da equipe, a limpou e aspirou sua boquinha. E imediatamente foi colocada sobre o meu peito, ainda sujinha, quente, olhando para mim. Lembro da temperatura do seu corpo no meu. E do cheiro, um cheirinho bom, de bebê. Falei para o Tô, emocionada, que eles já nasciam com cheirinho de bebê. Nem consigo descrever o que senti neste momento, olhando para aquela bebezinha tão linda e tão perfeita, mas fiquei muito, muito comovida. Eu não sabia que recém-nascidos demoravam um pouco para focar a visão, e enquanto aqueles dois olhinhos de jabuticabas dançavam, por um segundo, pensei: “será que ela vai ser vesguinha?” (confissão de menasmãe, rsrs…). Mas essa preocupação desapareceu instantaneamente. Assim que o cordão parou de pulsar, nosso médico pediu que o Tomaz o cortasse e logo em seguida, o pai deu o primeiro banho na Helena, toda enroladinha numas fraldinhas de gaze, ali na sala de parto. O pediatra terminou de examiná-la, numa mesa no canto da sala. Não consegui ver muito bem o que estava sendo feito, mas soube pelo Tomaz que, neste momento, Helena também ganhou todas as intervenções protocolares do pacote. Além da aspiração nasal, recebeu o colírio de nitrato de prata e a vitamina K. Tomaz ficou um pouco chocado com o modo do pediatra de manejá-la. Ele era um pouco rude e mecânico, sem muita delicadeza no seu proceder. O que destoava muito das nossas expectativas sobre a forma de receber um bebê. Imaginávamos uma recepção suave, como a descrita por Leboyer no livro “Nascer Sorrindo”, bibliografia sugerida pelo médico. Mas infelizmente, não foi dessa forma que a Helena foi recebida pelo pediatra da equipe. Depois, senti um pouco de culpa, pela inércia de ter topado um “pacote fechado” de profissionais, sem tantos questionamentos, acreditando que seria o melhor para a nossa filha. Mas a culpa também traz reflexão, e pode ser construtiva desde que nos ajude a tentar fazer diferente a partir dali. E acho que toda essa vivência nos ensinou muito, ao Tomaz e a mim, do que queremos e do que não queremos para nós, daqui para frente.

Ao fim do exame e dos procedimentos, ele disse que ela estava ótima e nos entregou a nossa filhota. Mal percebi a saída da placenta e os outros procedimentos que foram feitos, boquiaberta, namorando nossa pequena. E aí comentei com o médico: “nossa, que bom, nem precisou ser feita a episiotomia, né?” E ele respondeu: “claro que fiz, senão poderia rasgar tudo”. Não gostei disso. Acho que deveria ter sido consultada, ou ao menos avisada dessa intervenção. Me senti desrespeitada por ser a “última a saber” que minha vagina tinha sido cortada “preventivamente”, para evitar uma possível e suposta laceração, que talvez nem acontecesse, com um expulsivo tão tranquilo e suave como foi o da Helena. Também pedi para ver minha placenta. Eles ficaram meio surpresos com o pedido, e foram atrás da placenta para me mostrar. Estava numa vasilha metálica, pronta para ser jogada fora, eu acho. Fiquei olhando para ela e achei um pouco esquisita, parecida com um fígado ou com aqueles órgãos imersos em formol em laboratórios. Acho que tinha uma ideia mais romântica do aspecto de uma placenta, rsrs…

Os profissionais da equipe foram indo embora, nos parabenizando e se despedindo de nós, e os enfermeiros do São Luiz foram maravilhosos, ao nos “esquecerem” lá na sala de parto, permitindo que ficássemos, nós três, nos conhecendo, até às 8:30h, momento em que Helena foi levada ao berçário, para o período obrigatório de observação, e eu ao pós-cirúrgico, mesmo sem ter feito uma cirurgia. Pedi para o Tomaz ir atrás dela, para que ninguém a roubasse de nós. Acho que fui tão incisiva no “vai atrás dela, vai atrás dela”, que nem dei chance para ele questionar, rsrs… Ao trocar de maca, para ser levada ao outro setor, levantei sozinha de cama, sob os olhos incrédulos do enfermeiro, desacostumado a partos normais. E, já no setor pós-cirúrgico, fiquei deitada na maca, sozinha, por cerca de uma hora, numa sala cheia de mulheres cesariadas. As enfermeiras vinham, a cada trinta minutos, e davam uma espiadinha, perguntavam se eu já sentia os movimentos nas pernas. E eu dizia que sim, que em momento algum tinha deixado de senti-los. Mesmo assim, fiquei lá de “castigo”, pelas normas e protocolos, por cerca de uma hora. Foi quando liberam um quarto, e lá fui eu. Tomaz já estava lá, meus pais e meus sogros também, todos estavam eufóricos. Diziam que Helena era uma bebê muito ativa, cheia de vitalidade, e que estava bem acordadinha, fazendo “ginástica” no bercinho do berçário, enquanto os demais bebês só dormiam. Diziam também que a Helena era muito parecida comigo quando bebê. Tinha uns olhinhos puxados, era bem cabeludinha, cabelos bem pretos, parecia uma esquimozinha. Meu pai, muito eufórico, dizia que quando a viu, sentiu-se como se eu tivesse nascido de novo. Nessa hora, bateu todo o cansaço de mais de trinta horas acordada. Lembro que as pessoas falavam comigo no quarto e os meus olhos fechavam, quase involuntariamente. Mais uma hora se passou, a porta do quarto se abriu, e Helena chegou nos braços de uma enfermeira. Um pacotinho lindo, enrolado numa manta lilás, com os dois olhinhos de jabuticaba bem abertos para o mundo. Foi uma emoção enorme revê-la, abraça-la, oferecer o seio. Parecia que tínhamos ficado horas afastadas. Esqueci o cansaço completamente e fui tomada por mais uma onda de euforia. Até que adormecemos, os três, num alojamento conjunto que perdurou até a nossa alta, na sexta-feira pela manhã.

