Eduardo – Elisa & Marcelo

Por Elisa, mãe
40 semanas de gestação

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O começo de tudo

Por onde começar a contar o nascimento do meu filho? Fico pensando onde começou o Eduardo… Na nossa cabeça, no coração mesmo, muito antes da barriga… Sempre quis ser mãe, parece que isso orientava minha vida, desde a infância até mais pra frente, na época de pensar seriamente o futuro.

Aí fico pensando… qual é a diferença entre meu parto e o nascimento do meu filho? Entre ser mãe e ter um filho? Tantas vezes gente deseja uma coisa, sem saber bem o que é de verdade e só depois vai descobrir…

Aprendi e agora cada vez mais sinto mesmo que o modo como fomos bebês, cuidados por nossas mães tem relação com a forma como vamos exercer nossa maternidade. E que isso a gente decide até certo ponto. Tem muita coisa que nem percebemos, outras que agimos mais pela intuição… E sempre aquela ilusão de poder corrigir o que achamos que deu errado… Será que um pouco não é um desejo de corrigir o passado, de resgatar as próprias raízes?

No meu caso tem umas coisas bem fáceis de perceber e entender, mas acho que tem tantas outras que ainda nem devo ter idéia. Espero seguir em um caminho que permita ver e compreender cada vez mais. Do que posso saber e contar, tem um pouco da história do meu próprio nascimento

Apesar de minha mãe ter um estilo de vida até que bem natural e querer um parto normal, era nova, não tinha experiência e era o auge da era das cesáreas. Assim, o médico deu uma boa desculpa pra uma indução bem impaciente seguida de uma cesárea. Só depois minha mãe soube que ele tinha viagem marcada pro dia seguinte. Nasci com menos de 2,5 kg e sempre tive a sensação de que não estava preparada, que minha mãe e eu sofremos uma violência desnecessárea e fomos privadas de uma experiência tão linda quanto natural. Até hoje tenho certa mágoa desse médico e prevenção com a maioria deles. Pelo menos minha história fez com que ficasse esperta para o modo como as coisas são…

Sempre quis ser mãe, era daquelas meninas que brincavam de boneca o dia inteiro e queria ter 10 filhos. Demorou um pouco pra ter de fato, mas antes disso fui me aproximando do tema do nascimento. Fiz psicologia e resolvi estudar e trabalhar com os bebês, depois e antes de nascer. Cada vez mais fui me convencendo da importância, para o bebê e para a mãe, de um nascimento bem natural. No começo achava algumas coisas bem radicais, como dispensar a anestesia ou episio, mas depois fui me abrindo e entendendo que tudo que é natural é, quando possível, melhor. Fiz um curso de doulas com a Lucia Caldeyro, que foi maravilhoso apesar de nunca ter atuado. Ainda, pelo menos. Na época que engravidei sabia mais ou menos o que eu queria, mas ainda aprendi muito! E com certeza ainda tem o que aprender sempre.

