Ana Luísa – Mariana & Gabriel

Por Mariana, mãe
41 semanas e 5 dias de gestação

O começo de tudo…
Era final de 2009. Eu havia acabado de me casar. Sempre tive vontade de ser mãe, mas ainda queria curtir um pouquinho a vida de casal, fazer umas viagens sozinha com o marido, curtir a nossa casa… Eu era daquelas que sempre achei lindo marcar horário no salão, fazer cabelo, mão e pé e ir pro hospital com hora marcada para o filho “nascer”. Magina, entre dar pontos na minha preciosa e na minha barriga, é muito melhor rasgar e costurar a barriga, certo?
Mas um dia, eu caí em um blog chamado Mamíferas. E eu fui lendo, lendo, lendo… Passei uns 3 dias lendo TODOS os posts. Absorvi TUDO. Vi o quanto eu estava errada. O quanto eu “estava” fútil ao pensar sobre o dia mais importante da minha vida. E lembro que comentei em um dos posts da Kalu, falando que elas tinham mudado a minha forma de enxergar o nascimento. Quando ela me respondeu que isso tudo na verdade já está dentro da gente, é só encontrarmos a melhor forma pra despertar (foi basicamente isso, procurei no blog o comentário, mas não consegui mais achar…), eu comecei olhar pra dentro de mim. Entrei em um longo processo de renovação, de pensar sobre a vida, de pensar na importância que o meu filho teria pra mim e o quanto era importante proporcionar a ele um nascimento digno, tranquilo, sem muitos sustos.
E aí, durante esse processo de renovação, eu descobri que havia um mundo humanizado. Onde mulher e bebê são tratados com respeito. Um mundo onde a parturiente não é chamada de mãezinha, mas sim pelo seu nome e tratada como mulher, não como coitada ou como ignorante.
Entendi que muito do que se faz com mãe e bebê durante o trabalho de parto, no momento do parto e após o parto não é necessário. Entendi que muito é feito para “acelerar” o processo do parto (os profissionais aprendem essas condutas na faculdade, que devem ser usadas quando necessário, caso se tenha algum tipo de problema ou situação especial, mas como isso “acelera”, eles acabam fazendo tudo em todo mundo… virou padrão e desconstruir tudo isso na cabeça dessas pessoas pode levar décadas). E quanto mais se tenta acelerar, quanto mais se intervém, mais perigoso o parto vai ficando. Seria por isso que o parto é considerado um evento perigoso por médicos e mulheres aqui no Brasil? Será que não percebem que quanto mais mexem na ferida, mais ela sangra? Que quanto mais tentam acelerar, mais prejudicam a situação? Não dá pra deixar a mulher trabalhar sozinha? Como é que os povos antigos faziam? Como é que as índias fazem? E não me venha com a história de que depois da cesárea o número de mortes no parto diminuiu consideravelmente. Os casos de morte no parto de antigamente se enquadram lá naqueles 15% recomendados pela OMS. Eram essas pessoas que morriam. A cesárea é bela, é salvadora, mas não dá pra ficar fazendo em todo mundo. Tirar um filho da barriga antes da hora por capricho é como fazer uma cirurgia para se tirar um pedaço do seu corpo…