O parto da Helena foi lindo demais, foi mágico, poético, um daqueles momentos que fazem a vida valer a pena. Sem dúvida, me transformou em outra mulher, mais forte, corajosa, mais fêmea, mais instintiva. Foi incrível me sentir parte de algo maior, sentir o poder da natureza fazendo o seu trabalho, sentir a dor e a intensidade de cada contração, sentir com as mãos a sua chegada, o nó da garganta ao vê-la pela primeira vez, as lágrimas involuntárias, o cheiro (inesquecível) e o seu calor. Gostaria de ter podido sentir ainda mais, sentir os três centímetros finais, a transição, sua descida, a passagem. Sentir tudo o que me pertencia. Sentir tudo de cara limpa. Por essa razão, as várias intervenções (anestesia, ocitocina e uma episiotomia “preventiva”), realizadas de forma quase protocolar, e das quais me questiono muito sobre a real necessidade, no meu sentir, roubaram muito da minha vivência. Principalmente a anestesia. E o que mais me frustrou com relação ao parto da Helena é que o limite que determinou o desencadeamento dessas intervenções não foi meu. Decorreram, em certa medida, da ansiedade da equipe em não saber esperar, não por agirem de má-fé em relação aos meus propósitos, mas por não estarem realmente preparados para lidar com aquela situação: um parto natural. E também da minha falta de maturidade, de empoderamento, não sei, que me deixou tão a mercê das decisões da equipe, tamanho era o meu medo de questioná-las, não bancar, e acabar numa cesárea. Se eu tivesse chegado a um ponto em que dentro de mim eu soubesse que não podia mais, que não estava mais aguentando de dor ou de cansaço, que não conseguiria mais avançar, acredito que hoje, embora frustrada, eu estaria mais tranquila. Porque eu saberia que tentei tudo o que pude. Mas esse não é o meu sentimento. Eu tenho, no meu íntimo, uma convicção absoluta de que o meu corpo tinha plenas condições de parir naturalmente, de que tanto eu como a Helena estávamos muito bem, em nosso tempo, e me questiono quem ganhou alguma coisa com a “antecipação das coisas” promovida pelas intervenções que foram impostas. Helena nasceu às 6:20h. Talvez, sem as tais intervenções, teria nascido umas duas ou três horas depois. Na minha opinião, isso não teria feito tanta diferença assim quanto ao meu cansaço. Mas teria feito toda a diferença em relação a todo o resto porque, na realidade, essas “pequenas” intervenções não são tão pequenas assim. Por conta da anestesia, eu não senti a passagem da minha filha. Não senti a minha filha saindo de dentro de mim. Acho que esse é o coroamento do parto e, infelizmente, eu perdi essa parte tão importante.

Sei que cada história é uma história, que o melhor parto é o parto possível e que, naquelas condições, sendo eu quem era naquela circunstância, e assessorada por aquela equipe, dificilmente o parto da Helena teria sido diferente. Um parto normal hospitalar, com várias das intervenções desnecessárias do pacote. Tento pensar nas coisas legais que aconteceram em seguida ao nascimento da Helena, na forma delicada pela qual ela chegou ao mundo, sem chorar, olhando tudo, com aqueles olhinhos vesgos de recém-nascido, sendo recebida pelo pai, que cortou o cordão (tão curtinho, rsrs…) já depois de parar de pulsar, que deu o primeiro banho nela, toda enroladinha nas fraldinhas, e na delícia que foi termos sido “esquecidos” no labor do São Luiz, e termos ficados duas horas nos curtindo, só nos três, depois que toda a equipe foi embora. Penso também em como foi bom estar íntegra, disposta, inteira, nos primeiros dias que se seguiram ao seu nascimento, e em como pudemos compensar, com muito apego, leitinho e amor, tudo o que não foi da exata forma que eu imaginava para a sua chegada. Mas ter passado por tudo isso me transformou bastante, de modo que hoje, dois anos depois, me sinto tão distante de quem eu era naquele momento, e me sinto tão desencaixada naquele contexto, naquela equipe. E essa mudança toda reforça minha crença de que agora, com trinta semanas de uma nova gestação, gestando outra vida, e sentindo a cada dia Miguel, nosso pequeno Miguilim, fazendo festa na barriga, conseguirei um lindo parto natural, escolhendo por novos caminhos, novos profissionais, por um outro formato de assistência, e tentando acertar sempre, para trazer nosso segundo filho da forma mais digna, respeitosa e amorosa possível. Mas isso já é um tema para um novo relato.

vivipepice06




Anúncios

2 pensamentos sobre “Helena – Vivi & Tomaz

Comente

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s