Gravidez

Depois de 4 meses de casamento e uns 5 anos de namoro, já estava doida para ter filhos, mas queria me programar com calma. Parei com a pílula e comecei a tomar as vitaminas. Meu marido, o Marcelo, estava menos decidido, preocupado em esperar o melhor momento, um aumento, essas preocupações bobas que homem tem.
Teve um dia muito importante, o casamento de dois amigos nossos que hoje são padrinhos do Dudu. Na festa, emocionados, perguntei ao Marcelo se poderíamos encomendar nosso bebê no ano novo. Ele concordou e foi um momento lindo. Mas poucos dias depois descobrimos que eu já estava grávida!! Tudo diferente do que eu imaginei, tudo mais lindo ainda!!
Logo liguei para a doula mestra Lucía, que me indicou a maravilhosa dra. Betina. Cheguei a ir a uma consulta com minha GO antiga e perguntei sua posição sobre tipo de parto. Ela respondeu que não era radical nem para um lado nem para o outro. Agradeci e percebi qual era a dela. Eu já tinha entendido que pra parir precisava encontrar um médico bem “radical”.
A gravidez foi bem tranquila, foi um período maravilhoso. Marcado por expectativa, desejo de recolhimento, sono, calor e fome! Sentir meu bebê crescendo e se desenvolvendo dentro de mim era muito mais real e maravilhoso do que eu poderia imaginar. Desde o comecinho fiz aulas de yoga com a Luciana Carvalho, e isso foi bem importante para a preparação pro parto em todos os sentidos. Foi na aula que senti o Dudu se mexendo pela primeira vez. No começo nem conseguia acreditar, mas depois me convenci de que era mesmo verdade! Algumas semanas depois o Marcelo conseguiu sentir também, acho que isso aproximou nós dois e, principalmente, aproximou eles dois. Sinto que eles têm uma relação muito boa de pai e filho. Desde a barriga o Dudu mexia quando ele punha a mão ou conversava! Muita gente diria que é imaginação, mas por que não acreditar? O Marcelo sempre achou que seria um menino e ficou muito feliz quando descobrimos que era mesmo. Eu, que sempre achei que teria uma menina, na gravidez não tive nenhum palpite…
A gravidez passou tão rápido!! A partir das 12 semanas, que é e tempo que eu precisava pra me sentir mais segura, tudo aconteceu rápido mesmo! Como pode o tempo passar tão rápido e tão devagar ao mesmo tempo?
Fui me preparando pro parto, lendo, participando meio passivamente da lista e indo um pouco ao Gama. Acho que era uma fase de recolhimento mesmo, minhas trocas e conversas aconteciam mais com a Luciana, que acompanhou cada semana da gravidez. Tem doula de antes do parto? Ela foi mais ou menos isso! Achei que fosse sentir muita falta de ter amigas grávidas, mas essa rede faz esse papel. E continua fazendo…
Foram 40 semanas exatas, de acordo com os meus cálculos (a partir do dia que eu sabia que ele tinha sido concebido, não da DUM, que era antes, nem do US, que era depois). Consegui terminar meus trabalhos, mas não deu tempo de ficar ansiosa, achando que não entraria em TP. Na verdade estive relativamente tranquila, considerando minha ansiedade habitual…
Desde o meio da gravidez já tinha umas contrações, que foram ficando cada vez mais frequentes conforme o tempo passava. Algumas semanas antes do parto isso pra mim era um bom sinal, de que as coisas estavam afinal acontecendo e que eu podia confiar no meu corpo. Meu maior medo não era o parto em si nem a dor, mas o nada. Medo de nada acontecer, de não entrar em TP, como minha mãe. Mas fui vendo que era só deixar que isso iria sim acontecer!
Alguns dias antes do parto estava tendo muitas contrações, prncipalmente à noite, a cada 15 minutos mais ou menos. No fim de semana andei bastante, aproveitei pra fazer coisas que depois demoraria pra fazer, como tomar um longo café na padaria ou passear no parque. E dormir! Na segunda feira tive consulta com a Betina, estava tudo bem e ficamos metade da consulta vendo um lindo filme de parto (gente, que médico faz isso?). Lembro de ter comentado com ele que a parturiente parecia nem perceber que estava pelada, e de pensar que eu iria querer pôr pelo menos uma camisolinha… Acho que ela pôs o vídeo porque achou que minha ficha não estava caindo, quis me aproximar da realidade de um parto… O negócio é que eu estava apreensiva, um pouco ansiosa, mas não com medo. Era pra ter medo? Não sei…
Mas que o vídeo fez efeito isso fez!