A minha busca pela equipe
Entendido isso, vamos procurar quem são as pessoas em Campinas que podem me ajudar a parir a minha filha com respeito…
Cheguei ao nome da Dra. M. Guardei-o a sete chaves na minha cabecinha fervilhante. Continuei nas minhas pesquisas sobre corpo, parto e bebês durante todo o ano de 2010. E em janeiro de 2011 começamos as tentativas de encomendar o nosso bebê. E conseguimos! Assim, de cara, no primeiro mês!!! :-)
Apesar de ter lido muito, eu ainda tinha na minha cabeça a ideia de que poderia ser um desperdício de dinheiro gastar dinheiro com pré-natal particular e mais ainda, com o parto. Mesmo depois de um ano, eu continuava na ingenuidade, achando que eu ia encontrar um médico de convênio que fizesse um parto normal, pelo menos, ganhando o que o convênio paga, afinal, se ele se conveniou, ele sabia o quanto ia receber né?
No primeiro mês fui a três médicos diferentes. Vou poupá-las das bizarrices, mas devo dizer aqui que sempre fui tratada como “mais uma”. Sim, eles eram fofos, mas me atenderam em 15 minutos, seguiram um padrão, foi tudo no automático… E eu detestei aquilo. E marquei com a Dra. M.
Ai meu Deus, que diferença. Até o marido, que não concordava muito em gastar com o pré-natal, entendeu a diferença, e não titubeou em me ajudar a escolher uma data para a próxima consulta em que ele pudesse me acompanhar. Ele sempre foi daqueles q dizia q ia trabalhar muito para dar o melhor para o seu filho. E ele entendeu que a forma como ele chegaria ao mundo também importava muito. Fizemos as contas, economizamos, negociamos pagamento, e ficou tudo certo! :-) E afinal, a gente já tinha gasto dinheiro com tanta coisa na vida… Com viagens, com festas, com carro… Por que seria um absurdo gastar com o nascimento do meu filho? (um outro ponto: profissional humanizado também oferece forma de pagamento humanizada! Não acho que ninguém deva trabalhar de graça, afinal, não são voluntários e assim como nós, eles também tem contar pra pagar e também tem o direito de colocar um preço no trabalho deles, mas é tudo amplamente negociável. O preço do trabalho deles acaba sendo muito menor do que o valor que esse trabalho tem. E depois, descobri que eles chegam a cobrar até menos do que muito médico anda cobrando por aí pra fazer uma cesárea em 30 minutos).
Ali, com ela, eu fui tratada como mulher, como a Mariana, e não como uma paciente qualquer. E além das perguntas de rotina que ela deveria me fazer, foram outras perguntas que me cativaram e desenrolaram uma conversa gostosa em uma consulta de quase uma hora.
Dra M. – Como você chegou até mim?
Eu – Por que eu quero ter parto normal e me disseram que você faz.
Dra M. – Eu não faço parto normal.
Eu – Ah. Não?
Dra M. – Não… quem faz é mãe e bebê. Eu acompanho o parto, ou faço cirurgia cesariana, se necessário.

