Tito – Fernanda & Felipe

Pela parteira
42 semanas de gestação

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Já era tarde da noite, umas 10 ou 11h, não sei.
As contrações não pararam desde a madrugada daquele dia. Não deram trégua, 
uma após a outra, fizeram aquele pequeno ser abrir caminho entre os ossos, 
músculos e tecidos da sua mãe. A cada contração, as mesmas dúvidas, ora 
pensadas, ora faladas: até onde isso vai? quando isso vai acabar? quanto eu 
consigo aguentar disso? porque não acaba? a que horas nasce essa criança? 
Nós mulheres modernas somos teimosas e queremos dar uma roupagem racional ao 
mais irracional e imprevisível dos eventos: o nascimento humano.

No caso da mãe em questão, Fernanda, tudo conspirou a favor. Uma casa com 
cara de lar, um marido querido e amoroso, uma equipe consciente das suas 
potencialidades, um dia bonito que começou gelado como uma manhã do inverno
que se despedia e que terminou quente com o bafo inspirador da primavera. 
Fernanda sempre soube o que queria para o nascimento do seu filho: paz e 
privacidade. Ela sabia que a única chance de ter ambos garantidos era se 
permanecesse em casa. Escolheu uma parteira e uma pediatra para receber seu
filho, e uma doula com quem já tinha uma íntima ligação desde meados da 
gravidez. Esse seria o seu time, a sua troupe, a sua torcida. A nós caberia 
o respeito à fisiologia do parto e à privacidade da família, o suporte nas 
horas necessárias e as intervenções em eventuais ocasiões.

O corpo de Fernanda funcionou como todas as suas ancestrais que garantiram 
sua presença aqui nesse planeta. Ocitocina natural, que provocava fortes 
contrações, a intensa sensação de estar se dividindo sob todos os aspectos, 
as endorfinas que confundem, amenizam e tiram a noção de tempo e espaço. O 
útero se contraindo e empurrando Tito contra o colo do útero, que se abriu 
milímetro por milímetro. Como pode um ser tão frágil e tão indefeso 
atravessar todo esse processo? Claro que ele também recebeu os mesmos 
hormônios que sua mãe produzia, e a endorfina inundou seu pequeno corpo, seu 
pequenino cérebro, e trouxe apenas prazer. Horas e horas de prazer, pois que 
não havia dor, apenas endorfina! A cada contração ele sentiu o abraço 
amoroso da sua mãe, ouviu a inconfundível voz confortante de seu pai, e a 
onda gigante de endorfina. Que viagem essa do Tito!

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Claro que a viagem da Fernanda foi outra, pois se as contrações provocavam 
uma sensação intensa, além das endorfinas ela sentiu dor a cada onda que 
vinha trazer seu filho. O parto é ambíguo para a mulher, cada contração traz 
para mais perto o momento de conhecer o seu filho, mas também provoca medo,
dúvidas, dor, e por vezes angústia. Muitas dúvidas! Dor e prazer, 
desconforto e alegria, suspense e ansiedade. Mas Fernanda sabia o que 
queria, mesmo quando, lá pelas 10h da noite perguntou: “Porque mesmo eu 
escolhi um parto em casa?”. E nas intermináveis manifestações de bom humor 
que acompanham essa mulher desde o primeiro dia em que nos conhecemos, 
Fernanda encontrou as forças para enfrentar essa desafiante jornada – a de 
trazer seu filho ao mundo de forma natural, integral, orgânica, íntima.

Naquelas longas horas da tarde, da noite e do início da madrugada, as outras 
quatro mulheres daquela casa estavam ali com o único compromisso de ajudar 
Fernanda, na medida do possível, a trazer seu filho Tito ao mundo da melhor 
forma que ela podia. A cunhada Camila, eu (parteria), a Maíra (doula), Ana 
Paula (pediatra). Cada uma com a sua função, mas todas com um só objetivo. E
o Felipe, marido gêmeo, se entregou igualmente ao espetáculo, integrando-se 
à dupla, acreditando com todas as suas células na capacidade de sua mulher. 
Juntos eles atravessaram o túnel desconhecido para ambos, acolheram a 
tempestade, enfrentaram seus lobos, renovaram seus votos, se admiraram 
mutuamente e tiveram a certeza de seu amor. Souberam que fizeram uma boa 
escolha ao selarem a união através da escolha da maternidade/paternidade.