O parto  

Naquele dia tive um almoço pra comemorar o aniversário da minha prima, mas eu estava cansada, mal humorada, querendo ficar sossegada. Fui pra casa, minha irmã veio junto e dormimos à tarde (que sorte que fiz isso!). À noite, contrações mais frequentes, mas ainda sem dor, consegui cozinhar e arrumar tudo. Acordei às 3 da manhã, já sentindo algo diferente. Nas outras noites também tinha acordado com as contrações, mas não doía. Fiquei tentando descansar, mas uma hora resolvi contar e estavam durando um minuto, a cada 5! Deu também aquela vontade de ir ao banheiro e muita fome, de fato algo estava bem diferente! o Marcelo estava também envolvido, mas conseguiu domir mais um pouco. Fui pra sala, porque não dava pra ficar deitada. Consegui descansar um pouco sentada, vendo o sol nascer Foram horas muito boas, sentindo meu bebê por dentro pelas últimas horas e ouvindo música. Pus para tocar um cd que o Marcelo tinha gravado pra mim anos antes, o primeiro presente que ele me deu, e que sempre me trazia uma sensação boa, de paz. De manhã ele acordou e esperamos ate as 8 para ligar para a Betina. Falei também com a Maíra, que estava doente e chamou a Natália. Nunca achei que conheceria minha doula só no trabalho de parto, mas ela foi ótima. Veio em casa, viu que eu estava com 2 cm de dilatação, ligou pra Betina, que confirmou que o tp estava em andamento! Que alegria e alívio, realmente meu corpo funcionava!! O Marcelo ligou avisando que não iria trabalhar (os colegas dele estavam mais ansiosos que eu!). Liguei pra minha mãe, que prometeu manter a discrição com minha família enorme e fofoqueira. Até que ela conseguiu, mas não resistiu a vir me ver à tarde com minha irmã a tiracolo. Minha avó também ligou, e consegui disfarçar, ela não percebeu nada. Falei também (na verdade quem falou foi o Marcelo e minha mãe, eu só dei um oi…) pelo skype com meu irmão e com uma amiga, que estavam fora do Brasil e não poderiam vir mesmo.
Passei o dia com contrações cada vez mais intensas, mas pra minha surpresa a frequência se manteve constante. Quando eu andava elas se aproximavam, quando parava afastavam. Eu queria andar pra elas virem mais, mas não dava vontade porque doía!
E eu que achei que já estava adiantado, porque acordei sentindo a cada 5 minutos! Acho que quase até o fim ficaram assim. Tomei um banho tão quente que caiu o dijuntor. E procurei manter a tranquilidade. Já estavam fortes as sensações, e fui me lembrando das técnicas e respirações que aprendi na yoga. Nesse momento isso ajudou bastante, parece que era como se eu estivesse mais segura, mais ou menos (bem mais ou menos, claro) conhecendo o caminho…
Lá pelas 10 da noite a Natália voltou, e logo depois veio a Betina. Estava tudo bem, 5 pra 6 cm. Eu tinha alimentado, durante a gravidez, a idéia de ter o bebê em casa, mas o Marcelo não sentia segurança e sozinha eu não bancava. Nessa hora não me deu vontade de sair, mas como a sala de parto natural do São Luiz estava disponível, achamos melhor não perder a oportunidade de usá-la. Hoje já acho que faria diferente…
Isso tudo foi no dia 7 de junho, e dia 8 era aniversário da Betina, eu já sabia por causa da festinha que estavam planejando pra ela. E que me deu o maior medo de atrapalhar… Passamos a meia noite no carro dela, que nos levou pra maternidade (ainda bem, o Marcelo não estava em condições de dirigir…) e demos os parabéns, entre uma contração e outra. Nossa, aliás, o que foi aquilo de ter contrações no carro? Cada buraco parecia que o bebê iria nascer ali mesmo! No caminho falei com minha mãe, avisei que estávamos indo e ela queria porque queria ir junto. Foi um custo convencê-la de que ela não tinha nada pra fazer lá, não ia ver a gente nem nada. No fim ela se convenceu e foi só de manhã.
Chegando no hospital, o Marcelo foi preencher fichas e eu fui com a Betina e a Natália (que entraram no SL abraçadas , dando risada) fazer os exames. Tudo certo, contrações fortes confirmadas pelo aparelhinho, fomos pra tal sala de parto natural. Surpresa: tinha acabado a luz do hospital e o gerador só funcionava pra algumas coisas. Ficamos com medo de não ter água quente, mas foi só um susto… ficamos no escurinho mesmo, o que foi melhor. Logo que chegamos lá a Betina me “ensinou a gritar”: Eu estava respirando cada vez mais forte nas contrações e ela me sugeriu gritar de um jeito grave, empurrando o diafragma pra baixo. Coitada, deve ter se arrependido disso, quase que ficou surda em pleno aniversário! No começo eu ainda alternava com as respirações da yoga, mas no fim (digamos, as últimas 5 ou 6 horas) gritar era só o que eu conseguia fazer. Chegava uma contração e lá ia eu gritar de novo. O Marcelo adora contar que eu parecia um animal selvagem… (eu estava preocupada com os gritos e perguntei pro Marcelo se dava pra ouvir de fora da sala. Ele disse que não, mas depois contou que era mentira). Claro que no dia seguinte eu estava bem mais mansinha e sem voz… Como muda de repente, em poucas horas passamos da ferocidade total à ternura plena…