#teamosuamédicalinda!!

Dra M. – Como está a gestação? Como você se sente, não fisicamente, mas emocionalmente em relação a ela?

Ali eu vi que ela era a MINHA médica. A pessoa que eu procurava pra ter do meu lado no dia mais importante da minha vida. E foram muitas consultas, explicações, discussões… Eu sempre pesquisava bastante, pensava nas minhas dúvidas e ia pra consulta. Eu esperava ansiosamente pelo dia do pré-natal. Eu queria encontrá-la, eu queria conversar com ela, eu queria ouvir as histórias que ela tinha pra me contar. Ela me contava sobre as limitações dela e eu contava a ela as minhas. O meu maior medo, desde sempre, era o medo de indução com ocitocina sintética. Além disso, eu enxergava a indução como uma “meia” cesárea eletiva, pois eu estaria provocando um trabalho de parto, que beneficiaria muito o bebê, mas que também começaria antes da hora correta.
Eu e o marido começamos a frequentar o Samaúma por indicação dela, e lá conhecemos doulas e outras pessoas que pensam como a gente. Eu nunca cogitei um parto domiciliar pois a cidade onde eu moro tem apenas um mini hospital público, sem UTI neonatal nem nada disso. Como 10% dos partos domiciliares acabam tendo transferência pra o hospital, mesmo sabendo que a maioria dessas transferências ocorrem porque a mulher quer tomar analgesia, eu acabei decidindo ter um parto hospitalar. Para chegar até o hospital em Campinas seriam mais ou menos 40 minutos. Sempre li que em um parto domiciliar, o recomendado é que se tenha um hospital a 15 minutos. Como eu não me sentiria segura ficando em casa, longe, ou na casa de outra pessoa em Campinas, eu decidi que teria um parto hospitalar e sempre fui muito segura da minha decisão. Hoje eu vejo que foi uma decisão muito acertada.
A gravidez passou, correu tudo bem… mãe saudável, bebê saudável… Com 39 semanas começaram os pródromos. Algumas vezes as contrações chegavam a ritmar, mas aí eu entrava no chuveiro e tudo passava.
O parto…
Chegamos às 41 semanas.
Eu sempre soube das limitações da minha médica, e quando entramos em 41 semanas, ela conversou comigo, disse que a partir dali seria mais cautelosa e que queria me ver dia sim, dia não. Me pediu um ultrasom para monitorar a vitalidade da bebê. Tudo ótimo com a gente. Com 41 semanas e 2 dias (era um domingo), nos encontramos novamente. Fizemos uma cardiotocografia e estava tudo bem. Ali, eu pedi a ela que me fizesse o descolamento das membranas (vocês já vão entender o porque). Eu tive um pouquinho mais de contrações, mas o trabalho de parto não engrenou.
Eu sempre estive consciente de que na sexta (que eu estaria com 42 semanas) a GO viajaria em férias. Ela me avisou desde o início.
Eu comecei a ter muito medo de a minha filha não nascer a tempo e eu ficar sem a possibilidade de ter a Dra. M comigo. Para mim, apesar de todo o medo da indução que eu tinha, eu tinha muito mais medo de acabar caindo nas mãos de outro médico. De um médico qualquer, que quisesse seguir todos os procedimentos de rotina desnecessários para um parto normal. Ou mesmo de um méRdico, que quisesse me enfiar uma cesárea guela abaixo indicada pela pressa dele. E eu não queria ter esse tipo de stress a essa altura do campeonato.
Na terça-feira, dia 25 de outubro, quando saí de casa para encontrar a médica (nesse dia ela estava de plantão no hospital onde eu planejava o meu parto e foi lá que nos encontramos), eu já saí de casa levando a minha mala, a mala da bebê, passei a noite conversando com o marido e havíamos decidico conversar com a Dra. M sobre uma indução.
Lá, expliquei que não estava segura em esperar e acabar precisando de outro médico. Eu tinha consciência de que a indução poderia demorar 24 horas, e ter mais 24 horas de TP e aí, levando em conta uma margem de segurança, aquele era o dia ideal para mim. Ainda assim, não seria ela a médica quem me examinaria antes de deixar o hospital, pois ela já estaria fora. Mas tudo bem… Eu só fazia questão dela no meu parto, eu sabia que com ela, ninguém me faria algo desnecessário. Ela não deixaria isso acontecer. Por que eu queria me entregar, não queria ficar me preocupando com isso na hora P.
Ela me disse que concordava que a indução poderia ser uma boa opção, mas me percebeu aflita e me pediu para ligar para a minha doula (que é psicóloga) e fazer com ela uma sessão de descarrego, pois ela achava que algo no meu emocional poderia estar barrando o meu trabalho de parto.
Combinado.
Às 19h30 eu entrei no quarto do hospital. Estava com um medinho, confesso. Estaria eu cometendo um crime ao induzir o parto da minha filha antes de 42 semanas só pra poder ter a certeza de que teria a assistência da pessoa em quem eu confiava?
Então ela entrou no quarto e colocamos o primeiro comprimido de Misoprostol. Se não me engano, foi apenas meio comprimido. Ela me disse que começaríamos com uma dose leve, aos poucos, pois o meu colo ainda estava bem grosso e desfavorável, e eu continuava com o mesmo 1cm de dilatação do dia em que fizemos o descolamento das membranas.
As 21h, a L. (a doula) chegou. Conversamos muito até mais de 22h. Chorei. Coloquei os monstros pra fora. O meu marido também colocou os medos dele pra fora. Enquanto conversávamos, eu sentia a barriga endurecer com mais frequência, uma dor leve, como cólica menstrual forte…

Pausa:

A participação do marido em TUDO na minha gestação foi mais que fundamental. Ele frequentou comigo todas as reuniões do Samaúma que pudemos ir, ele também tirava as dúvidas dele, perguntava muito. Sempre me apoiou muito e entendeu de verdade o quanto uma cesárea mal indicada ou desnecessária pode ser prejudicial para a mulher e para o bebê, e brigou junto comigo pelo nosso parto.