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Apesar de todas as dificuldades, das longas horas de espera em contrações, 
das intermináveis horas de força e força e força, Fernanda não perdeu a sua 
fé, tampouco Felipe. Eles sabiam, e nos poucos momentos em que Fernanda 
demonstrava uma sombra de dúvida no cenho, Felipe redobrava seu carinho, sua 
fé, sua esperança e sua certeza na capacidade dela em fazer aquilo 
acontecer. Como se fosse num tango ensaiado à exaustão, quando um recuava, o 
outro avançava, certos de que aquele espaço vazio deveria ser imediatamente 
preenchido pelo outro. Juntos e abraçados eles avançaram passo a passo, 
movimento a movimento, naquela perfeita dança assimétrica. Contração após 
contração, hora após hora, centímetro após centímetro.

A manhã, a tarde, as horas sombrias da noite, a calada da madrugada. Os 
gemidos, a exaustão, as lágrimas. Os primeiros puxos, “Meu Deus, eu esperei 
tanto por isso, meu filho, meu Tito, venha para a sua mãe”. O coração 
cadenciado do Tito, seguro e forte, tum tum tum tum tum 130 vezes, 140 vezes 
por minuto. O corpo já vagaroso de Fernanda, a força redobrada de Felipe, a 
descida lenta e destemida do Tito, milímetro por milímetro, a bolsa das 
águas aparecendo, finalmente rompida, as águas límpidas que protegeram Tito 
por nove meses, o cansaço, as esperanças indo e vindo, as ondas. Mudança de 
posição, deita, levanta, anda, acocora, cochila. Felipe a cada minuto mais 
forte e desperto, Fernanda tem medo, eu vou conseguir?

Sim, Fernanda, você já conseguiu, daqui não volta mais, coragem minha 
querida! O óleo quente no períneo, a cabeça avançando, os cabelos negros e 
úmidos, a força a força a força. Nada mais pode deter os três, Felipe quer 
ser pai, Fernanda quer ser mãe, Tito quer ser gente! A coroa, o movimento de 
avanço e recuo, a última força, vamos Fernanda, está acabando querida! Eu 
estou com medo! Coragem Fer, coragem, está nascendo! A testa rósea do Tito, 
o pequeno nariz, as orelhinhas as bochecas, a careta, o queixinho.. Eu não 
acredito, querida nosso filho está nascendo! Ele gira a cabeça devagar, mais 
uma força Fer, ele vem lento para não machucar sua mãe, um ombrinho 
espremido o outro, “Meu Deus que aflição”, Fernanda está aqui, seu filho.

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O primeiro choro fraco, gentil, os bracinhos estendidos, quem vai me pegar? 
Felipe, venha aqui receber seu filho e colocá-lo nos braços da mãe. Querida, 
eis o nosso filho, como ele é lindo, obrigado, obrigado, obrigado. Fernanda 
recebe Tito, já com saudades, apara-o em seus braços e promete internamente 
fazer tudo para protegê-lo e amá-lo para sempre. Agora sim, entre os 
líquidos da bolsa, das lágrimas, do suor, tudo se funde nessa experiência de 
tamanho infinito: nasceu Tito, nasceu Fernanda mãe, nasceu Felipe pai. Ali, 
no aconchego da cama onde tudo começou, o final feliz. Uma família fundida 
através das intensas emoções.

E nós da equipe, abençoadas testemunhas do espetáculo da vida: ao mesmo 
tempo o mais intenso, e o mais simples! Tudo começado, vivido, e terminado 
no mesmo local, na casa da Fernanda e do Felipe. Ali fomos recebidas com 
carinho, deixamos a nossa marca e formos marcadas para sempre, na alma e no
coração.

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