A parte mais chata do parto aconteceu justamente depois que chegamos ao hospital. a frequência das contrações caiu muito, parece que tudo parou de repente. Ficou tão sem sentido, aquela turma toda no hospital, naquela sala fria e estranha e nada acontecendo… Lembro de ter falado pra Betina que o hospital tinha estragado tudo e ela me respondeu que se eu achasse que estragou, aí que estragaria mesmo. E que se fosse o caso poderíamos voltar pra casa. Foi importante ouvir isso. Parei pra pensar e reformulei, dizendo que o hospital só tinha atrasado um pouco o processo. Mas sendo assim, tínhamos que esperar… A Betina e a Natália se aninharam no sofá, o Marcelo na poltrona e eu na cama. Todo mundo dormindo e eu gritando de vez em quando. As contrações estavam mais espaçadas mas quando vinham eram bem fortes! E o maior frio! A coisa toda só melhorou uma hora que eu levantei, fui no banheiro, andei um pouco e, em vez de voltar pra cama, fui sentar no colo do Marcelo, na poltrona. não sei porque não tinha feito isso antes! Tão mais quentinho e aconchegante, parece que eu estava de volta em casa! Tadinho, gritei tanto no ouvido dele! Mas a partir daí acho que o TP voltou pros eixos. Deve ter sido a ocitocina!
Quando estava bem forte de novo a Natália sugeriu que eu fosse pro chuveiro. A água quente melhorou um pouco e fiquei lá um tempão, até me bater um sentimento de culpa ecológica e desligar um pouco a água. Claro que depois esqueci isso e voltei pra água. Também fiquei na bola, ajudava um pouco.
A parte engraçada foi que eu tinha separado biquíni, bermuda pro Marcelo, touca de banho, etc. e deixei tudo na mala, que ele “despachou” na recepção. Mas de verdade, naquela hora eu estava como a mulher do vídeo do dia anterior: nem lembrava que estava pelada. E olha que nunca fui assim, muito pelo contrário, até de mim mesmo tinha vergonha! Mas fiz a escolha de me entregar mesmo, e de deixar pra trás essas inibições que pudessem me atrapalhar. E foi a melhor coisa! Só que eu cismei de não querer molhar o cabelo, com medo de morrer de frio depois. As duas me ajudaram a prender e foi assim mesmo.
Lembro de partes do que aconteceu depois, alguns flashes, parece.
Lembro de sentir dor, muita dor, mas não lembro mesmo de como era a dor
Lembro de ficar dividida, querendo que as contrações viessem, que elas trariam logo meu filho pra mim, e de uma parte de mim não querer mais senti-las
Lembro de conversar com a Natália sobre como a anestesia era ruim, e de ela ter falado que ela desacelerava o parto. Eu, que já nem queria ouvir falar dela, nem deixei entrar na minha cabeça a idéia de tomar.
Lembro da Betina de vez em quando vindo ver se estava tudo bem e de como era chato todo tipo de exame, mesmo sabendo que era importante. E ela sempre dizia que estava tudo bem com o bebê.
Lembro muito do Marcelo lá, presente, fazendo carinho, massagem ou só companhia. Ele também estava cansado.
Lembro que não dava pra me mexer durante as contrações, era quase impossível, doía muito. Tinha que ficar estátua quando elas vinham.
Lembro da Natália falando que pelo jeito que eu estava gritando dali a pouco eu iria querer fazer força. Fiquei feliz!
Mais para o fim as contrações estavam absurdamente fortes, mas irregulares. Às vezes emendavam várias, às vezes ficava alguns minutos sem vir. Nessas vezes eu simplesmente apagava. Não era um sono, era quase um desmaio, eu ficava fora do ar. Era isso, fora do ar ou gritando. É isso a tal partolândia? Eu imaginava que iria ver ou falar coisas absurdas, tipo alucinações, mas foi assim…. E eu ainda estava achando que primeiro as contrações tinham que se regularizar, diminuir a frequência pra depois ele nascer. Parecia que não ia acabar nunca!! Eu falava “por que ele não sai logo?”, como se esquecesse que na verdade estava falando do nascimento do meu filho!