Por volta de 00h30 do dia 26, o GO que estava de plantão no hospital entrou no nosso quarto para colocar mais misoprostol. Depois, me examinou e disse que o colo continuava completamente desfavorável, que eu podia esperar que minha filha nascesse apenas na quinta-feira, dali a umas 36 horas. E que as 6h30 da manhã ele voltaria para colocar mais meio comprimido.

Eu tinha que ficar uma hora deitada com o comprimido.
Eu não consegui ficar uma hora, pois eu estava com MUITA vontade de fazer xixi. Por volta de 1h20min eu levantei e fui ao banheiro. Eu continuava sentindo aquelas contrações, que pareciam estar frequentes, mas como eu sabia que tudo podia demorar muito, desencanei e nem controlei o tempo delas. Fiz xixi, coloquei meu pijama e deitei. Quando estava me ajeitando na cama, senti um PLOC dentro de mim, que veio junto com uma contração bem forte. Achei que tivesse sido a bebê me chutando, assustada com a contração. Conforme eu me mexi na cama, chuááááá… Muita água rolou! Chamei a enfermeira, que avisou a minha médica e disse que logo ao amanhecer iria para o hospital e caso houvesse algo de diferente, deveríamos ligar para ela.
E eu fiquei feliz… se o colo estava desfavorável, se o misoprostol não havia surtido efeito, era a minha filha que dava o sinal dela de que ela queria nascer. E eu só não pulava de alegria, porque as contrações estavam mais doloridas.
Fui pro chuveiro com a bola e lá fiquei. A dor foi ficando mais forte e as contrações mais frequentes. O marido entrou no banheiro, sentou no vaso e ficou ali, me observando, conversando comigo.. e falávamos sobre a nossa princesa que estava chegando.
Por volta das 3h da manhã, doía muito. Eu gritava de dor. Mas quando eu mesma refletia sobre os gritos q eu estava soltando, eu percebi que meus gritos eram mais de desespero do que para aliviar a tensão. E ali, no meio do trabalho de parto parei pra pensar e lembrar dos relatos que havia lido e escutado, e comecei a tentar amenizar a dor de outras formas. Além disso, pedi para o marido ligar para a doula. Ela havia nos avisado que tinha tido um parto naquela manhã, que estava muito cansada, pois ela também está grávida, e deixou outra doula que nós também conhecíamos e é uma pessoa MUITO bacana de sobreaviso. Quando ele ligou para a L e ela não atendeu o telefone, eu não tive dúvidas, e pedi para ele ligar para a D.
Depois disso, tudo fica muito confuso (muito do que vou contar aqui foi relatado pelo meu marido). Uma lembrança que eu tenho: eu ficava com a bola dentro do box e ela tampava o ralo. O banheiro e o quarto ficaram alagados diversas vezes. O marido e 3 enfermeiras passaram boa parte da madrugada passando rodo e secando tudo, para depois de meia hora, terem q secar tudo de novo.
Pausa:
Esse hospital tinha uma sala de parto humanizado, com banheira, que foi fechada devido ao pouco uso (só a Dra. M usava) e acabou dando espaço a uma UTI Neonatal maior e mais espaçosa. Sim, claro, porque com o aumento de cesáreas eletivas, aumentou-se também o número de bebês precisando de um tempinho na UTI após serem tirados da barriga (eu me recuso a chamar isso de nascer, ofenda quem ofender).
O marido me contou depois que ele ainda me monitorou por mais 40 minutos, conforme orientação da D, e ligou para ela novamente. Eu já estava com contrações de 3 em 3 minutos.

Ela saiu de uma cidade vizinha, chegou no hospital as 4 e pouco… Pra mim, parecia que havia passado só uns 10 minutos. Pensei comigo: “nossa, como ela chegou rápido”… Mas q nada.. eu tava sem noção nenhuma de tempo.

Foi tudo ficando mais forte, mais intenso… E vocalizar foi o que me ajudou a lidar com as contrações. Eu fiquei embaixo do chuveiro mais um tempão, com contrações já de 2 em 2 minutos, com apenas 25 segundos de duração. Contrações curtas e frequentes. Quando eu saía do chuveiro, as contrações ficavam com uma duração maior. Sem usar esse argumento, a D e o meu marido me pediam para sair do chuveiro as vezes. Eu não queria de jeito nenhum, ficava pior… Doía muito mais.

Hoje eu não consigo mais descrever como era a dor que eu sentia. Eu só lembro que doía muito a minha lombar. Lembro também que era uma dor muito maior do que eu imaginava que poderia ser, mesmo eu tendo passado a gravidez toda me preparando para a pior dor. Mas eu focava minhas energias… Pensava que cada dor daquela trazia a minha filha pra mais perto de mim. Que aquelas dores estavam fortalecendo a minha bebê para nascer. E seguia em frente.

Por volta das 5 da manhã eu já estava exausta. Eu estava acordada há quase 24 horas, cansada… muito cansada… e comecei a pedir analgesia.

A D conversou comigo, disse para eu pensar bem se era isso mesmo que eu queria, para eu primeiro esperar a Dra. M me examinar, porque se eu estivesse já perto da dilatação total, talvez eu quisesse repensar a necessidade da analgesia.

Mas eu estava cansada. E a lombar pegava muito.

A D e o marido começaram a fazer uma pressão no osso da bacia quando vinham as contrações. Aliviava MUITO. A dor na lombar que eu sentia, era a bebê descendo. Por isso, a pressão nos ossos ajudava a descida dela e me aliviava a dor. Outra coisa que me aliviou muito foi esticar o corpo em cima da bola durante as contrações. A D estava sentada no sofá e o marido próximo aos meus pés, em uma cadeira. Quando vinha a contração, eu me esticava. A D me segurava por baixo dos braços, para que eu pudesse soltar o corpo, eu apoiava os pés no colo do marido e massageava a lombar na bola.

A presença da D foi fundamental no meu trabalho de parto. Ela me ajudou a lidar com uma contração de cada vez. Sem lembrar da última, sem pensar na próxima. Uma de cada vez. E eu continuava vocalizando pra aliviar.

Pausa:

Durante toda a minha vida, toda a minha tensão sempre foi acumulada na lombar. Bastava eu ter uma preocupação maior, que era a lombar que doía. Agora, na hora P, não seria diferente…

Eu estava tendo contrações de 1 em 1 minuto. Mas elas continuavam curtas. Por volta das 7 da manhã, a Dra. M me examinou e depois de uma noite toda muito louca, com direito a urros e 2 mini vomitadas (mini, porque eu não tinha comido quase nada e sempre que me ofereciam algo, eu não queria comer) eu estava com… tchanaaaan… míseros 4cm de dilatação. Aí eu desanimei. Estava MUITO cansada. Por incrível que pareça, eu conseguia cochilar entre uma contração e outra. O tempinho que eu tinha entre uma contração e outra, apesar de curto, era o suficiente para que eu conseguisse dar uma cochiladinha, mas o meu cansaço era muito maior. Arreguei.

Pedi analgesia. Não dava mais.

Pausa:
Sabe aquele negócio de se empoderar? É completamente verdade. Mesmo me preparando para esse momento por mais de um ano, eu sinto que faltou mais empoderamento dentro de mim. Eu acho que fiquei meio confortável pois sempre soube que estaria no hospital e eu nunca tive problemas em pensar que se precisasse, pediria analgesia. Acho que isso me enfraqueceu.