Eu queria sim que acabasse logo porque estava sendo um desafio enorme, mas naquela hora era como se eu fosse aquilo, como se eu fosse o parto.
Lembro que em algum momento alguém encheu a banheira, mas não lembro nem quem, nem quando nem como. Mas que eu fiquei contente, era um sinal de que a coisa estava andando. E foi muito bom ficar lá.
Lembro também de querer muito saber quanto tempo faltava, quanto ainda conseguiria aguentar. Teve uma hora que eu queria que a Betina me dissesse e o Marcelo foi perguntar. Ouvi por cima ela dizendo que então era o momento de não examinar. Acho que era porque eu ficaria ansiosa ou algo assim. Sei que teve uma hora que ela viu que eu estava com 8 pra 9 cm mas com não sei o que no colo. Tem algumas lacunas na minha compreensão e na memória, mas o que ficou pra mim é que tinha que fazer uma força pra o negócio funcionar. E fiz tanta força! Ainda bem que também tinha me desprendido do medo de fazer cocô, porque senão não teria conseguido fazer essa força toda. E no fim nada de cocô, ufa!
Ah, e lembro que a Betina disse que no fim eu não iria sentir tanta dor, mas pressão. E lembro de ter ficado esperando ansiosamente esse momento de diminuir a dor que não chegou! Só quando ele nasceu mesmo!
Outro flash que eu lembro foi de perguntar quando eles chamariam o Cacá. Acho que uma parte minha não tem jeito, quer estar no controle até nessas horas! A Betina, sempre muito pacientemente, disse que elas saberiam quando chamar. Fiquei muito feliz quando elas chamaram finalmente, era mais um sinal de que meu filho estava pra chegar e tudo aquilo estava pra passar. E ainda perguntei quanto tempo ele levaria pra chegar. Elas disseram que mais ou menos uma hora e que ainda ficaria esperando o parto. Eu desanimei, queria que ele chegasse logo (como se isso fosse magicamente trazer o Eduardo pro meu colo). Acho que eu falei que queria que ele nascesse logo ou algo assim, e a Betina falou algo sobre fazer força pra bolsa estourar, que ele nasceria logo. E que se ele nascesse antes do Cacá chegar, elas o pegariam. Fazer força, gritar e apagar de vez em quando era só o que eu sabia fazer naquele momento, parece que eu era aquilo, eu era o parto. Foi mais ou menos nessa hora que ela me falou pra pôr a mão e sentir a cabecinha dele. Senti, bem no fundo, que emoção!
Nessa hora eu estava na banheira ainda, numa posição estranha, e no fim trouxeram a banqueta, nem sei porque, e fiquei lá sentada. Foi lá que fiz as últimas forças (nessa hora acho que não estava mais gritando). O Marcelo me disse que estava vendo o cabelinho dele já. Vi a cabecinha do meu filho saindo de mim, e nunca mais vou esquecer essa sensação. Mais uma força e ele saiu, nadando como um peixinho, e logo veio pro meu colo. A imagem do rostinho dele, literalmente recém nascido, vai ficar pra sempre gravada. Ele, lindo, com sua carinha de Dudu, que reconheço todos os dias… Eu olhei pro meu filho e pensei “então era você que estava aqui dentro?”. Já conhecia ele tanto, mesmo sem ver…
Fiquei com ele um bom tempo, tentando mamar, logo fiz mais uma forcinha e saiu a placenta. O Marcelo cortou o cordão, com alguma dificuldade. Pegou o Dudu no colo e foi mais uma cena linda. Desde a gravidez até hoje parece que esses dois se entendem! Foi pesar (2,520Kg) e os dois fomos examinados (tudo ótimo, sem laceração, graças ao Epi-no), e voltou pro meu colo. A sensação era de apaixonamento e encanto total! Uma completude inexplicável! Amor e felicidade maiores do que achei que fossem possíveis!! Ficamos juntos algumas horas. O Marcelo foi avisar todo mundo, minha mãe veio nos ver ainda na sala de parto e almocei lá mesmo também, parece que toda a fome que não senti nessas 31 horas de trabalho de parto veio de repente! Eu achava que não tinha medo, mas talvez no fundo tivesse, e por isso tudo demorou tanto. Ou fosse pra ser assim mesmo, não sei porque. Mas ter sido deixada viver tudo isso foi a melhor coisa que já me aconteceu.