Aí a M disse que ainda era meio cedo, que isso poderia estacionar o TP e me pediu pra esperar mais uma hora e meia. Eu fiz ela jurar de pé juntos que ela voltaria me buscar em uma hora e meia. Ela jurou (na verdade, ela estava ali no hospital o tempo todo, mas não ficou muito perto da gente, o que eu acho que foi ótimo pois se ela tivesse ficado ali, eu não teria conseguido esperar mais todo esse tempo em paz, sem ficar pentelhando ela, e perderia o foco nas contrações).

Conforme o combinado, depois das 9h ela chegou no quarto, já de touquinha, pronta para entrar no CC. Quando eu a vi, acho que quase me joguei no colo dela de felicidade.

Veio a enfermeira perguntar se podia trazer a cadeira de rodas pra eu ir pro CC.

Oi?

Pausa:

As enfermeiras foram ótimas, deram um super suporte durante a madrugada, eu alaguei aquele quarto 15mil vezes e eu não vi ngm fazendo cara feia, e sempre ouvia elas falando pro marido que parto normal era assim mesmo.

Maaaaas… como nem tudo são flores nessa vida, sempre tem q ter uma sem noção na história. As 6 da manhã, depois que trocou o turno, eu estava no chuveiro, vocalizando, me concentrando nas contrações e bem no meio da contração teve uma bela que teve a cara de pau de olhar pra mim e perguntar: “tá doendo muito?”. Eu pensei comigo que devia mandar ela tomar no kool, mas fiquei quieta. Não respondi. O marido disse que eu olhei pra ela com um olhar transtornado, e ele logo fez a boa ação de tirar a menina da porta do banheiro.

Pausa 2:

Além do suporte, é importante ter uma doula porque com o marido a gente acaba perdendo a noção. Às vezes, eles precisavam me falar alguma coisa e quando eu escutava a voz dele, eu só conseguia fazer XIIIUUUU e mandava ele ficar quieto. Com a D, eu me comportava. Ouvia e respondia. E tinha consciência de que ela não era o meu marido, ela não precisava estar ali comigo naquela hora da madrugada, q ela estava sendo muito legal de me ajudar e eu nem tinha vontade de fazer XIIIUUU pra ela

Respondi q de jeito nenhum, que eu ia andando.

Fui andando e me agachando no meio do caminho. Eu sentia muita vontade de fazer força. Muita mesma. Fui urrando. Entrei no elevador e me agachei. Cheguei no CC, segurei na cama e fiquei abaixada no chão, esperando o anestesista chegar. Eu tinha pouco mais de 5cm de dilatação.

Gente… eu sempre defendi o parto natural, continuo achando que é a melhor opção, mas a minha lombar tava destruída e ele me deu uma dose bem fraquinha. Eu continuei me movimentando, andando, rebolando, sentia as coliquinhas e a barriga contrair, mas a dor na lombar sumiu!!

Depois da analgesia, eu deitei na cama e dormi por uns 30 minutos. Quando acordei, já tinha 8cm! Relaxar me ajudou a deixar o corpo trabalhar.

Aí, levantei da cama e fiquei na bola… Depois apoiei um dos pés em um degrau e fui rebolando, pra ajudar a terminar de dilatar e ir ajudando a bebê a descer. Mais 10 minutinhos, dilatação total!!

A M chegou com a banqueta de cócoras, forrou o chão e sentou ali na minha frente, colocou o marido sentado em uma cadeira atrás de mim para me apoiar.
Pausa:
A essa hora, eu já tava começando a sentir dor de novo. Mas a dor agora estava no bumbum. Sinal de que a bebê já tinha descido bastante.

Eu ficava em pé, e quando tinha contração, agachava. Fiz isso umas 4 vezes e a bebê acabou de descer.

E eu tinha muita vontade de fazer força. É mesmo aquela força de vontade de fazer cocô. Não tem outra coisa pra definir. Mas a gente sabe que o que vai sair é muito mais fofo e cheiroso… hehehe

Depois de ir fazendo força, senti a cabecinha dela coroando. Passei a mão e senti os cabelinhos dela. Percebi que ela era super cabeluda e fiquei ainda mais curiosa pra ver a carinha dela.

Uma força gigantesca, e a cabecinha dela saiu. E eu só escuto a M falando: “Mari, olha aqui, que garota danada, tá resmungando!!!”, outra contração veio, e o corpinho dela saiu.

Que sensação indescritível a do corpinho dela passando por mim. E junto, veio a sensação de que eu tinha conseguido. Eu havia parido a minha filha. Como eu sempre sonhei e como eu achava que ela merecia.

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O ar condicionado da sala foi desligado, as luzes foram diminuídas assim que a cabecinha dela apontou. E ela saiu e veio para o meu colo, toda sujinha de sangue e de vernix, com um cheirinho de bichinho que eu me lembro até hoje. Eu tinha vontade de lamber ela, literalmente… Ela era simplesmente deliciosa. Então o cordão foi cortado e o pediatra a levou. Quando ela saiu, como eu estava de cócoras, caiu muito sangue, muito líquido, muita coisa em cima do rostinho dela. Meu marido foi atrás para ver o que o pediatra ia fazer, enquanto eu me levantava e deitava na cama para esperarmos a placenta sair a a M verificar o períneo, que ficou íntegro e eu só tomei 2 pontinhos nos pequenos lábios.

Pausa:

Confesso que arrisquei. A M insistiu para que fossemos para outro hospital da cidade antes de eu me internar, onde poderíamos levar uma pediatra de confiança. Disse que naquele dia estava de plantão a pediatra mais chata do hospital (eu já sabia o nome dela e já tinha uns 50 dias que ela estava em minhas orações, para que não estivesse com a gente no nosso parto), mas a minha intuição me dizia que eu devia ficar ali. Que era ali que a minha filha ia nascer. E… de repente, quando a Ana nasceu, apareceu um outro pediatra pra pegá-la. A chata havia trocado o plantão com ele por um motivo particular!!!!

Se arriscaria de novo? Não sei… sinceramente, acho que não vale a pena. Eu confiei muito no poder da minha fé e tinha certeza que não seria a pediatra chata que nos atenderia.