Reflexões finais

Achei o parto uma coisa muito crua. Acho que eu idealizava, romantizava a idéia do parto. Mas a realidade foi, pra mim, outra. Muito real, muito carnal, bem concreto mesmo, isso me assustou um pouco. Acho que eu achei também que iria ficar mais boazinha, tranquila, sem gritar…
E foi uma grande lição ver a beleza nessa realidade, a beleza sem romantismo.
Nos dias seguintes eu só chorava, lembrava do parto e chorava, de alegria e surpresa, susto, não sei explicar. Foi bem forte mesmo. Fiquei surpresa e muito contente com minha força, isso me deu uma autoconfiança que eu nunca tinha sentido. No fundo eu sabia que era possível, mas tinha um lado meu que duvidava um pouco que eu, eu mesma, fosse conseguir (afinal se minha mãe não tinha conseguido, por que eu conseguiria?). Sei que a própria Betina disse depois, na consulta pós parto, que na gravidez não tinha tanta certeza de que eu iria aguentar até o fim e também se admirou. Isso pra mim foi importante, porque estou acostumada a ser vista assim, como uma menininha, como alguém meio fraquinha, e isso é uma imagem que me incomoda muito, principalmente quando eu mesma me vejo assim. De verdade, isso é um ponto muito sensível na minha vida, e foi um passo importante para superá-lo.
Alguns dias depois também me lembrei de perguntar pro Marcelo se ele achava que eu conseguiria. Claro que na gravidez ele tinha dito que sim, mas eu não tinha certeza de que ele estava falando a verdade ou só tentando me passar confiança. Mas ele me confirmou que acreditava mesmo que eu conseguiria, porque “sou teimosa como uma mula”. Tudo bem, não é muito poético, mas o fato de ele acreditar em mim e na minha força foi uma prova de amor. E foi como se eu olhasse no espelho e percebesse ali alguém maior do que u sempre tinha visto antes. Ele foi esse espelho, o olhar dele me sustentou. Sei que fizemos isso juntos e que foi uma provação para nós dois.
Hoje certamente eu teria mais confiança para fazer tudo isso sem sair de casa. Mas não vou lamentar, este foi o nosso processo e tem sido tão bonito. Minha mãe sempre diz que o filho mais velho pega a “linha de frente”, os demais encontram pais mais sábios e experientes. Estou aprendendo muito com meu filho, estamos vivenciando tantas coisas novas juntos. Essa é uma missão nossa, acredito.
Acredito também que ele nos escolheu para ser seus pais, e agradeço a ele por esta escolha e a Deus por tê-lo nos enviado para cuidar. Não queria mais nenhum outro bebê neste momento, só ele!
Tenho também gratidão eterna por toda a equipe que nos acompanhou, de forma tão calorosa e humana. Sei que esse trabalho de “simplesmente” acompanhar, deixando acontecer naturalmente, é mais difícil do que parece. E imensamente importante. Sinto que o nascimento do meu filho representou mesmo um resgate com minha natureza feminina e animal.
E uma transformação de vida que ainda estou descobrindo o tamanho! Agora entendo porque dizem que nascemos de novo… E, surpreendentemente (pelo menos pra mim), continuamos sendo nós mesmas!

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