O marido viu tudo. Até então ela estava quietinha no meu colo, foi só o pediatra pegá-la e ela começou a chorar. Morri de dó, mas eu sabia que isso podia acontecer, estava ciente e não podia me condenar por isso. Ela foi pesada, limparam ela, analisaram o apgar, o Capurro e já voltou imediatamente para o meu colo. O neonatologista pediu para a assistente dele que ela tivesse calma, que deixasse a bebê bastante comigo para que ela pudesse ficar no meu peito e reconhecer a família. Enquanto a M terminava de verificar tudo, ela ficou com a gente, e ficamos ali, os três, namorando e nos conhecendo. Ela não quis mamar, mas ficou brincando no peito, nos olhava, fixava o olhar na gente. Ela ficou no meu colo mais ou menos 40 minutos e depois ficou mais uns 15 minutos no colo do papai, que ficou todo apaixonado por dela. Assim que foram me levar para o quarto, a enfermeira levou ela para vestir a roupinha.
Eu assinei um termo de responsabilidade para que não pingassem o colírio nela e o marido ficou junto, verificando tudo, e realmente não pingaram. A vitamina K injetável, depois de ler muito, pesquisar muito e ponderar bastante, decidi autorizar.
Assim que cheguei no quarto, em menos de 5 minutos, ela chegou também e foi pro meu colo.
Eu estava meio fraquinha, e fiquei ali sentada na cama, esperando um pouco. A M pediu para que eu só tomasse banho depois de comer. Ela nasceu as 11h40. Por volta das 13h eu estava almoçando e as 14h, eu já tinha tomado banho sozinha e lavado a cabeça.
Eu nem posso dizer q minha recuperação foi ótima, porque na minha cabeça, eu não tive do que me recuperar. E eu via aquelas cesariadas pelo corredor, andando com a mão na cicatriz e de novo não conseguia entender como alguém pode fazer uma cirurgia por opção…
Pausa:
Quando temos um “problema” de saúde que não é grave, primeiro sempre se tenta resolver pelas vias menos invasivas. A cirurgia, quase sempre, é a última opção. Por que isso se inverte quando o assunto é parto?
Sei que se tivesse sido um domiciliar, poderia ter sido ainda mais lindo, mas eu fiquei extremamente satisfeita com o nosso parto. Apesar de ter tomado analgesia, eu fiquei satisfeita com ela também, pois não fui privada de movimentos e pude sentir a minha filha nascendo. E eu realmente precisava dela naquele momento. Eu já não tinha mais forças pois estava cansada e não conseguia comer.
A sensação dos hormônios trabalhando nosso corpo é indescritível. Eu queria ter um parto por mês. Foi uma experiência transformadora, eu senti que renasci. A cada contração, sentia que a filha ia morrendo e a mãe ia nascendo. É inexplicável. E eu queria já no dia seguinte reviver tudo, passar por tudo de novo. É uma experiência que eu recomendo a todas as mulheres e quando vejo alguém dizendo que sabe o que é melhor pro seu filho e por isso acha que tem direito de fazer uma cesárea eletiva, o meu coração sangra. Primeiro pelo bebê, que sai do trabalho de parto fortalecido. E segundo pela mulher, porque a experiência de parir é única do sexo feminino e abrir mão de passar por isso, pra mim, é deixar de viver uma das experiências mais incríveis que uma mulher pode ter.
Por fim, porque esse relato já está mais do que longo, eu gostaria de deixar alguns recadinhos para aquelas que ainda estão pensando no parto:
    1. Cuidado com médicos fofos e médicas queridas se você é uma pessoa que deseja parto normal. Na maioria das vezes, eles são o caminho mais curto para a faca no Brasil.
    2. O parto é seu. Quem deve buscá-lo é você. Não espere que o seu GO te entregue tudo pronto, de mão beijada. Isso não vai acontecer. Se ele for o protagonista da situação, a gente já sabe o que vai acontecer.
    3. Não ache um absurdo ter que pagar por um profissional humanizado. O trabalho deles realmente vale muito mais do que aquilo que o convênio oferece como pagamento por um parto. Se é a sua vontade, não fique achando que é coisa pra rico. Com conversa e planejamento, eu afirmo que a maioria das pessoas pode ter um parto humanizado. Profissional humanizado também sabe humanizar o pagamento. O valor do trabalho deles é muito maior do que o preço cobrado. Encare a chegada do seu filho ao mundo como um investimento. Ele merece esse momento!
    4. Cuidado com a contagem da idade gestacional. O Capurro da Ana foi 1 semana e 5 dias menor do que a contagem da idade. Se eu tivesse feito cesárea eletiva, eu teria grandes chances de causar um problema pra ela, afinal, 13 dias de útero fazem muita diferença pro pulmão do bebê!
    5. E por último, não encare o parto como um evento perigoso. Não é. Isso não é verdade. Ele se torna perigoso a partir do momento em que se faz na mulher o que não deveria ser feito, e mais, ainda é feito fora de hora. Estar ativa no parto faz toda a diferença. Eu não consigo me imaginar tendo contrações deitada em uma cama, como é feito na maioria dos hospitais. O parto é natural do corpo da mulher, é fisiológico, e nós podemos fazer isso. A prova disso? A Suécia é o país com a menor taxa de mortalidade de mães e crianças no parto e depois dele. E lá, parto natural é a primeira opção, cesárea não é opção pra ninguém e muitas mulheres optam por parto desassistidos em casa. Se fosse realmente perigoso, eu acho que o índice de mortalidade deles estaria entre os mais altos. E isso acontece em diversos países da Europa. Quando você for buscar as informações para o seu parto, você vai entender o que eu estou falando ;-) Você pode saber mais sobre o parto pelo mundo aqui nesse blog do projeto Parto pelo Mundo.
“A humanização do nascimento não representa um retorno romântico ao passado, nem uma desvalorização da tecnologia. Em vez disso, oferece uma via ecológica e sustentável para o futuro”

 

(Ricardo Herbert Jones)
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